Os Livros Ardem Mal

Dicionários & funcionários (uma adenda, por Nuno Júdice)

Posted in Poesia by Osvaldo Manuel Silvestre on Terça-feira, 13-01-2009

PALAVRA A PALAVRA

Percorro o dicionário como se fosse
um mapa. Um abegão despeja-me sílabas
no abecedário para que abeberem no abdómen
dos abexins. E as abitas que apodrecem num abismo
abiótico abolem adrede os abrolhos numa
adubação de adriças. Colo-as com o betume
das bigornas, e levo até ao fim dos bútios
o bustrofédon de uma asa de blatídeo brocada
no bordado de uma borrasca boreal. E corro
nas florestas de cariocaráceas,
de cariofiláceas, de cariopses, calcorreadas
por caripunas sem carisma, tirando cera dos carnaubais
carnavelescos para untar os caroás, ouvindo um carrilhão
de cartilagens dobrar uma caterva de catilinárias
sobre um catre de cautelosos catingueiros, cativos
do cavalete carpindo a caxumba das cega-regas. Uma dança
de danaides dardeja um débito de debuxos nos dedos
da deidade, enquanto dédalos delidos pelo delíquio
das demoras derriçam num diedro didáctilo, desencabrestando
uma diérese de duendes. Deito-as numa emulsão
de cachoeiras, e emurchecem na emulsão encastelada
das enciclopédias, encristando a ênfase do enigma,
enredadas no entardecer entaramelado
de um entojo de entropias. Flébeis, fluem filicíneas
numa filosofia filotáxica, fisgando fístulas flamantes
na fluorescência  de fornadas de franquias na frase, fingindo
uma fulguração de floreados onde fumegam funchos
no frontão das frisas sob um fragor de furacão. Nesse
gonzo de gongos, gorgorejam gárgulas gorgonáceas,
golpeando as gralhas com os gradis góticos
das goteiras, e guardando nas gargantas os gorjeios
das garças de guedelhas gotíferas. Sob o impacto de ilhargas
indolores, uma inopinada insídia insemina uma invernia
intumescida nas ipueiras iridescentes de onde jorram
jaculatórias de jambos, como janeiras jubilosas, jazendo
num jorro de jararacas. Jograis, joeirando as juras
jugulares de uma jeremíada juvenil, juntam-se
a jusante, e lamuriam nos lancis, lancetando as lascivas
larídeas de um lausperene de lavas enquanto as larvas
lambem um lençol de libações liberto da limalha
das litáceas. Malabaristas da malária, os malhadiços mancam,
moendo mandioca num magusto de mandíbulas. Manobraram
manómetros, manusearam mariposas, matraquearam
matalotes num matrimónio de matronas – e mediram
o megagrama das medusas nas meias-tintas de melífluas
melopeias. O nascituro náufrago nega os necrófobos,
nomeando a nervura dos nefelibatas; nivela a nevasca
num nexo de ninhadas nigérrimas, núbeis no ninho
das nonas; e normaliza nortadas com o número
dos numes, numerando noitibós com o nónio
da nomenclatura. Oh, obelisco de oaristos, objurgando
oblatas, ouve-se uma obliteração de ocelos na ociosa
oclusão de uma oferenda de ofídios. Ogiva de ofiúros,
um olho de osga omite a onicose onanista de um ónix
de oniscídeos. Que ópio opulento ordenou essa ordenha
de que se orgulham os orógrafos do orgasmo? Que paleta
de paleógrafo poliu esse plâncton de polípticos? Em que
paliativo de pálios se precipitou o predador de
penitências? Um paroxismo de palimpsesto percorre-o,
e pavoneia uma patilha do patíbulos, pisando uma plantação
de pistilos. Quantos quartilhos de quadrirreme quadruplicam
a quimera da quaresma, quantificando um quebramento de
quartzo no quebranto das querenas. Quiçá questione
a quietude dos quilombos; e o quinário quinchoso
do quintão deixou-o quite com o quintalejo, quinhoando
quinino para uma quinta-essência de quintãs. Num rabisco
de raciocínios o racionalista rompe rasuras num repositório
de remígio, roubando reminiscências de ranço à rangedeira
das ranhuras. E o rebatimento dos rebites recrudesce,
rectificando reflexos refractários a um refugo
de regougos na retranca em que respinga o ressoar
restringente do restolho, ronquejando rosáceas
numa ruminação rúptil. Sacrílego, saibra saiméis
com a salacidade dos salafrários. E salda salamaleques
como se fossem salmos, saracoteando sarabandas
numa saraivada de sarabatanas. Com um sulco saudoso, sublinha
a sépia uma serpe de sifões, silabando o silêncio
para uma silepse de silvos. E transforma em táctil tacómetro
a tabuada do talmude, tapando taliscas, tamborilando
tanganhos, tecendo uma tarja de tautonímias no tartamudeio
dos tenores. Mas tropeça num tirocínio de tiróide, e tomba
na torreira, transido de treva, num tresvario de trepanação
de tricorne trífido. Úlcera uliginosa, uiva ubérrimo no umbral
unciforme dos ungidos. Urge a untura de um universo
de urticária. Usa a ustulação das úvulas; e ufana-se das umbelíferas
undosas da ululação de umbigos. Vagueia nas valeiras, vaiado
por valquírias vaniloquentes. Vaporiza vareque num vasculho
de vau. Vela os vendilhões vergados sob o vime  de uma verborreia
de vencelhos, ventilando a ventríloqua ventura dos verdugos,
e vergastando veredictos no vergame dos vilipêndios.E
junto-me à xácara dos xamãs, chamando o xangô
para um xadrez de xarás, xifóides como xipófagos,
dando xeque aos xeretas num xingamento de xilomas como se
o xereta do xerife chupasse xerém no xinxim
de um xodó tão xucro como o ximango. Por fim, um zagalote
de zarzuelas zumbe zás-trás, zaragateiro, como zangarelho
que zela zibelinas num zeugma de zigurates onde ziguezagueiam
zigotos numa zoada zíngara, zoófagos zombeteiros, zonzos
com o zumbido zorooástrico dos zângãos que zurzem
o zurro do zéfiro com um zagalote de zínias.
 
8-1-2009

Nuno Júdice (poema inédito)

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