Os Livros Ardem Mal

Inquérito OLAM: José Emílio-Nelson

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Sexta-feira, 05-12-2008

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José Emílio-Nelson é poeta, com obra iniciada em 1979, com o livro Polifonia, e poesia recolhida em 2004, no volume A Alegria do Mal, prefaciado por Luis Adriano Carlos. O seu livro mais recente é Bibliotheca Scatologica, de 2007. Agradecemos ao autor a disponibilidade revelada para responder ao nosso inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, na terceira versão (minha opção depois do cotejo das anteriores versões). Pelo plágio contínuo, decifrável e indecifrável, com que o romance queirosiano absorve e se valoriza e simetricamente responde a Flaubert, a Zola e a Balzac. Pela intencionalidade ideológica iludida, em que a satisfação exaltante da modelação literária se sobrepõe a qualquer recategorização de romance à clef.

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

O melhor da poesia do século XX: Mensagem de Fernando Pessoa (na grafia «antiquada» da primeira edição). Pela perfeição formal (analógica a Camões e paradoxalmente de «correcção») que trespassa a Mensagem e a incorpora no senso/contra-senso nacionalista «místico» «e até em contradição com isso, muitas outras coisas» (Fernando Pessoa). Porque a sua (imperial) ideia poética («nada» «que é tudo»), com o kitsch comum a todas as ilusões salvíficas, é «sebastianista». E é nessa instância (de refundição metafórica da poesia) que Mensagem se reafirma como o livro mais simbólico (conceptual e intelectivo) do modernismo poético.

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

Se se perguntasse «qual o mais importante» livro de ficção do século XX, responderia: Sedução, de José Marmelo e Silva (1937). Pela importância da subversão dos cânones à época instalados, através da rejeição de todas as ortodoxias (da escrita/ ideológicas). Sedução, no índex do regime fascista, conduz-nos por uma anamorfose: as distorções ficcionais desdobram-se até «Adenda» com que finaliza (e reabre) a ficção, alongando-a com essa «dobra» para uma segunda leitura através de um discurso duplamente censório da própria realização ficcional acabada (uma vez que essa coda a completa) e da (re) interpretação (assumidamente cínica, a contrario) acerca das interdições morais da sexualidade ou outras.

Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante» livro de poesia do século XX, a minha resposta seria diferente: Peregrinatio Ad Loca Infecta, de Jorge de Sena (1969). O postulado que o título antecipa, oferece a síntese (da contemporânea) peregrinação poética, simultaneamente arte menor e arte maior como é o Mundo. Peregrinatio Ad Loca Infecta, peregrinação de vivências e peregrinação compulsiva de erudição, conjuga a razão (surpreendentemente judicativa) e a imaginação numa contiguidade esplêndida de perfeição.

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