Os Livros Ardem Mal

Marx & Engels: 750 exemplares

Posted in Livros, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 14-01-2009

marxengels

As Edições Avante! (não esquecer o ponto de exclamação) republicaram há meses o tomo I das Obras Escolhidas de Marx e Engels, uma edição com data inicial de 1982-83, em três tomos. Da responsabilidade de José Barata-Moura, Eduardo Chitas, Francisco Melo e Álvaro Pina, o volume surge editado com o cuidado filológico que se esperaria dos organizadores e inclui, entre outras coisas, alguns dos grandes textos do Marx «jornalista»: «As Lutas de Classes em França de 1848 a 1850», «O 18 de Brumário de Louis Bonaparte» ou os textos sobre «A Dominação Britânica na Índia», em boa medida responsáveis pelo afastamento de Edward Said em relação ao marxismo. Isto para lá dos textos sobre «a questão judaica», o «Manifesto do Partido Comunista», ou o «Para a Crítica da Ecomonia Política».

É inútil chamar a atenção para a importância deste volume e destes textos. Mas como a insistência periódica em proclamar «retornos a Marx» parece sugerir que a amnésia – ou o primarismo de declarar Marx «ultrapassado» – vai também vitimando estas obras, permito-me citar as extraordinárias palavras iniciais do «18 de Brumário…»:

Hegel observa algures que todos os grandes factos e personagens da história universal aparecem como que duas vezes. Mas esqueceu-se de acrescentar: uma vez como tragédia e a outra como farsa. (…)

Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade, em circunstâncias escolhidas por eles próprios, mas nas circunstâncias imediatamente encontradas, dadas e transmitidas. A tradição de todas as gerações mortas pesa sobre o cérebro dos vivos como um pesadelo. E mesmo quando estes parecem ocupados a revolucionar-se, a si e às coisas, mesmo a criar algo de ainda não existente, é precisamente nestas épocas de crise revolucionária que esconjuram temerosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomam emprestados os seus nomes, as suas palavras de ordem de combate, a sua roupagem, para, com este disfarce de velhice venerável e esta linguagem emprestada, representar a nova cena da história universal. Assim, Lutero disfarçou-se de apóstolo Paulo, a revolução de 1789-1814 vestiu-se alternadamente com a  roupagem da República Romana e do Império Romano, e a revolução de 1848 nada soube fazer de melhor que parodiar aqui 1789 e ali a tradição revolucionária de 1793 a 1795. Assim o principiante que aprendeu uma nova língua: tradu-la sempre para a sua língua materna, mas só se apropria do espírito da nova língua e só é capaz de se exprimir livremente nela quando se move nela sem reminiscências e esquece nela a sua língua original. (pp. 434-5)

Espectros de Marx, ainda. E sempre, seria caso para dizer.  No que me toca, do lado de quem se interessa, por exemplo, pela questão das vanguardas, históricas ou não, ou pelas aporias do «Make it New» dos Modernos, não conheço melhor descrição de toda essa fenomenologia – ou daquela, hoje muito popular, que consiste em confundir a tragédia do Novo com a farsa do uso de minúsculas – do que esta. Em todo o caso, o ponto não é este. É que só há dias me apercebi, ao consultar a ficha técnica do volume, que adquiri por razões, digamos, académicas – a necessidade de ter uma edição citável em português – que a tiragem desta reedição do Tomo I das Obras Escolhidas de Marx e Engels é de… 750 exemplares.

