Os Livros Ardem Mal

Inquérito OLAM: Rita Taborda Duarte

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Terça-feira, 23-12-2008

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Rita Taborda Duarte foi docente na Faculdade de Letras do Porto e na Universidade da Beira Interior, leccionando actualmente na Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa. Estreou-se no DNJovem, publicou em diversas revistas (Ópio, Bíblia, Número, Canal, Di Versos, Hablar/Falar de Poesia) e fez crítica no suplemento literário do Público, Mil Folhas. Fez Mestrado em Teoria da Literatura, com tese sobre Crítica e Representação: Da Aporia na Crítica de um texto Poético.  Publicou poesia – Poética Breve (1998), Na Estranha Casa de Um Outro (2006), Experiências Descritivas (2007, com André Barata) – e literatura infantil: A Verdadeira História de Alice (2004, Prémio Branquinho da Fonseca), A Família dos Macacos (2006), Os Piolhos do Miúdo e Os Miúdos do Piolho (2007), e os muito recentes Sabes, Maria, o Pai Natal não Existe (2008) e O Tempo Canário e o Mário ao Contrário (2008), todos eles ilustrados por Luís Henriques. Agradecemos a Rita Taborda Duarte a sua pronta colaboração neste inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

Haverá uma tendência humana, provavelmente com assento fixo no código genético, para confundir, dispersar, baralhar e passar ao lado. É o que acontece nos congressos e encontros literários: o público arremessa uma pergunta sem relação com o que foi dito e o orador, solícito, arremata com uma resposta que nem tangencialmente toca a pergunta feita e por assim em diante, para satisfação de todos, ouvintes e oradores. Terá sido por isto que este inquérito nos tenta cortar as vazas logo à chegada, com notas e indicações a chamar-nos à realidade das perguntas: põe parênteses a indicar os subgéneros da ficção (conto, romance, novela) e lá se vai o Livro do Desassossego; chama a atenção para o objecto livro e lá se esfuma novamente o Livro do Desassossego, a pairar entre a edição da Europa-América e a mais recente do Richard Zenith. Mas há livros feitos da mesma massa do que os homens que os escrevem e que com eles partilham os genes menos práticos, menos pragmáticos, e que desarranjam a previsibilidade das regras: Finisterra. Paisagem e Povoamento, de Carlos de Oliveira. Um livro que inventa a percepção, o acto físico de ver por meio da linguagem, que aqui simula a linguagem sem tempo, sincrónica, da poesia. Nunca percebi se aquela indicação “Romance”, logo na capa, da edição da Sá da Costa, era uma indicação de género ou uma continuidade do título. Mas, para aqui, atesta a validade da resposta.      

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

Por que motivo posso escolher um conto e não posso escolher o poema? Sim, como a «Tabacaria». E se for o poema contínuo (não o mais recente, que esse é já do século XXI), de Herberto Helder, para fingir que escolho o poema, ou o livro, quando estou a escolher a obra. Ou por exemplo «Magnólia», de Luiza Neto Jorge, ou o poema livro «O Ciclópico Acto», ou uma mão cheia de Ramos Rosa.

E se for um autor do século XIX, com poemas escritos no século XIX, naquele limiar de um finistempo, mas que só foi publicado no século XX, ainda vale? Se sim, então, Clepsidra de Camilo Pessanha (mesmo na edição muito pouco crítica de Osório de Castro), o nosso exemplo de «poesia pura», como se as palavras bastassem ao mundo, melhor, como se as palavras lhe resistissem. Se não, Poesias, de Mário de Sá-Carneiro.

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

Sim, seriam diferentes; Clepsidra, tendo sido editada tardiamente, já nos anos vinte, depois de o Orpheu e o modernismo agitarem as hostes poéticas, não permitiu que fosse por meio do simbolismo de Camilo Pessanha que se formasse a grande massa da poesia do século XX. Tudo o que vem do século XX nos chega de Pessoa (o leão é feito de carneiro digerido, dizia Valéry; neste caso até se podia ler ao contrário e pensar nas várias formas como os carneiros foram digerindo o Leão). A dificuldade está na escolha do livro: Poesias de Campos; cancioneiro de Pessoa, Poemas, de Caeiro? E se escolher o Livro do Desassossego como o livro de Pessoa, em que estão todos os outros, melhor a construção do Pessoa Literário, e, já agora, das pessoas que lhe seguem; assim já vale? É poesia, mas também será ficção (então, não encontramos lá todas as categorias da narrativa?). E sempre podemos dizer que os filhos de Álvaro de Campos também podem ser enteados do Bernardo Soares.

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