Os Livros Ardem Mal

2008 Vintage: Osvaldo Manuel Silvestre (I)

Posted in Balanço by Osvaldo Manuel Silvestre on Sábado, 17-01-2009

No mundo dos blogues, 2008 foi um típico ano «normal». O que significa que o medium estabilizou (e o meio nitidamente estagnou), pelo que a sensação que se tem é de que está na altura de a tecnologia produzir outra coisa que recupere o feitiço inicial dos blogues (e o Twitter não é essa coisa). Para mim, foi o ano em que deixei de ler blogues políticos, precisamente por ser nessa área que a estagnação mais visível é, apesar da fuga para a frente dos «blogues de blogues», numa espécie de contenda de boxe entre agremiações de bairro exactamente simétricas. Mas também porque é nos blogues políticos que percebemos como o meio é, ou pode ser, um jornal meramente remediado e como, ao contrário de todas as declarações (sobretudo as de nojo), é a política estritamente mediática o que mais entusiasma toda a gente – quase sempre à custa de uma vitimização do político, na sua acepção mais densa e perturbadora. É aliás na área dos blogues políticos que melhor percebemos a lógica autorreferencial do sistema mediático, na forma como esses blogues suplementam a informação chegada dos média tradicionais, desde logo por meio da vertigem temporal do comentário que a instantaneidade do meio permite. Faz assim inteiro sentido que nas suas edições em linha os jornais linkem as reacções dos blogues às suas notícias; como faz também sentido, mas agora dentro de uma anexação da lógica dos blogues à lógica identitária dos jornais, que estes publiquem selecções do que «de melhor» se publicou nos blogues no dia anterior, quase sempre provindo da zona mais «política» da blogosfera. Mais grave, porém, para mim: foi o ano em que o formato blogue de Pedro Mexia me cansou. Saudei por isso com alívio a notícia da extinção do Estado Civil (e aguardo com curiosidade o que lhe sucederá, pois o percurso de Mexia neste universo tem um valor não despiciendo de sintoma). Finalmente, e isso parece-me também um sinal de crise, ou de estagnação, foi um ano em que o fetichismo do «estilo» na escrita nos blogues foi objecto de todas as hipérboles e de todos os elogios. Não consigo deixar de ver aí um análogo, retórico e político, do narcisismo da Body Art na sua época heróica, mas numa versão francamente conservadora: a escrita como exibição de dotes (tal como antigamente se dizia das meninas que «tocavam piano e falavam francês»), uma reificação da retórica como valioso capital simbólico num mercado (o dos média) em que a massificação da escola – e dos cursos de jornalismo… – teve o impacto que se sabe sobre a qualidade média do que se publica e diz. Nesse domínio, a cena dos blogues é hoje a transposição mais convincente da cena agonística do literário tal como Balzac a fixou em Ilusões Perdidas: uma via de acesso a mais altos galardões, quase sempre na imprensa tradicional ou no «meio literário» em sentido lato. Ou então, num Balzac mais de «lírios do vale», um viveiro de escritores alimentados por uma concepção muito oitocentista do literário, destinada a desembocar em livro e em preciosismos (máximas, reflexões, aforismos, morceaux de bravure). Há excepções, claro, algumas delas registadas abaixo, sobretudo naquela zona em que algumas pessoas usam o blogue como quem «escreve» numa língua que ainda não existe.

Melhor blogue

1) Dias Felizes
Porque é um projecto de singularidade absoluta, a um tempo sem concessões e com todas as que contam: ao contingente, ao dia-a-dia, às imagens que nos passam pela retina antes de adormecer, enfim, ao ínfimo passional e às grandes obsessões que nos guiam. Porque é mais uma demonstração de como o todo não é igual à soma das partes (muito heterogéneas no seu perfil constitutivo). Porque vive «fora do mundo», isto é, no único lugar onde realmente importa estar. E porque é feito de literatura & cinema, como eu.

2) A Natureza do Mal
Às vezes parece desleixado e repetitivo, outras vezes fica calado por demasiado tempo, as duas pessoas que o animam parecem demasiado diversas, uma na sua contundência verbal, outra num mutismo que fala com eloquência por imagens, mas tudo funciona admiravelmente, entre a política feroz, as imagens (de procedência muitas vezes situ) que nunca enfeitam e a literatura, com preferência pelo verso. Continuo sem perceber inteiramente o título, mas já percebi menos.

