Os Livros Ardem Mal

Estes tempos vagarosos (III)

Posted in Crítica, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 01-01-2009

A estrofe intermédia do poema de Cláudia Santos Silva parece introduzir a questão maior da lírica: a representação da voz pessoal, patente em algumas instâncias decisivas: (i) na passagem da Natureza à História, e na versão desta como sendo feita «por nós», i.e., por sujeitos «dotados historicamente de voz»; (ii) na substituição do desejo de um devir-mudo por uma declaração categórica (e vocalmente poderosa) sobre o mundo; (iii) enfim, e numa ocorrência discursiva de superfície gerada por tudo isto, no recurso a formas verbais como «falo», digo» ou «não me calo».

Não significa isto, obviamente, que a «voz» não seja também instanciada pela lírica nas estrofes inicial e final. O modo dessa instanciação é porém repressivo (auto-repressivo) e a sua fundamentação é, em rigor, ético-moral: «erguer-me como uma árvore assimétrica na torrente» (eu sublinho) é uma forma de protesto e não anda longe daquela ambígua radicalidade do protesto do místico, em que recusa e abdicação caminham lado a lado. A auto-repressão da voz na forma naturalizada da árvore assolada pela Natureza, mas também desafiadora desta, surge aqui matizada e mediada pela figura do exemplum: alguém se ergue como uma árvore, e resiste; e esse exemplo dispensa palavras, como todos os verdadeiros exemplos ético-morais pedem antes o nosso assentimento mudo. Noutros termos, o casamento de poesia e auto-repressão dá a ver a estrutura ideológica da repressão, que em rigor é uma estrutura retórica: um movimento substitutivo entre Sujeito e Natureza, ou melhor, o cancelamento e congelamento de todos os deslocamentos figurais entre essas duas entidades. Quando o sujeito devém Natureza, torna-se evidente a natureza da repressão: estátua agrilhoada ao mundo natural, «comida» (heras, líquenes) por ele.

Ainda assim, esta estrutura não é perfeitamente simétrica, exactamente como só na Natureza, com maiúscula, podemos representar árvores perfeitamente simétricas (embora, nesse ponto, haja decerto em cada um de nós um Mondrian desejoso de desenhar árvores por esquadria). As árvores não existem porém na Natureza mas no mundo fenomenal e, apesar das aparências, ou da nossa tentação para representar aparências como perfeitas projecções esquemáticas, são criaturas de uma história silvestre. Eis porque esta árvore tropológica na torrente não abdica, não pode abdicar, inteiramente do fenomenal, não conseguindo deixar de ser uma figura da contingência ou da historicidade desta encenação da voz reprimida. Pois não é difícil reconhecer nesta «torrente» na qual e contra a qual se ergue a árvore o rumor figural de uma História entretecida do murmúrio de um milhão de vozes reprimidas e, como diria Benjamin, recuperáveis apenas por uma leitura «a contrapêlo», que neste caso nos desse também a ler a dimensão estratégica desta auto-repressão da Voz: uma naturalização que é uma moral que é uma política que é um tropo duma «ordem natural» por vir. Um dia, esse dia prometido pela torrente da Natureza (uma torrente na qual não consigo deixar de ouvir um eco do «Da violência», de Brecht), toda a eloquência será dispensável (posição politicamente muito questionável, aliás).

Entretanto, porém – e todos os problemas deste poema residem na estrutura temporal e política deste «entretanto» -, e enquanto esse dia não chega, a auto-repressão da Voz deve ser substituída por uma dicção categórica: «agora que somos todos Americanos indubitavelmente mestiços / só nos falta sermos todos Mulheres». A dicção categórica pressupõe uma situação categorial precisa (indubitável) para se poder afirmar. Necessita, digamos, de a dar por adquirida: neste caso, necessita de dar por adquirido que «agora» «somos todos Americanos indubitavelmente mestiços».   Como antes escrevi, a propósito do clip do tema de Will.i.am, é duvidoso que este «Agora» não seja já, no momento em que escrevo, necessariamente uma forma do «Ontem»: os seus pressupostos estão já esgotados, por uma necessidade histórica inerente à questão da representação política, ou, ainda mais, ao seu momento sublime. E assim, a lógica categorial desta afirmação categórica não poderia forçar-nos à conclusão que – permito-me a modalização – de facto contrabandeia: «só nos falta sermos todos Mulheres». Os problemas desta sequência, que em rigor o não é, uma vez que a conclusão configura de facto um non sequitur, estão aliás bem patentes na diversa estrutura temporal dos elementos da frase: no início, «agora que somos todos», no fim «só nos falta sermos». Ou seja, de um aspecto verbal que marca a pontualidade do ser a um outro que inscreve um devir na lógica do verbo. O problema é que o poema, escrito (e inscrito) a quente sobre o momento-Obama, parece pressupor um aspecto verbal durativo para esse «agora», como se o momento-Obama tivesse o dom de se transformar num não-momento, gerando uma estrutura temporal e política na qual «Obama» assinalasse um ponto de não-retorno: uma conquista para sempre, em cima da qual seria mais fácil construir outras. Na verdade, não temos qualquer garantia de que esta leitura do «agora» seja aceitável, quer na lógica do político (ou da historicidade do contrato social) quer na do poema em causa.

