Os Livros Ardem Mal

Inquérito OLAM: Luis Maffei

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Quarta-feira, 10-12-2008

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Luis Maffei é Professor de Literatura Portuguesa da Universidade Federal Fluminense (Niterói/ Rio de Janeiro). Concluiu, em 2007, seu Doutoramento, que resultou na tese Do mundo de Herberto Helder. É membro do Pólo de Pesquisa sobre Relações Luso-brasileiras do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro. Como poeta, lançou, em 2006, A, seu livro de estréia, e, em 2008, Telefunken. Para a editora Oficina Raquel, coordena a série Portugal, 0, dedicada à nova poesia portuguesa, que editou no Brasil antologias de Manuel de Freitas, Rui Pires Cabral, Luís Quintais e Pedro Eiras. Como ensaísta, escreve freqüentemente para periódicos de literatura, tendo textos em revistas como Telhados de vidro, Diacrítica, Camoniana e Metamorfoses.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

O Delfim, de José Cardoso Pires. Poucas vezes, na história da ficção portuguesa (e não só), uma obra logrou ser tão absolutamente vária. O Delfim é muito: romance político sem ser ingênuo ou panfeltário; romance com tintas policiais sem ser, é evidente, refém de traços banais desse gênero; romance de finíssima construção de personagens sem que eles, jamais, deixem de dizer outras coisas, metaforicamente, simbolicamente, e, digo sem receio, poeticamente. E bastante mais.

Justamente agora, enquanto respondo a este inquérito, espreito minha estante de livro e procuro com os olhos meu exemplar do romance. Dou-me conta de que está emprestado a um grupo de estudantes. Ocorrem-me, de imediato, os pequenos dramas que esses jovens têm confrontado, sobretudo a partir da idéia, ainda vigente em certos leitores sem muita experiência, de “entender o texto”. Eles, decerto, poderão entender O Delfim, desde que se lancem a essa aventura com novos olhos. Foi o que fiz, há muitos anos, quando o li pela primeira vez, ainda nos tempos de Faculdade. Sem exagero, posso dizer que aquela leitura representou para mim um rito de passagem.

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

Poesia Toda, de Herberto Helder, edição de 1996, que ainda traz algumas traduções/ mudanças para o português. Porque a poesia herbertiana é poderosa, no âmago e na relação com o mundo. Porque se trata Herberto de um dos maiores poetas de todos os tempos, em qualquer língua – e Herberto, sabemos, é um dos poetas portugueses do século XX a se aproximar mais agudamente da idéia de um idioma pessoal no português, o que sempre foi notável, mas fica explícito no recentíssimo A faca não corta o fogo. Porque essa poesia é uma explosão romântica em recorrências barrocas, um gesto moderno e antigo, um lugar de expansão inesgotável. Porque a morte e a vida, ali, se acham magicamente imbricadas num processo contínuo enquanto tragicidade e descontínuo enquanto música, ou vice-versa. E por muitas outras razões.

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

No caso da primeira questão, se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», eu responderia Livro do desassossego, de Fernando Pessoa/ Bernardo Soares – já que entendo aquilo como livro de ficção, é claro –, por se tratar não apenas de uma intensa exploração dos territórios da escrita, mas também por ser um texto fundador, que ressoa em muitíssima literatura portuguesa posterior – e ainda segue a ressoar. No caso da segunda questão, minha resposta seria a mesma.

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