Os Livros Ardem Mal

2008 Vintage: Pedro Serra

Posted in Balanço by Pedro Serra on Domingo, 18-01-2009

A minha selecção obedece apenas aos materiais em trânsito pelas esquadrias de uma mesa de trabalho. Mais além da contingência de linhas e ângulos desta fugaz e pessoal geometria, opto por referências que interessam certamente a outros leitores e outros espectadores. Sei que assim é porque, aliás, algumas das leituras e filmes que consigno na lista foram já motivo de conversa e troca de impressões com amigas e amigos fundamentalmente do âmbito universitário de Salamanca. Conversas dentro e fora da Universidade, sendo que o ‘dentro’ e o ‘fora’ da Universidade numa sociedade como a espanhola – 1 em cada 150 cidadãos tem um vínculo material com a instituição -, supõe obviamente fronteira difícil de objectivar. É este o cerne da magna allegoria do ‘mandarinato’ figurado pela obra de Miguel Espinosa. Independentemente do que significou em termos de obsessão pessoal, a metáfora expandida devolve-nos uma sociedade pré e pós-transicional galvanizada pelo ‘claustro universitário’. Daí que o fil rouge da minha escolha seja uma obra colectiva, fulcral para compreender a cidade onde vivo, dirigida por Ricardo Robledo: Esta salvaje pesadilla. Salamanca en la Guerra Civil Española, volume de 2007 cuja leitura me acompanhou no ano de 2008. Podia ter sido, é verdade, El atroz desmoche, de Jaume Claret, a condizer com os actuais avatares da universidade, contudo trata-se de livro editado em 2006. Enfim, aquém da contingência de linhas e ângulos daquela fugaz e pessoal geometria, os objectos referenciados destilaram “momentos de intensidade” variada, todos eles muito acima da média. Perceber porquê fica para o quinto milénio. Como nessa altura este texto será ilegível – pelos elevados custos de conversão da actual tecnologia à tecnologia do futuro, como anotou recentemente Benedict Anderson -, conformo-me com as conversas que motivaram, e que foram transcendentalmente como brindar com o imperdível Rioja La Vicalanda Reserva.

Melhor livro (literatura)

  • James Boswell, Vida de Samuel Johnson, Acantilado. ISBN: 9788496489844.
  • Herberto Helder, A faca não corta o fogo, Assírio & Alvim. ISBN: 9789723713718.
  • Paul Pope, Heavy Liquid, Vertigo. ISBN: 9781401219499.

“The world, my friend, I have found to be a great fool, as to that particular on which it has become necessary to speak very plainly”. Quem o diz é Boswell dirigindo-se a Sir Joshua Reynolds, a quem dedica a biografia publicada em 1791 – uma Ur-biografia, biografia de proporções colossais de um grande biógrafo. Traduzida para o espanhol por Miguel Martínez-Lage, sendo rigorosamente livro de 2007, acompanhou-me praticamente durante todo o 2008. Ainda, um livro de poemas, muito esperado por todos e em língua portuguesa (absolutamente); enfim, uma (agora reeditada) graphic novel de que pessoalmente estive à espera: um leite negro que sabe bem. Livros que fogem, cada um a seu modo e sem garantirem o modo, àquele resto que fosse só literatura. Uma vileza dos críticos, como já se disse.

Melhor livro (ensaio)

him_cattelan

  • Mark Alizart, dir., Les traces du sacré, Éditions du Centre Pompidou. ISBN: 2844263629.
  • Ricardo Robledo, ed., Esta salvaje pesadilla. Salamanca en la Guerra Civil Española, Editorial Crítica. ISBN 9788484329015.
  • Ángel González García, Dicho sencillamente. Arte y terror, SD Edicions. ISBN: 9788493657857.

