Os Livros Ardem Mal

Cannibal & Co. (III)

Posted in Comentários by Pedro Serra on Domingo, 07-12-2008

brillat-savarin

Jean Anthelme Brillat-Savarin

Este post acaba com Baudelaire. Pierre Ebuka é o nome da personagem central de um conto de Manuel Vázquez Montalbán publicado em 1989 na Revista Occidente. Narrativa breve, centra-se no julgamento deste “canibal de Estrasburgo”, voraz comedor das mais variadas etno-estirpes europeias. Durante o processo vão sendo ponderados, por exemplo, os aspectos éticos implicados no caso. Canibalismo como “ética do colonizado”, prosseguindo a lógica emancipatória de um Frantz Fanon? Neste sentido, o caso retiraria a sua verdade da dialéctica, hegeliano-marxista, amo/escravo. Uma Europa metropolitana, pelos termos desta dialéctica, seria a “reserva de proteínas” de uma África enquanto periferia do império. A culinária canibal de Pierre Ebuka, assim, seria o corolário de um progresso emancipatório “racial”. O colonizado canibal teria encontrado um momento propício numa “Europa de portas abertas, multirracial e fecundada por todo o tipo de povos oriundos das virilhas do mundo”. Uma Europa de anfitriões, uma Europa da hospitalidade que, perante o trabalho da união política – o contexto do conto é o de uma unificação ainda predominantemente económica – teria a sua maior debilidade nesse mesmo discurso intelectual da hospitalidade enquanto, segundo a fórmula presente no conto, “ética do sentimento de culpa do colonizador”.

Uma Europa derrotista, decadente, que alentaria assim um revanchismo histórico por parte de África. Este é uma das proposições inerentes ao ponto de vista da acusação no caso de Pierre Ebuka. O advogado da acusação, um “marxista-leninista” que deveio “popperiano”, interpreta o canibalismo de Pierre Ebuka integrando-o num quadro identitário de base “racial”. África comeria a Europa obedecendo a um processo coerente de auto-identificação. Seria, assim, um caso de exo-canibalismo como forma de produção de uma “emoção de grupo”. Neste sentido, a barbárie do “canibal de Estrasburgo”, para a acusação, não residiria nesta pulsão identitária. O canibalismo como “ética do colonizado” não difere da “ética do colonizador”. Diríamos mesmo que a acusação está disposta, até certo ponto, a aceitar uma fome canibal como correlato da “vontade de poder” moderna.

Para demonstrar a selvajaria do programa canibal criminalizado e julgado, a acusação tem de esgrimir um argumento teológico-político. O tabu da carne distingue deuses e homens. Ora, na história do processo da colonização, os europeus prestam culto aos deuses vencedores. Daí que, “matar os vencidos em honra dos deuses do vencedor forma parte de uma certa lógica da crueldade, mas matar o vencedor e comê-lo só pode ser signo de subversão e jamais existiu subversão sem a presença de signos de debilidade na ordem estabelecida”. Por outras palavras, a interpretação do canibalismo de Pierre Ebuka é determinada por um quadro teológico-político que distingue duas violências: a violência legítima, isto é, a deglutição do vencido; a violência ilegítima, a ingestão do vencedor. A Europa, mesmerizada por uma cultura da decadência é uma Europa que, sendo vencedora, é débil.

Que dizer, então, do réu, de Pierre Ebuka e do seu canibalismo? Tanto para o juíz do caso como para a já mencionada acusação, o canibalismo não é cultura. Contudo, é precisamente este o reduto de que não abdica Pierre Ebuka: “o acusado esgrimiu a todo o momento que a sua proposta era cultural e que o seu canibalismo era uma simples metáfora”. O tribunal, por seu turno, concebe apenas uma motivação consumista: “o procurador da república pôde demonstrar que Ebuka considerava a Europa como a reserva de proteínas de África”. Reside aqui, do meu ponto de vista, um dos principais interesses da jurisprudência imaginada no conto de Manuel Vázquez Montalbán. O narrador insiste em que Pierre Ebuka se mostrava “ensimesmado numa verdade intransferível, de que apenas proporcionava os aspectos mais convencionais”. Verdade radicalmente singular que, neste sentido, desarticula nessa sua singularidade o próprio julgamento. Do ponto de vista de Ebuka, há que descartar uma “leitura racista ou emancipatória”. Mas é precisamente uma “leitura racista ou emancipatória” que conduzirá à sentença condenatória do “canibal de Estrasburgo”. O tribunal que julga o caso perfaz a sua própria auto-identificação como “nós” precisamente exarando uma sentença que é corolário lógico de um “complexo de perigo”: o medo das “invasões africanas desde os idos de Carlos Martel”. O programa canibal de Pierre Ebuka é condenado, pois, como tendo sido movido pela revanche racista de todo um continente. A invenção de um outro racista – um gourmet que faz discriminações étnicas no seu regime alimentar – fundamenta-se no racismo da sala onde decorre o julgamento.

E, todavia, a fábula contada por Vázquez Montalbán convida a pensar que o caso não foi realmente julgado. Julgamento apressado, não aprofunda as verdadeiras motivações de Pierre Ebuka. Africano licenciado em epistemologia pela Universidade de Heidelberg, especialista em pintura pré-rafaelita, é ainda um “especialista em cultura culinária”, versado em gastrósofos gentil-homens como Alexandre Balthazar Grimod de la Reynière (1758-1838) ou Jean Anthelme Brillat-Savarin (1755-1826), este último autor de uma autêntica bíblia do género culinário: La psychologie du gout. Oriundo, segundo reza a lenda, de uma “tribo confusa da África Central”, a de Pierre Ebuka é uma cozinha maligna, degustação de etno-estirpes: canibaliza espanhóis, flamengos, franceses, gregos, noruegueses, irlandeses, portugueses, turistas escoceses, cidadãos britânicos, agentes de bolsa de Munique ou mães florentinas. É um canibal culto, hiper-culto melhor dizendo, iluminado por um “conhecimento quase diabólico da gastronomia universal”. Um canibal lector. Ora bem, sobre tudo isto só me ocorre lembrar o que já dizia Baudelaire: “Ah! chers amis, ne lisez pas Brillat-Savarin. Dieu préserve ceux qu’il chérit des lectures inutiles”.

 

Pedro Serra

Manuel Vázquez Montalbán (1989). “El festín de Pierre Ebuka”, Revista de Occidente 98-99 .

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