Os Livros Ardem Mal

Estes tempos vagarosos (II)

Posted in Crítica, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Sexta-feira, 26-12-2008

Como seria de esperar, também entre nós houve uma torrente de reacções à vitória de Obama. Nenhuma, porém, tão fulgurante como a deste poema de Cláudia Santos Silva. Li-o apenas há dias, passado o tempo, e sobretudo o sem-tempo, desse acontecimento maior. É um poema a dois tempos, aliás: o tempo primacial da Natureza, cuja longa duração não está no nosso tempo; e o tempo de uma história que, mesmo quando acelera, é sempre demasiado vagarosa para a vertigem da nossa brevidade. A primeira estrofe, que regressa assimetricamente no fim do poema, propõe uma «naturalização» do sujeito, que surge recoberto (recoberta, uma vez que se trata de um sujeito-fêmea) pela Mãe-Água, dentro de uma como que campânula, para cuja descrição mais perfeita poderíamos abonar-nos naquela que Adorno oferece, em vários lugares da sua obra, da mónada artística: separada do mundo da razão instrumental pela ténue película daquilo que nela é dialectizável, nos termos necessariamente abstrusos da «dialéctica negativa», como negação. Neste caso, uma imersão do sujeito na Natureza, que inscreve drasticamente a lírica no canto mudo do mundo (a primeira estrofe termina com a proposta de um orfismo em que a voz da natureza dispensasse a voz, por definição dispensável ou secundária em relação à natureza, da linguagem verbal). Será o emudecimento da lírica no seio da mãe-natureza, nos termos aqui propostos, ainda dialectizável como negação? E não será essa a grande questão deste poema?

Notemos que esta naturalização, que devíamos começar por tomar na acepção técnica de um tropo inverso do antropomorfismo, é-nos proposta, de facto, como uma cena de estatuária. Até metade do verso três, a cena é objectual e desprovida de marcas do sujeito – «a água corre pelas pálpebras pelas pontas do cabelo / curva na escápula nos seios no ventre nos joelhos / contorna as palmas dos pés» -, que só surgem no termo desse verso. Só aí, em «liberta-me o semblante», a deixis da primeira pessoa entra em cena e satura o verso que se segue – «sento-me no chão e penso» – e o que se segue da estrofe. O sujeito imobilizado sob a película (o celofane) da Mãe-Água é de facto um sujeito- monumento, oferecendo-se como Vénus na Natureza e, ao invés, oferecendo a Natureza como Vénus: princípio gerador, anexação do feminino e da fêmea ao mundo natural, redondeza contemplável (pois nenhuma aresta resiste ou sobrevive ao lento moer das águas). É necessária a alteração gramatical do verso três, com a irrupção do deíctico pessoal, para nos apercebermos de que a estátua vive: mexe-se, pensa, deseja. Curiosamente, o que esta estátua deseja é deixar de ser uma entidade desejante. O ioga seria apenas o primeiro estádio de um processo de re-naturalização que faria agora do corpo-estátua uma «árvore assimétrica na torrente»: «de quando em quando o vento arrancar-me-ia uma ou outra ramada / talvez me cobrissem heras ou vinha virgem / não usaria de palavras não as escutaria».

É curioso constatar como este apelo à eloquência muda da ordem natural – de uma natureza que fosse um vasto templo silencioso de árvores/estátuas – se edifica sobre a mais comum e banal das práticas figurais, a comparação: «erguer-me como uma árvore assimétrica na torrente». Se os versos seguintes, em que o vento arranca ramadas à árvore e heras e vinha virgem a vão cobrindo, instituem um deslizamento tropológico que nos conduz à cena ontológica típica desse antropomorfismo ao invés que é a naturalização – «não usando de palavras» nem as escutando, uma vez que ela reconquista o sopro originário de linguagem e natureza (parafraseio De Man) ao coincidir com a eloquência do que não fala: Deus, ou o seu tropo secular, Natureza -, a verdade é que todo este deslizamento começa e acaba na visível instituição do princípio tropológico por meio da comparação. O tropo institui-se e institui a sua auto-anulação, conduzindo-nos ao silêncio primordial, anterior à linguagem e ao contrato, vale dizer, ao mundo social – silêncio que contudo deve ser declarado como um desejo (o desejo de um devir-adesejante) dessa máquina desejante, ou figural, que é a linguagem. É certo que o cancelamento do processo de substituição tropológica em favor da naturalização parece suscitar a dúvida epistémica patente na modalização de «talvez»: «talvez me cobrissem heras ou vinha virgem». O «talvez» não é porém uma reserva colocada à estrutura retórica da operação, mas um movimento ainda retórico (uma litotes) que reforça a ontologia produzida pela comparação: ser coberto por hera ou vinha virgem é um acidente (uma qualificação) que não abala a coincidência conquistada entre o sujeito e a entidade natural (a árvore, ou a estátua «reconquistada» pela Natureza). Tal como de resto percebemos no final do poema, quando a primeira estrofe regressa, em modo assimétrico ou incoincidente com o da primeira estrofe e, em vez de heras e vinhas, temos agora líquenes: «estranhos líquenes tomariam o meu torso» (itálico meu). O modo condicional duplica aqui a estrutura da reserva epistémica do «talvez» na primeira estrofe; mas, de facto, relança o funcionamento estrutural dessa reserva que reforça a ontologia desta operação, já que nos dá a ver, em terminologia técnica, o devir-estátua do sujeito: os líquenes «tomariam o meu torso» (eu sublinho).

Em boa medida, os problemas – retóricos ou políticos – deste poema residem aqui, ou seja, no seu preâmbulo e conclusão, e não tanto no seu enfático núcleo declarativo. Como articular o apelo à naturalização do sujeito – como árvore mas, ainda mais, como estátua recoberta e devorada pela Natureza -, com a denúncia do carácter vagaroso da História política? Não será antes essa História, como a luta da estátua contra a hera e os líquenes, uma História «inútil» porque inoperante ou ilusória? Como conciliar as altas exigências feitas à comparação – que active, e simultaneamente congele, um processo figural cujo termo final consistiria na substituição da gramática pela metafísica da Natureza – com o apelo a que aceitemos a verdade facial do tropo político por excelência (a metáfora, que faz de todos nós americanos, mestiços e, desejavelmente, mulheres), esse que institui uma naturalização do corpo político cuja estrutura retórica, porém, é sempre demasiado visível? E, finalmente, o metaproblema de que todos os outros provêm: como gerir a relação entre o retórico e o epistémico ou, noutros termos, entre o lírico e o histórico-político?

Noutras palavras, e em resumo: pode a lírica não ser um modo vagaroso da linguagem?

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