3) Do trapézio, sem rede
O seu autor assina-se, com toda a reserva, LP, e o blogue, mesmo no «meio» dos blogues dedicados à poesia, faz figura de corpo pouco presente. É pena, pois na área da poesia e, mais especificamente, da tradução de poesia, é um objecto raro: pela dedicação à causa, i.e., pela dimensão de dádiva patente neste trabalho discreto mas persistente, pela qualidade das propostas, pela escolha dos textos (e pelo facto de estes virem antes dos autores, como deve ser), mas sobretudo por o tradutor, quase sempre excelente, declarar à partida as suas limitações de não-poliglota. Nesse sentido, é um blogue exemplar, não apenas por razões de ordem ética, mas porque questiona, na sua prática, a ideia da «tradução universal» a partir do imperativo do conhecimento do idioma original. LP pratica a tradução universal, sim, apresentando-nos autores de idiomas e literaturas distantes, mas muitas vezes em segunda mão: «sem rede», manifestamente. E isto, sobre ser a verdade inevitável da «tradução universal», relança produtivamente uma ideia de tradução como não-coincidência idiomática e como refracção, acrescento e enriquecimento do corpus poético das línguas de chegada, apesar ou por causa do não-poliglotismo do tradutor, uma criatura necessariamente limitada. Que a Weltliteratur seja um ideal necessariamente em segunda mão, e ainda assim decisivo para o nosso tempo, eis o que me parece uma inferência justa, e libertadora, do trabalho de LP neste blogue.

Melhor blogger

1) C., de Os Dias felizes
Intrigam-me várias coisas nela: o tipo de discurso que produz, nem definível como só-passional nem como não-crítico; a infindável capacidade para usar imagens e textos como dispositivos de afecção e pensamento; e, sobretudo, a óbvia impossibilidade de tradução e transposição do que faz no blogue para outro meio (por uma vez, o trabalho de uma blogger não dá livros). Enfim, e talvez por isso, a pessoa que em Portugal mais longe leva a lógica do suporte específico que é o blogue e que não é (i) livro, (ii) revista, (iii) jornal, (iv) diário, sendo tudo isso também. Um bloco-notas? Talvez, mas em suporte digital, pessoal e intransferível. Uma das grandes criadoras portuguesas do momento. Para mim, sempre impressionante.

2) Luís Januário, de A Natureza do Mal
Não tenho a sua capacidade de indignação, e tenho uma simpatia bissexta pelo direito à dita. O que significa que a minha paixão política é mais débil (crescentemente muito mais débil) que a de Januário. Ainda assim, aprecio a sua capacidade para distinguir os grandes embates dos que não merecem a nossa demora. E sobretudo aprecio a capacidade para produzir um discurso de fronteira, que não é (graças a deus) «comentário político» ou «activismo», mas antes uma forma de inteiro empenhamento pessoal no limiar de um, muito justificado, desespero. Daí a urgência que se desprende do que escreve, e que muitas vezes vitima ortografia, «estilo» e cuidados bloguísticos de apresentação, para não falar da métrica ou dos encavalgamentos drásticos dos seus versos sem igual entre nós, sobretudo pela sua pragmática surpreendente; ou as figuras para-ficcionais que vai criando, entre o simples pseudónimo e a alegoria, e a que às vezes dá nome, como neste fulgurante e recente anão suicida inspirado em Muñoz: uma destilação do bloqueio existencial e social do nosso tempo como não encontro em mais lado nenhum (talvez apenas no «Anjo boxeador» dos poemas em prosa do brasileiro Carlito Azevedo). Januário é um outro blogger cujo trabalho não parece poder dar livros, o que talvez seja um critério operativo de distinção entre os que pensam e trabalham o meio e os que simplesmente o usam (a esmagadora maioria).

3) Pedro Vieira, de Irmão Lúcia
Os rabiscos de Vieira fazem a sua fama no meio literário, mas o copyright autoral é aqui mais complexo, uma vez que envolve manifestamente a escrita. Atente-se, por exemplo, na arte do título, que quase sempre reforça o apelo dos rabiscos, fazendo aliás com que estes, quando sozinhos, porque desprovidos desses títulos (por exemplo na LER), percam muito do seu impacto, tornando-se deveras rabiscos. Muitos posts de Vieira, aliás, são praticamente só um efeito de título, que também por isso ganha às vezes uma extensão «abusiva» mas muito performativa. Registe-se ainda uma capacidade rara para captar flagrantes do quotidiano mais aparentemente banal, que em certas ocorrências, por uma inteligência das associações surpreendentes e do anticlímax, produz verdadeiras iluminações profanas. A escrita de Vieira vive aliás de um efeito de parataxe em que a sucessão e acumulação fazem do post um exercício sintáctico nos limites. Restam a charge nunca pesada ou desgraciosa e uma deflação muito controlada da pose autoral, nos antípodas dos casos mais famosos dos blogues nacionais. No todo, um mixed media que faz justiça às potencialidades do blogue enquanto meio e que, mais uma vez, não parece ser transponível para outro formato.

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