Os Livros Ardem Mal

Dicionários & funcionários (I)

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 24-12-2008

New Dictionary Words

Na sequência disto, ocorreu-me uma ideia antiga, admito que perversa: uma antologia de poemas com vocabulário rico, ou, se se preferir, raro (seria melhor dizer: rarificado pelo uso, isto é, pela doxa), e por isso de leitura pressupondo o dicionário. Um livro que exigisse a companhia de um desses vastos, pesados e exigentes companheiros de leitura e que fosse em si mesmo uma pedagogia do dicionário. Um livro, enfim, que combatesse as consequências mais questionáveis da política de língua adoptada pela burguesia que fundou ou refundou o Estado-Nação de Oitocentos, de que entre nós Garrett é o melhor exemplo: moderação lexical, recusa de vocabulário marcado por tipicismos locais, classistas (aristocráticos e populares) ou historicizantes, registo «médio», distensão coloquial. Em Garrett, isto dá o admirável português laboratorial das Viagens; em Eça, abre-se já o perigoso caminho para a pobreza lexical que, por meio do triunfo da imprensa que nele sempre se reviu, alimentou e legitimou, define os usos dominantes hoje, o literário incluído.

É difícil, de facto, não ficarmos impressionados com o panorama actual dos usos do português, mesmo nos melhores escritores de hoje: tudo se passa, no domínio do léxico (para não falar do trabalho sobre a sintaxe), num espectro muito reduzido, e incapaz de se distinguir dos usos correntes e mediáticos, como se estivéssemos – e é minha convicção que de facto estamos – no momento terminal de um processo, com cerca de dois séculos, de (re)produção de uma norma passível de tradução num «capital linguístico» socialmente acessível e distribuível por vários meios e instituições, com a escola e os média à cabeça. O aspecto curioso disto é o facto de a literatura ter sido instrumental na produção desta norma linguística, como percebemos em Garrett, não só nas Viagens mas em tudo o que escreveu sobre o idioma. Em grande medida, a Literatura, enquanto construção moderna e burguesa, foi o que foi nestes dois séculos em virtude do seu papel decisivo na produção dessa norma que forneceu, por exemplo à sociedade portuguesa, um idioma «democrático», supostamente universal, forjado nos textos e difundido pela escola. O paradoxo desta questão reside em que é a força dessa norma, ou do ideal que a regula, que, ao afastar cada vez mais a literatura do dicionário, o mesmo é dizer, ao anexá-la a usos cada vez mais pobres do idioma, a vai também banalizando entre os usos correntes da língua, num processo, que é também (sempre o foi) político, de esvaziamento histórico do lugar idiomático e cultural da literatura. Um típico caso, pois, da criatura que escapa ao controlo do criador, se é que a não devora no fim da história. 

Esse triunfo explica aliás a dificuldade de produzir revisionismos que atribuam um papel central a um autor tão extraordinário nos usos do idioma como Camilo, objecto ainda hoje do anátema lançado por Eça:  as suas personagens seriam «insuportavelmente bem-falantes», como se a divergência entre oralidade e escrita não definisse todas as personagens da literatura, incluindo as tão bem-falantes de Dinis Machado, no sobrevalorizado O que Diz Molero, uma obra maior no processo que venho recenseando; ou um revisionismo que atribuísse um papel central, por razões diversas, a Aquilino. Ou ainda o cunho «genialmente isolado», muito difícil de traduzir em exemplum, do trabalho de um Guimarães Rosa no português literário do século XX, que nele abrange léxico (e recomposição morfológica e semântica) mas também sintaxe. E não sugiro com este último caso que o devir desta questão é no Brasil idêntico ao português, longe disso, mas apenas que as suas consequências são, creio bem, assaz próximas. Como se vê aliás no recente A Viagem do Elefante de Saramago, a riqueza lexical ou sintáctica parece hoje marcada pelo estigma de um estranho ideologema: aquele que insidiosamente sugere que tal só é aceitável sob a forma de pastiche ou paródia de um estilo, que é um mundo mas também uma política de língua, irremediavelmente devolutos. A recepção típica deste último romance do autor mostra também o tropismo mais reconhecível do nosso «homem de Letras» de hoje ante esse fenómeno: um deslumbramento a priori pela técnica da coisa, mesmo que a coisa em si já não nos diga grande coisa («O melhor Saramago dos últimos dez anos», elogio que resgata a superfície do texto – léxico, escrita, estilo – mas depois sugere que o romance tem, como quase sempre no autor, problemas estruturais).

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