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Inquérito OLAM: Arnaldo Saraiva

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Domingo, 11-01-2009

arnaldo_saraiva

Arnaldo Saraiva é Professor Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Foi um dos fundadores do Centro de Estudos Pessoanos, que entre o final dos anos 70 e o início dos anos 80 viria a editar Persona, até hoje a mais importante revista dedicada a Fernando Pessoa, e a organizar os primeiros congressos de Estudos Pessoanos, lançando a maré alta da recepção do autor. Tem produção vasta sobre diversos aspectos da obra pessoana, tendo visto o seu volume sobre o Pessoa tradutor de poesia editado no Brasil. Dedicou-se à noção de Literatura Marginal/izada, tendo editado dois volumes de ensaios sobre a matéria. Professor, por muitos anos, de literatura brasileira, estudou vários autores brasileiros, com especial atenção ao século XX e às relações entre o modernismo português e o brasileiro, a que dedicou uma obra de referência entretanto publicada no Brasil, e organizou vários congressos de literatura brasileira na sua Faculdade de Letras. Preside à Fundação Eugénio de Andrade, tendo sido director da revista da Fundação, Cadernos de Serrúbia. O seu último livro publicado é a tradução da poesia de Guilherme de Aquitânia. Agradecemos a Arnaldo Saraiva a gentil colaboração com o nosso inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

Perguntas deste tipo lembram-me sempre uma frase do Hospital das Letras que D.Francisco Manuel de Melo colocou na boca de Bocalino:”Não há matéria no mundo mais perigosa que medir sangues e pesar talentos”. E neste caso o perigo não vem mais de nomear (uma, ou duas, entre várias obras de grande qualidade, mas de diversa modalidade ou extensão) do que de justificar. Porque só no acto de leitura ou dos seus efeitos se pode ter a única justificação satisfatória. Esquecido o risco, permito-me entender “ficção portuguesa” por “ficção em português”, pois há muito acho aberrante a divisão nacional ou nacionalista da literatura escrita na mesma língua (e às vezes até em línguas diferentes). Assim, anteponho o Grande Sertão:Veredas ao Livro do Desassossego, não porque um tenha sido fixado pelo autor (há exactamente 50 anos) e o outro se a abra a distintas montagens, não porque um seja uma corrida narrativa de cruzadas memórias e o outro seja estruturalmente fragmentário, não porque um prefira o espaço sertanejo e o outro o espaço urbano, não porque um promova a figura do herói e outro a do anti-herói, não porque um seja “contado”por um velho ex-jagunço e o outro “escrito” por um guarda-livros; é para mim claro que se trata dos dois mais sólidos “monumentos” da ficção portuguesa do século XX, mas parece-me impossível dizer qual deles é estilisticamente o mais envolvente e de conteúdo mais substancial, ou o mais relevante na referência às “profundas profundezas” do homem e da vida, e nas projecções simbólicas e míticas. Se a referência, a metáfora ou a alegoria do  “sertão” (e das suas “veredas”), pode ser tão rica e complexa como a da “cidade” (e das suas ruas), ela permitiu a Guimarães Rosa fazer uma mais extensa travessia (palavra bem ao gosto rosiano) do tempo e do espaço. Neste, que por sinal é o dos “gerais” (“campos gerais” de “Minas Gerais”), entra por exemplo uma exuberante natureza física, vegetal e animal que Bernardo  Soares de todo desconheceu; quanto ao tempo, no romance do mineiro não encontramos só alguma atmosfera típica dos inícios do sec. XX pois facilmente encontramos sugestões arcaicas, quer no comportamento dos homens e na sua ideologia maniqueísta (Deus e o Diabo, o Bem e o Mal), quer na linguagem e nos modelos intertextuais (lendas medievais, contos populares, novelas de cavalaria, romances do romanceiro, a começar pelo que amplia da “donzela que foi à guerra”, a que é fiel até na revelação de Diadorim/Diadorina; Machado de Assis, de que supostamente Rosa não gostava, teria mantido a ambiguidade…). Diferentemente de Pessoa/Soares, que só por excepção se afastou dos cânones da língua, Rosa/Riobaldo  valeu-se sistematicamente de arcaísmos, populismos e  neologismos, lexicais e sintácticos, recorrendo a numerosas e já inventariadas técnicas; para tornar mais autêntica ou verosímil a narrativa que pôs na boca do ex-jagunço, o escritor mineiro achou por bem simular uma oralidade que afinal pode parecer inverosímil, por fazer do sertanejo um mestre de língua e literatura, como os pastores de Virgílio, mas que implica  uma  revolução linguística e literária como há séculos não se via numa obra em português. O Grande Serão:Veredas é bem a obra de quem achava que é preciso renovar a língua para “renovar o mundo”, e que é preciso “escrever para setecentos anos.Para o Juízo Final.”

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

Não fugirei ao que parece óbvio (ululante). Mas não indicarei a Mensagem, o único livro publicado por Pessoa, pensado e escrito ao longo de anos e decerto rapidamente organizado mas impecavelmente estruturado: um livro coeso, breve, denso e emblemático, com partes, poemas e versos emblemáticos, que alguns quiseram empobrecer em leituras patrióticas, desentendendo o seu misticismo ou miticismo, que se dá com algum épico universal moderno. Indico quase o seu contrário: não as Canções da Derrota que o mesmo Pessoa só conjecturou, mas a Clepsidra, um livro sem veleidades místicas, míticas ou épicas, um livro que  não foi organizado pelo seu autor,  ou apenas um conjunto de poemas de Camilo Pessanha  que, como os fragmentos do Livro do Desassossego, formam um livro mutável, ou “indecidível” (Gustavo Rubim). Livro breve, todo antológico, de um poeta que aproveitou das teorias ou práticas simbolistas e decadentistas só o que podia fazer dele um moderno ou um clássico incomparável. Os seus poemas, às vezes dialógicos, às vezes confessionais, frequentemente elegíacos repelem, com a ajuda de símbolos concretos e minimais, de surpreendentes elipses e de ousadas deslocações sintácticas, a banalidade sentimental e a verborreia do comum lirismo português, revelam um cuidado perfeccionista no tratamento dos timbres, dos acentos, dos registos, da pontuação, das cadências ou dos ritmos nunca mecânicos dos versos em que nenhuma sílaba destoa, e privilegiam a figura de um enunciador coloquial, humilde, e frágil que se dá conta da  transitoriedade de tudo, da inevitabilidade da dor e das ruínas, das perdas ou dos destroços, e que até deseja antecipar o seu apagamento ou a sua dissolução. Esses poemas valem como luminosos auto-epitáfios, ou como as possíveis resistências pela solidez da arte verbal ao tempo que flui de que ela fala.
   
Nesta oportunidade, não posso deixar de lembrar que  o jornal lisboeta República organizou em 1914 um inquérito sobre “O mais belo livro dos últimos 30 anos”. E no seu número de 13 de Abril desse ano vinha esta espantosa resposta: ”A minha vibração emocional, a melhor obra de Arte – escrita dos últimos trinta anos (que a Arte timbra-se para os nervos a vibrarem e não para a inteligência medi-la em lucidez) é um livro que não está publicado – seria com efeito aquele, imperial, que reunisse os poemas de Camilo Pessanha, o grande ritmista. Ouvindo pela primeira vez os seus versos, fustigou-me sem dúvida uma das impressões maiores, mais intensas a Ouro e gloriosas de Alma da minha ânsia de Artista. Rodopiantes de Novo, astrais de Subtileza os seus poemas engastam mágicas pedrarias que transmudam cores e músicas, estilizando-as em ritmos de sortilégio”…  Falar assim de um livro genial que ainda não existia talvez bastasse para denunciar também o génio na altura ainda desconhecido de Mário de Sá-Carneiro.

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

Seriam diferentes. Supondo ver na importância que tiveram para mim a que tiveram  para outros, indicarei ex-aequo, no que se refere à poesia, O Pão e a Culpa de Vitorino Nemésio e Aquele Grande Rio Eufrates de Ruy Belo.O primeiro foi o primeiro livro de poesia que comprei, também porque, mal acabado de sair, chegou miraculosamente – ou por fama da “conversão” do autor – à pequeníssma livraria beata do burgo beirão onde fazia o meu 5º ano.Custou-me então a entrar no seu cerrado metaforismo religioso e profano, na sua dicção elíptica e na sua por vezes arrevesada sintaxe; mas, intimista e lapidar (releia-se: nada nele envelheceu), ele vacinar-me-ia contra o modelo regiano que me era trombeteado, ajudando-me também a distinguir entre uma poesia derramada, grandiloquente, teatral, leve ou leviana, e uma poesia moderna enigmática, reflexiva ou problemática, até na auto-ironia. Quanto a Aquele Grande Rio Eufrates, pude lê-lo antes de ser impresso e sobre ele logo comecei a escrever o que viria a ser o meu primeiro (e muito incipiente) ensaio, que teve edição autónoma, onde o dava como “exemplo para a poesia actual” e onde indicava alguns motivos dessa exemplaridade, que se faria sentir ao longo da segunda metade do sec.XX: a relação com Deus dos “vencidos do catolicismo”, a poesia do quotidiano, o pendor épico moderno, a ambiguidade ou o hermetismo, o metaforismo, a obsessão da palavra ou da forma… Mas não esquecerei o impacto que em mim e noutros causou a energia criativa ou a alta voltagem da linguagem de Pena Capital de Cesariny e de O Amor em Visita, de Herberto.

 Por falar neste, sublinharei a importância de Os Passos em Volta, que desmoraliza as fronteiras da poesia e da prosa, do conto e da crónica (ou da autobiografia, ou da memória), do fantástico e do real…. A terminar, ser-me-á permitido assinalar também a importância incomensurável de um livro mesclado de poesia e prosa, um livro colectivamente produzido ou re-produzido ao longo do sec. XX, um livro comum mas variável para cada “leitor” ou ouvinte – pois se trata de um livro oral, de literatura oral – que, mais ou menos disponíveis, contém numerosas quadras, canções, provérbios, adivinhas, perguntinhas, histórias ou estórias, memórias, anedotas, piropos, slogans, etc, etc., sem os quais a nossa vida quotidiana de letrados e não letrados seria bem menos suportável.

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