O tempora! O mores! Ó tempo das rubras amoras… Como não lamentar que «as massas» não leiam Marx e Engels, e nem sequer os textos mais legíveis dos autores? E como não admirar, exclamativamente, a editora que tais riscos corre? Por outro lado, não deixa de se manifestar aqui uma curiosa «justiça poética», nesta aproximação da tiragem de Marx & Engels às tiragens de poesia (que não às do último Herberto, largamente triunfante sobre os clássicos do marxismo…).  Agora que a luz que se derrama destes textos já não consegue penetrar as trevas de néon do mundo demasiado iluminado que é o nosso, agora que estes textos podem ser lidos com a lentidão exigida pelos clássicos, é tempo, enfim, de a imensa minoria da poesia coincidir com a imensa minoria do marxismo. Não tanto a do marxismo que resta, hoje, mas antes a do marxismo necessariamente por vir. Porque é aqui que os grandes sonhos da poesia moderna – «Quanto mais poético mais verdadeiro», «Dar um novo sentido às palavras da tribo», etc. – se parecem harmonizar com os sonhos mais profundos de Marx. Mas talvez não com as suas iniciais reservas, muito «empíricas», no texto acima citado, já que «esquecer a lingua materna», «mover-se na nova língua sem reminiscências», parecem ser aqui tropos de uma revolução inalcançável, aspirações a uma perda de si que um invencível «princípio de tradução» faz soçobrar sob o peso das «gerações mortas» e o apelo aos «espíritos do passado». E contudo, mais adiante Marx transforma as reservas em pulsão utópica e a revolução emerge em todo o esplendor da sua «poesia» trágica:

A revolução social do século XIX não pode tirar a sua poesia do passado, mas apenas do futuro. Não pode começar consigo mesma antes de se limpar de toda a superstição perante o passado. As anteriores revoluções necessitavam de reminiscências da história universal para se dissimularem o seu próprio conteúdo. A revolução do século XIX tem que deixar os mortos enterrar os seus mortos, para chegar ao seu próprio conteúdo. Ali, a frase ultrapassava o conteúdo; aqui, o conteúdo ultrapassa a frase. (pp. 436-7)

Como já outros disseram, grande parte da literatura moderna está contida nesta extraordinária enunciação de um drama gramatical (o drama da formulação do sublime) em que «o conteúdo ultrapassa a frase», de Musil a Kafka, a Artaud ou a Beckett. E grande parte da reacção pós-moderna, sobretudo aquela que se pode resumir na confusão deste drama gramatical com fetiches como minúsculas ou falsa eliminação de pontuação, cabe no projecto de tentar fazer com que de novo (ou de velho) «a frase ultrapasse o conteúdo». A visão trágica da história em Marx necessita porém de uma pré-condição duríssima: «limpar[-se] de toda a superstição perante o passado», «deixar os mortos enterrar os seus mortos». Isto é, uma poesia (revolucionária) extraída «apenas do futuro»,  nenhuma necromancia – apenas o espectáculo da ruína sobre o qual porém Benjamin encenará a redenção possível do «nunca morto» e, por isso, ainda necessitado de justiça. É claro que estas palavras de Marx, muito mais do que com o leninismo, rimam sobretudo com a poética do primeiro futurismo (e cubofuturismo), de Dada ou dos Manifestos de Breton. E, como lembra Harold Bloom, a propósito do apelo desesperado de Artaud (ou de Marx?) a que os poetas mortos desapareçam de vez, o problema é que os mortos nunca morrem na cena da influência poética. Pelo contrário, cada novo poeta reactiva e ressuscita a cena em toda a extensão do seu drama psico-figural.

«750 exemplares» é pois a forma pós-histórica, não sei se trágica ou farsesca, do «partido vanguardista». Ou, em perfeita sobreposição, do projecto, conatural à grande literatura moderna, de «inventar um povo que falta» (Deleuze). Não é pouco nem muito; é a versão numericamente exacta daqueles «muito poucos» que, de acordo com Deleuze, se podem dizer escritores, aqueles para quem «Escrever é também devir outra coisa diferente de um escritor» (Crítica e Clínica, p. 17). Porque, para extrair uma inferência tipicamente Moderna deste Marx, para se ser escritor é necessário que a reminiscência do escritor e da escrita morra e seja enterrada de vez. E isto seria a Literatura, ou melhor, a Poesia, na versão vanguardista e alto-moderna do «18 de Brumário…»: um povo de 750 pessoas sonhando o povo que falta. Um conteúdo sempre além de toda a frase (que frase pode acolher o Odradek, por exemplo?). A justiça poética como enunciação de uma informulável justiça por vir.

Marx e Engels, Obras Escolhidas. Tomo I, Lisboa, Edições Avante, 644 pp., 2008 [ISBN 978-972-550-331-7]

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