Os Livros Ardem Mal

Inquérito OLAM: Gustavo Rubim

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Quarta-feira, 17-12-2008

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Gustavo Rubim é professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem-se dedicado sobretudo à reflexão e crítica sobre poesia, detendo-se em especial no período moderno e nalgumas figuras maiores: Pessanha, Pessoa, Herberto. A Pessanha, sua referência central, dedicou o livro Experiência da Alucinação (1993), premiado pelo PEN Clube, e vários outros ensaios dispersos pelos seus outros livros: Arte de Sublinhar (2004) e o recente A Canção da Obra (2008). Preparou ainda uma edição de Clepsydra para o número 155/156 da Colóquio/Letras. Preparou edições de outros autores e traduziu, sobretudo na área do teatro. Agradecemos a Gustavo Rubim a resposta empenhada que nos fez chegar.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

Em meu entender, o que o século XX trouxe de mais evidente foi um grande sismo na ideia do que seja ou possa ser um «livro», mesmo que se trate de um «livro de ficção», facto que não me parece pressuposto nem nos termos desta pergunta nem nas linhas de orientação fornecidas aos respondentes. Mas o século XX trouxe ainda outra coisa, ao menos ao meu olhar (pelos vistos) anacrónico: aquilo a que Barthes chamou «escrita», quer dizer, uma prática única onde ficção, poesia, ensaio, teatro e o mais se contaminam e se ilimitam mutuamente. A conexão destes dois movimentos inseparáveis (que, só por si, geraram, nas imediações da chamada «ficção», espectaculares ruínas textuais como o Livro do Desassossego) com, ainda, a dissolução da ideia romântica de literatura nacional — deu cabo da possibilidade de designar, sem ironia mais ou menos óbvia, «o melhor livro» do que quer que seja (por outras palavras, deu cabo daquilo a que se chamava «crítica literária»). Vale a coisa, portanto, por um certo jogo com regras, no fim de contas, bastante incertas. Apostando, com precisão e alegria, nessa incerteza, aceito jogar desde que seja eu a definir as regras. Por exemplo, se for de facto «em meu entender», coisa que só eu entendo ou não me ralo nada que os outros desentendam, então o «melhor livro de ficção portuguesa do século XX» são dois: Nome de Guerra, de Almada Negreiros, e Pequenos Burgueses, de Carlos de Oliveira. A extraordinária prosa do 1º capítulo de cada um deles basta para «porquê». Se for ainda «em meu entender» mas já num plano em que se os outros não entendem é porque se calhar são burros, então o «melhor livro de ficção portuguesa do século XX» é o Húmus, de Raul Brandão. Se for num «meu entender» bastante preocupado com o «entender» de outros cujo juízo me afecta sempre, então o Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, está bem perto de ser o «melhor livro etc. e tal». A quem achar que são demasiadas hipóteses para poucas conclusões, ainda acrescento que isto é deixar de fora a) os «livros» de um dos maiores «ficcionistas» do século XX em português, chamado Manuel de Lima (Um Homem de Barbas e outros contos vale por todos os «porquês» concebíveis); b) todos os «livros de ficção portuguesa do século XX» que não li; c) um livro de «ficções» de um escritor vivo que, por essa razão, fica fora deste jogo para não entrar em desvantagem na competição com os mortos.

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

Resposta complicada, por causa da expressão «de poesia». Pressupõe um agregado familiar dentro do qual vários membros são comparáveis. Ora, não creio que qualquer livro de poemas de José Régio seja, enquanto tal, comparável com qualquer outro de Mário Cesariny, por exemplo, só por isso de estarem escritos em gramática portuguesa. Famílias demasiado remotas, parentesco nulo para todos os efeitos práticos. Elejo precisamente um livro de Cesariny como escolha entre famílias, sinal de preferência, portanto: Pena Capital. Porquê? Tem lá dentro um poema chamado «You are welcome to Elsinore», capaz, absolutamente sozinho, de justificar, não o livro (que tem muita coisa no mesmo plano), mas toda a «poesia portuguesa do século XX», no mínimo. A quem duvide, recomendo que o oiça fora do livro: na voz do Mário Viegas.

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

Os argumentos expendidos, com louvável economia, nas respostas anteriores explicam por que é que a pergunta não foi nem podia ter sido «qual o mais importante». «Importante» para quem? Não há saída desta pergunta nietzschiana. Quer dizer, não há percepção histórica supostamente neutra que nos acuda e nos servisse aqui de alguma coisa. O que torna bastante fácil a resposta a esta 3ª pergunta. Visto que «qual o mais importante [livro]» significaria sempre «qual o mais importante [livro]» para mim, que sou a pessoa a quem a pergunta é feita, não me custa nada responder e até me dou ao luxo de inverter a ordem: o «mais importante livro de poesia portuguesa do século XX» é, foi ou tem sido para mim a Clepsydra, de Camilo Pessanha, porque constitui, desde que comecei a lê-lo há quase 30 anos, o mais fundo enigma (até como livro) que essa poesia forneceu ao meu entretenimento espiritual; e «o mais importante livro de ficção portuguesa do século XX» é, foi ou tem sido para mim, agora que penso nisso, um «livro» que o não é (por ser mais um folheto ou coisa parecida) e que também é difícil classificar como de «ficção» a não ser em último recurso: escreveu-o Almada Negreiros e chama-se A Invenção do Dia Claro. Porquê? Porque está lá tudo. Tudo o que é de facto importante.

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