Um catálogo que faz justiça a uma exposição memorável – do “Cristo com máscara de gás” de Groz a “Him” de Maurizio Cattelan (imagem que reproduzo) -, um volume colaborativo de historiografia local – nomeando com nomes e apelidos bandidagem que tem andado à solta – e um conjunto de ensaios de estética de Ángel González, “mestre” que aconselha profilacticamente a ir aos museus apenas em Domingos de chuva. A crítica, ainda, faz-se porque há que defender o ‘público’ dos artistas.

Melhor editora

Duas editoras consagradas: escolho a primeira pela edição completa de Benjamin, em curso; a segunda pela continuidade de edições de grande fôlego, sem interrupções. É o caso do James Boswell acima destacado. E, enfim, um novo projecto editorial, com acertos notáveis como El ritual de la serpiente de Aby Warburg, a que já tinha acedido em edição italiana e de que seria estupendo dispor de versão portuguesa.

Melhor filme

my_winnipeg3

Três filmes determinados aqui pelo interesse laboral, apenas um deles visto em sala de cinema, concretamente o primeiro. Os outros dois foram oficialmente estreados em casa, isto é, na “República Independente da Minha Casa”, como se diz num conhecido anúncio. Crónicas do indivíduo e suas responsabilidades, imersão em complexos processos quer privados quer globais (sócio-políticos, jurídicos, mediáticos), e a capacidade de fazer, imaginar e pensar nos limites da acção, da imaginação e do pensamento. A imagem dos cavalos congelados no rio, com algo de buñuelesco, é do documentário (“docu-fantasy”) de Guy Maddin. Topei pela primeira vez com a figura de Philipe Petit, o célebre funambulista de Man on Wire, logo após o 11-S, quando coligia informação para um texto sobre as Twin Towers. Em 1974, as torres ameaçavam ser um fiasco empresarial. Até ao momento em que Petit andou sobre o arame, como homem que anda sobre o vazio. Um passeio sem sentido e sem interesse que colocou as torres no epicentro da cidade e do mundo.

Melhor DVD

  • Luis Buñuel – La etapa mexicana, Cameo Media, 2008.
  • Colección Jean-Luc Godard y el Grupo Dziga Vertov (1968-1974), Intermedio, 2008.
  • Mbini. Cazadores de imágenes en la Guinea colonial, projecto de Pere Ortín e Vic Pereiró, Altaïr/We Are Here Films, 2008.

Mbini. Cazadores de imágenes é um caso notável, a vários títulos, de potenciação cultural de foundfootage. Neste âmbito específico, o documentarismo recente teve episódios verdadeiramente excepcionais, de um Un instante en la vida ajena a um Grizzly Man. O projecto Mbini, livro de fotografias e DVD com documentários de Manuel Hernández de Sanjuán filmados na Guiné Espanhola entre 1944 e 1946, foi também exposição homónima no Museo Valenciano de Etnología. Da Cameo, que encetou este Buñuel completo, aguardo entretanto o DVD do Glauber Rocha, metendo uma pela outra as colheitas de 08/09. O pack da segunda escolha inclui Un film comme les autres, British Sounds, Pravda, Le Vent d´est, Lotte in Italia, Vladimir et Rosa, One P.M., Schick, Letter to Jane: An Investigation About a Still e Ici et ailleurs. Pelo aniversário de 68.

Melhor blogue/melhor blogger

Longe da hipertensão dos tuttologi, três blogues lidos com assiduidade e sempre com grande proveito e igual prazer. Onde se lê desencanto, mas também vontade insubornável de beleza. Todos eles com assinatura, mesmo o blogue colectivo assinado como Addison DeWitt, provando algo francamente improvável: a pertinência do anonimato na bloguítica e, mais ainda, no âmbito da crítica (da crítica) de poesia.

[p.s.: Numa daquelas coincidências que não lembram ao diabo, o meu cão Flike acaba de farejar o computador. Sonâmbulo, meteu o nariz no écran, depois parece que olhou para mim. Envergonhou-me um bocado aquela espécie de olhar. Faço agora mesmo enter para tentar sair airoso da situação]

Comentários Desativados em 2008 Vintage: Pedro Serra

%d bloggers like this: