Os Livros Ardem Mal

Dicionários & funcionários (II)

Posted in Média, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Terça-feira, 06-01-2009

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Volto à minha inexistente antologia, uma vez que todo este arrazoado serve de facto para apresentar aquele que é o meu «poema de dicionário» preferido em português de Portugal (que na altura incluía as colónias): «Amor das Palavras», de Rui Knopfli, incluído no seu primeiro livro, O País dos Outros, de 1959. Escrevi em tempos sobre o potencial didáctico deste poema, mas queria concentrar-me agora na questão do dicionário, ou melhor, na da historicidade da nossa relação com o dicionário «na era da acessibilidade técnica». Passo, pois, a reproduzir o poema, ligando as ocorrências lexicais mais problemáticas às soluções propostas pela recente ferramenta linguística em linha Português Exacto. Registo no mesmo plano os casos em que a ferramenta se revela impotente, impotência que opto por não suplementar com o recurso a outras ferramentas: 

AMOR DAS PALAVRAS

Amo todas as palavras, mesmo as mais difíceis
que só vêm no dicionário.
O dicionário ensinou-me mais um atributo
para o sabor dos teus lábios.
São doces como sericaia.
Faz-me pensar ainda se a tua beleza não será
comparável à das huris prometidas.
No dicionário aprendi que o meu verso é
por vezes fabordão e sesquipedal.
Nele existe o meu retrato moral (que
não confesso) e o de meus inimigos,
rasteiros como seramelas sepícolas
e intragáveis como hidragogos destinados à comua.
O dicionário, as palavras, irritam muita gente.
Eu gosto das palavras com ternura
e sinto carinho pelo dicionário,
maciço e baixo, e pelo seu casaco, azul
desbotado, de modesto erudito.

O antropomorfismo do dicionário com que o poema termina, numa sugestão pequeno-burguesa e burocrática – «maciço e baixo», de «casaco, azul / desbotado, de modesto erudito» – ajuda-nos a perceber a diferença induzida pelo hipertexto. Num primeiro momento, dir-se-ia que a lógica do link nos dispensa do peso («maciço») do dicionário, o mesmo é dizer, do trabalho moroso e, pelo menos na aparência, repetitivo, da suplementação do texto pelo metatexto. O «poema de dicionário», diria o leitor inteligente, não é, em sentido próprio, um texto difícil mas antes trabalhoso – exige, digamos, aquela prévia distinção escolar entre «o inteligente» e «o marrão». Como é óbvio, tais distinções existem para que os leitores ressalvem, não a inteligência que não possuam, mas a preguiça que por elas, aliás, se legitima. O efeito do «poema de dicionário» é assim um análogo da falsa catarse produzida pelas «ideias feitas» dispostas em catálogo por Flaubert ou por Bouvard e Pécuchet: alça-nos a um ponto para-transcendental, de cuja altura seria fácil perceber que, assim como o trabalho é para os funcionários do dicionário, a dificuldade é para inteligentes visitados por fulgurações. Esta divisão do trabalho, supostamente uma leitura «inteligente» de Bouvard e Pécuchet, não é só reaccionária na sua estrutura tropológica: é-o também no entendimento da leitura, para a qual a distinção entre «texto difícil» e «texto trabalhoso» não é só impertinente mas cega, já que esquece tudo aquilo que na materialidade da linguagem exige trabalho não tanto de produção de sentido, mas antes de revelação dos mecanismos que permitem ou não que tal produção ocorra. Por outras palavras, toda a leitura se processa em estado de dicionário (é essa a sua pré-condição filológica), e da mesma maneira profunda todos os poemas são poemas de dicionário: pela simples razão de que em nenhum poema o saldo do sentido está previamente assegurado, mesmo no caso em que se resista às «palavras difíceis». Estas não fazem aliás mais do que assinalar, pela sua opacidade, a opacidade constitutiva da linguagem ou, se se preferir, da sua improvável relação com o mundo (Herberto Helder: «porque eu, o mundo e a língua / somos um só / desentendimento»). Neste sentido, todos os poemas são trabalhosos antes de serem difíceis ou fáceis (assim como são complicados antes de serem simples ou complexos), já que o que neles trabalha em rotação alta é o atrito da simbolização com que a linguagem sonha aprisionar o mundo, sem qualquer garantia de o conseguir. Ou no máximo, como diria Adília Lopes num dos seus grandes poemas, (con)fiando-se a uma relação «plenamente satisfatória» entre palavras e coisas, modo muito pragmático  de suspender a imposição de um qualquer significado transcendental à linguagem. Mas esta relação «satisfatória» necessita de um código que a contratualize: as listas telefónicas com que os marcianos estabelecem uma relação entre baratas e telefones, no texto de Adília, o dicionário no de Knopfli.

Em todo o caso, retomo a historicidade da nossa relação com o dicionário hoje, na era do hipertexto e da hipermediação. A sua primeira vítima é, como acima disse, o antropomorfismo com que o poema encerra, na figura desse funcionário público de outros tempos. O hipertexto acelera drasticamente a suplementação e executa o funcionário, que parece sair rapidamente de cena: na cena do hipertexto, toda a mediação parece dispensada pela vertigem do link. A hipermediação, aqui como sempre, é dominada por um imaginário de eficiência e instantaneidade que parece destinar ao caixote do lixo da História todas as figuras do suplemento ou da mediação: dicionários & funcionários, em resumo. E o trabalho da leitura poderia enfim ser substituído, com proveito, pelo investimento de uma inteligência inteiramente desobrigada e auto-suficiente, digamos. Estamos aqui em plena lógica da remediação, na óptica de Bolter e Grusin: o duplo e contraditório apelo da imediaticidade e da hipermediação, que conduz a nossa cultura a multiplicar os (novos) média e ao mesmo tempo a (desejar) apagar todos os traços da mediação. O poema de Knopfli, quando linkado, sugere uma economia aberrante que nos oferecesse a mais-valia sem o processo reprodutivo a que chamamos «capital»: uma transparência da palavra ao seu significado por efeito de um mero clique, a substituição de uma ideia forte de mediação – e trabalho – pela mais forte ainda de «acessibilidade» universal. Como é evidente, porém, a «transparência» sugerida pela hipermediação, que abre a palavra à voragem insaciável do link, sofre a imposição da denúncia do link pela coloração específica adquirida pela palavra ligada: neste template, um azul ténue. Vemos e acedemos, pois, em simultâneo ao link e ao carácter auto-referencial da hipermediação, que a tecnologia fetichiza, e bem-assim os novos média: a riqueza do hipertexto é quantitativa e aplica aquela velha lei da sociologia marxista que impõe o qualitativo como salto propiciado pelo quantitativo. A remediação está ainda presente, porém (e este é um ponto decisivo na leitura que proponho do fenómeno a propósito do «poema de dicionário»), no facto de ela se propor como inteiramente nova quando, como Bolter e Grusin alertam, no fundo não faz senão apresentar versões remodeladas, actualizadas e melhoradas de outros média. Os novos média são novos na medida e na forma pela qual retomam e recauchutam os média mais antigos, forçando-os a reformarem-se de modo a responderem aos desafios dos novos.

É aqui que o «poema de dicionário» se torna instrumental, já que nos instrui, muito didacticamente, sobre um destes processos de remediação. Apesar da acessibilidade técnica, da sugestão de transparência e imediaticidade, o dicionário hipertextual é ainda um dicionário, apenas «remediado». As figuras da suplementação que acompanham o dicionário – sistema de remissões internas e externas, semiose tendencialmente ilimitada – permanecem, ainda que tecnologicamente alteradas. Por outras palavras, o dicionário enquanto princípio ou trace, sobrevive embora reforçado justamente no seu carácter de indutor de diferença, pois encontrou agora o meio que permite traduzir, em acto e em «representação», o seu modo rizomático de expansão, modo ao qual a ortopedia do livro (e sobretudo do livro «maciço) não faz inteira justiça. De modo análogo, os falhanços performativos do dicionário-livro (se bem me lembro, não encontrei um grande dicionário que não falhasse numa ou noutra palavra do poema de Knopfli), reproduzem-se no dicionário hipermediado, embora este tenha ao seu alcance, precisamente por não ter limites físicos, o sonho do dicionário exaustivo (o que é ainda, em modo literal, «remediação»). Por fim, o dicionário hipertextual, ou o hipertexto na sua versão de dicionário, só na aparência funciona sem funcionário: essa é a sua ilusão, ou o seu momento, ideológico. O link é produzido por um sujeito que, na sua operação de selecção, se coloca exactamente na posição de quem relança o princípio diferencial que sustenta a produção de sentido da linguagem, lá onde o «poema de dicionário» parece bloquear essa produção. Terrivel ilusão, pois é nesses nós cegos que o mecanismo da diferença mais se afirma. O sujeito fenomenal que linka coincide assim com o funcionamento estrutural da linguagem – é funcionário e função -, o que nos esclarece sobre a impertinência de fazer entrar aqui em cena um qualquer humanismo: funcionamos assim com o dicionário porque a linguagem assim funciona em nós. E «nós», como sabemos, é um efeito de gramática, tal como o funcionário é um efeito do dicionário, vale dizer, da linguagem.

Vinde, pois, cá, meu tão caro funcionário…

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