Deixo porém essa questão para mais tarde e retomo a sintaxe do poema. Estranha sintaxe, diga-se, esta que passa da repressão à explosão da Voz e da subtracção das marcas pessoais da lírica à sua proliferação «impertinente» numa voz que declara não se calar e ostenta marcas de género, classe e «orientação política», tudo num débito torrencial e em crescendo. O «modo defensivo de compreensão» da primeira estrofe é agora substituído por um modo categórico, porque supostamente coincidente com o modo de manifestação do histórico-político (do «agora»). Esta dicção intermédia no poema, porém, é de novo reprimida na estrofe final, que retoma assimetricamente o tópico da eloquência muda da Natureza, qual ela vive em nós. Esta assimetria é agora um produto da temporalidade da sintaxe do poema, já que, quando o sujeito emudecido regressa na última estrofe, a sua auto-repressão é objecto de uma motivação psico-política para cujo entendimento se torna necessário passar pela segunda estrofe do poema. É porque a instância não-pessoal da lírica não consegue afirmar-se plenamente que «se me escurece a alma». Ser americano e mestiço, ou melhor, sermos todos americanos e mestiços, seria um passo nesse caminho. Mas um passo apenas, pois a gramática desta expressão – «somos todos Americanos e mestiços» – pede uma expansão do tipo «somos todos Mulheres», em plena lógica com a estrutura desta afirmação categórica. A afirmação seria assim tão mais categórica quanto mais conseguisse desposar a peculiar lógica representacional da lírica no que toca à Voz – e é curioso notar que essa lógica surge aí, como que em diagrama, no registo do espectro que vai de uma saturação de marcas de sujeito («falo», «digo», «não me calo») ao desejo de uma voz colectiva («sermos todos Mulheres») que rasurasse todas as marcas anteriores. Nesse sentido, a auto-repressão da voz com que o poema abre e fecha é uma poderosa alegoria do drama da voz lírica, já que só na aparência nos propõe a voz pessoal que distinguiria a enunciação lírica. De facto, o que propõe é antes o espectáculo de uma voz que, porque desiste, evidencia a que ponto o seu recuo sobre um sujeito enunciado como estritamente pessoal (como um desamparado corpo nu) é uma traição à dinâmica profunda da presença da voz na lírica. A naturalização do sujeito, o recuo da voz até à coincidência plena de uma entidade nua e unitária com a Natureza, são aqui a versão negativa da capacidade da lírica para instanciar uma Voz que nos sugira toda a força irrevogável da presença no próprio gesto de resistência com que ela descola de uma enunciação apenas individual. Por outras palavras, são formas gramaticais do falhanço, ou da lírica enquanto «modo defensivo de compreensão» do trânsito assimétrico entre sujeito e voz.

O poema parece, pois, distribuído em quiasmo entre esse falhanço propiciado pela naturalização da voz e a sua plena desnaturalização no apelo a uma gramática que, a partir do modelo «Somos todos Americanos e mestiços», se expandisse em «Somos todos Mulheres». O quiasmo é porém, como quase sempre, assimétrico, já que o conseguimento apenas aparente da naturalização rima mal com a desnaturalização que se declara enfaticamente falhada: não conseguimos, ainda desta vez, ser todos mulheres. Na verdade, esta segunda tentativa para conseguir «dar voz» à lírica enquanto representação de uma voz não-pessoal, falha de modo muito mais flagrante do que a primeira, uma vez que toda a dialéctica da presença do sujeito na voz não-pessoal (e de que fica no texto um extenso rasto, a altos brados, como num esbracejar) é desvanecida em favor do superior projecto ético-político de uma voz, em rigor, impessoal ou, se se preferir, genérica: «somos todos americanos», «somos todos mestiços», etc., formas daquilo a que poderíamos chamar «falsos universais». A temporalidade inversa do processo, ou seja, o facto de na estrofe intermédia do poema se manifestar primeiro o desejo da voz universal e só depois, ante o seu falhanço, a irrupção incontida da voz pessoal, não nos deve iludir ou distrair sobre o lugar de cada uma na economia da voz agenciada pelo poema, e que faz da segunda uma compensação psicanalítica do falhanço da primeira. Não se trata tanto de um choque entre lírica e política, mas sim entre duas diversas políticas da Voz e da Presença: entre a lírica como discurso de resistência à História e a lírica como suposto adjuvante do «motor da História». O que, a este respeito, a lírica nos ensina é que o «motor da História» é um tropo; e que a forma própria da relação da lírica com a História é a que pressupõe e exige a escuta da voz individual, tal como ela se des e re-articula na sua relação com o Outro (neste caso, o Outro político do contrato social). Esta relação, que é estruturada na diferença, é imprescritível e não é em rigor dialectizável por qualquer princípio de representação, seja ele de teor naturalista ou simbólico (e aqui reside o problema político deste poema, como provavelmente de toda a lírica que se deseja política). A lírica é re-presentação, sim, mas no sentido em que é uma modalidade nostálgica e resistente da presença, i.e., da Voz, na qual se dramatiza quer a opacidade do sujeito a si mesmo que a gramática vai gerindo, na medida em que lhe permite o pronome pessoal, quer a impossibilidade de realização daquela utopia, política e gramatical, enunciada por Kafka no seu conto «Josefina, a cantora ou O povo dos ratos»: «Imaginemos que no lugar do povo estava um só indivíduo…» Nunca está, mesmo quando se chama Obama. O mesmo é dizer que só pode estar retoricamente. Mas os tropos, como sabemos, não moram no mundo fenomenal…

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