Os Livros Ardem Mal

Estes tempos vagarosos (I)

Posted in Comentários, Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Sábado, 20-12-2008

Apercebi-me da diferença de Obama ao ver o clip (simplesmente extraordinário) do tema (identicamente extraordinário) de Will.i.am sobre o slogan da campanha do mais improvável dos candidatos: Yes We Can. O tema é justamente sobre e edifica-se como uma infindável derivação dos problemas, retóricos e políticos, contidos nesse «sobre»: um decalque do espantoso discurso de Obama na noite da derrota nas primárias de New Hampshire (um discurso na grande tradição americana da oratória pública, dos Founding Fathers a Lincoln, Roosevelt, Kennedy ou Luther King). Mas um sobre ou um decalque que propõe uma deslocação – e uma des/colagem – de discursos na qual podemos ler a heteroglossia constitutiva da república e da retórica. Quem fala, no tema de Will.i.am, nunca coincide plenamente com a palavra falada por Obama, quer porque a desloca minimamente para o canto (é isso o rap, de que este tema se aproxima do ponto de vista do débito vocal, como «conversa liberal»), quer porque faz incoincidir o débito de Obama com o de todos os que o envolvem, saturam e parasitam. Obama somos nós, como o homem político, no seu momento nobre, é a possibilidade de uma voz que migra por entre vários corpos sem se deter num único e sem ser, em rigor, reapropriável pelo homem político que a profere. É isso o Body Politic enquanto incoincidência entre a res publica e a sua tradução «orgânica» num corpo que só existe em diferido (e, o que é o mesmo, em contrato). A proliferação de rostos e corpos famosos, em contraponto e em desfile após Obama e por entre um multiplicado Obama, representa com exactidão todas as ilusões e aporias do corpo político: uma metonímia sempre factícia (a do animal inorgânico que é o Leviatã), aspirando à verdade e unicidade orgânica da metáfora, cujo nome aqui é «Obama». Aquilo que realmente conseguimos, ou que só a política consegue na era da secularização – o que não anda longe de sugerir que é nesses momentos raros que ela alcança o vínculo do sagrado –, é sermos um sendo nunca um, isto é, sermos vicariamente um no corpo propiciatório (e, por isso, infindavelmente parasitável) do político (seria talvez altura de recuperar aquela vinculação, retomada por Paul de Man, entre O Contrato Social e os escritos religiosos de Rousseau). Emoção rara, breve, fugidia, irrepetível, ou melhor, sublime: esse sublime político que vemos, se tal é visível, na parataxe supostamente redimida pelo verbo, do tema e clip de Will.i.am.

Uma parataxe desdobrada em múltiplas articulações gramaticais: (i) no split screen que apresenta lado a lado Obama e todos os seus heterónimos (todas as representações corporais do «Nós»), ou melhor, alguns, apenas alguns (é essa a lógica e a economia da representação política) dos que representam o povo que Obama resume e lhe dão – a Obama – voz; (ii) no vaivém da palavra, que pode vir até nós na forma de um estribilho de comício – «We Want Change!» – que de súbito interrompe o débito de Obama e ascende a refrão do tema, ou seja, ascende do dito ao cantabile ou do empírico ao simbólico; e obviamente, o verdadeiro nome para este vaivém, como para esta ascensão, é, de novo, «contrato social», ou melhor, o momento sublime da sua instituição.

Como em todas as suas ocorrências, também aqui a evidência da gramática pressupõe o esvaziamento referencial do seu significado. A gramática do clip dá a ver depuradamente o contrato, na forma como rebate a posição de Obama, que se diria transcendental na economia da palavra que dele provém e que dele circula, sobre um sistema distribucional que lhe dá e tira a posição de legislador: esse «impostor» ou necessário simulacro da autoridade divina, na ontologia do contrato, segundo Rousseau, e, manifestamente, segundo Will.i.am. Por outro lado, se Obama é a promessa, e se a promessa é o modo ilocutivo da Lei, é forçoso concedermos que a estrutura temporal da promessa pressupõe uma data a partir da qual a sua validade se estabelece, data que a promessa, quando realizada (ou não), torna já passado. Porque a Lei é, nos termos de Rousseau, produzida em nome «de um povo de hoje e não do passado». É esse povo de hoje que vemos no clip de «Yes We Can» e são todas as aporias da sua voz que aqui, muito literalmente, ouvimos. Pois se o «povo de hoje» é insituável num tempo presente preciso, porque sempre histórico, o mesmo é dizer, sempre passado, a sua voz é em rigor inaudível, tanto mais que só por impostura ou auto-decepção – nomes outros do contrato social – podemos colocar a hipótese de uma voz que, por delegação, desse a ouvir a voz da vontade (eternamente presente) do povo. O povo não é audível senão por representação, o mesmo é dizer, pela pragmática e gramática de um contrato que nos prescreve que acreditemos que «Obama somos nós» não é um tropo, tal como este fulgurante clip, em toda a extensão e exibição metonímica do seu não-saber, nos faz saber por intermitência justamente o oposto.

Post Scriptum Há sempre quem se adiante ao momento do sublime e anuncie a inexorável Queda. Pois nenhuma sociedade, como nenhum contrato, suportariam um vínculo e um regime sublimes. Talvez, desde que esqueçamos que a instituição do contrato político é necessariamente da ordem do sublime, pois nenhum contrato desta natureza pode gerir a aporia da sua origem sem esse reinvestimento. Mas aos que anunciavam, já antes da sua eleição, com o deleite de sempre, o falhanço fatal de Obama, convém fazer notar que essa é a vitória dos tristes. Pois todos sabemos obscuramente isso; a questão é a de estarmos à altura daquilo que em nós se recusa ao desinvestido saber desse saber e ao programa do político enquanto mera «governação». Porque antes dela existe o momento da instituição do político e é esse momento que um fenómeno como Obama nos dá a ver de novo, com o mesmo espanto e reencantamento de sempre: por um momento fomos um, por um momento acreditámos no corpo político da república, por um momento o «povo de hoje» foi americano e negro.

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