Os Livros Ardem Mal

Papel vegetal

Posted in Crítica by Ana Bela Almeida on Quinta-feira, 11-12-2008


Quem já leu Expiação de Ian McEwan sabe que o romance vai colocando vários alçapões ao leitor e que a frustração das nossas expectativas pelo primeiro turning point é só uma brincadeira se comparada com a do segundo.

Mas, se a primeira surpresa do enredo se relaciona com aquilo que Briony Tallis vê – a violação da prima por Robbie -, a segunda terá que ver com a forma como nós vemos Briony – quando no fim da vida, e do romance, nos revela um outro desenlace possível para a história da irmã Cecília com Robbie. Ao conhecermos uma outra Briony, autora e narradora de Expiação, e apresentando-nos esta um enredo alternativo àquele que, sem sabermos que era da sua autoria, tínhamos acabado de ler, é insuportável a angústia da nossa impotência de leitores que só podem saber uma verdade contada por outros.

Quando do interrogatório a Briony pela polícia, afirmando esta a culpa de Robbie, a distinção entre saber e ver revela-se crucial:

– Então viste-o?
– Sei que era ele.
– Vamos esquecer o que tu sabes. Estavas a dizer que o viste.
-Sim, vi-o.
– Tal como estás a ver-me a mim.
– Sim.
– Viste-o com os teus próprios olhos.
– Sim. Vi-o. Vi-o. (McEwan, 208:209)

Se ver é importante para se poder saber, isso é exactamente aquilo que está vedado aos leitores. Nós somos aqueles que não vemos. Resta-nos acreditar no que é contado, seguir as pistas e a lógica, e chegar a uma conclusão. Aliás, este foi o procedimento de Briony, ao juntar os vários elementos de acusação, numa sequência lógica, imbatível a seus olhos, mas que conduziu a uma conclusão falsa e de consequências dramáticas, dada a inocência de Robbie. Se o livro não nos permitisse espreitar o mesmo objecto de todos os prismas, não erraríamos exactamente como Briony e não consideraríamos o seu acto de denúncia de Robbie a decisão mais acertada, boa e justa a tomar?

O filme Expiação (Joe Wright, 2007) vale a pena, não só pela Keira Knightley, mas porque nos permite o visionamento de uma obra que dá tanta importância à própria questão da visão. É difícil esquecer a cena em que Briony espreita a irmã através do vidro. Ou melhor, a cena em que Briony se vê a si mesma no reflexo do vidro, como num espelho, é difícil de esquecer. Quero dizer, é difícil esquecer a cena em que nós vemos o reflexo do olhar de Briony no vidro.

Talvez o motivo por que esta cena nos fica na memória resida na própria impossibilidade de ser fixada numa só imagem, como que a dizer-nos que a verdade só se deixa ver em papel vegetal, sobreposta, fragmentada.

Ian McEwan (2005). Expiação, Lisboa: Gradiva, [ISBN: 978-972-662-822-4] Tradução: Maria do Carmo Figueira

Ana Bela Almeida

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