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Manoel de Oliveira: Coup de chapeau

Posted in Efemérides by OLAMblogue on Sexta-feira, 12-12-2008

oliveira

Uma certa recodificação da periferia cultural portuguesa aprecia denunciar a França e a sua «decadência». Um dia depois dos primeiros 100 anos de Manoel de Oliveira, nada como um exemplo da pertinência oca desse gesto pavloviano: a homenagem que os Cahiers du Cinéma fizeram, na p. 9 do seu último número, ao cineasta, sob o título «Coup de chapeau». Transcrevemo-la, traduzimo-la e oferecemo-la como exemplo daquele espírito de hospitalidade que sempre distinguiu a França que verdadeiramente importa. Neste momento, aliás, tão simbólico para o cinema português, convirá não esquecer a que ponto Oliveira é uma «invenção» francesa (como, depois dele, César Monteiro ou Pedro Costa; e, antes, Amália). Por outras palavras: aprendamos com os outros a não sermos avaros para com a grandeza, sobretudo quando ela é também, de algum modo, nossa.

Manoel de Oliveira tem cem anos. Bom aniversário, amigo Manoel.

Se aproveitamos esta ocasião para lhe endereçar esta saudação, não é tanto pelo motivo deste estado civil mas porque esta longevidade é a de uma aventura excepcional, e sempre activa. Aos 22 anos, Oliveira realiza um dos últimos muito belos filmes do cinema mudo, o experimental Douro, Faina Fluvial. Dez anos mais tarde, assina um inesquecível filme neo-realista, Aniki-Bobó, quando o termo nem sequer ainda existia. Com Acto da Primavera, reinventa a aliança do documentário e da ficção, do povo e do espírito. Pouco depois, a Revolução dos cravos arruína-o, e liberta-o. Desde essa altura, não pára. Não pára de pôr em causa, filme após filme, o teatro e a pintura, as imagens e as palavras, o romance e o ensaio, os corpos das estrelas e dos desconhecidos, as línguas de cá e de algures, de ontem e de agora, as canções, os textos sagrados, a grande história e todas as pequenas. O cinema de Oliveira é uma inesgotável máquina de pôr em causa, em crise e também de irrisão. As suas personagens são Madame Bovary, o papa e Krutschev, Chiara de Clèves, o telemóvel, o padre Las Casas, Job no seu monturo, um actor que representa Joyce, uma casa de infância, o diabo, Dostoievski, o paquete da civilização europeia, as vinhas do Douro, a Bíblia, os reis-fantasma e os militares perdidos do seu país. Mulheres, cavalos, Maria-das-sete-espadas, crianças, a roda da caleche que conduz à morte de um poeta, e a cinza do charuto. É isto que celebramos hoje, esta torrente impetuosa e incansável, que não cessa de escavar novos leitos: o aniversário de um homem, mas sobretudo uma festa para o cinema.

Os Cahiers

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