Posta restante (II)
De: Miguel Espinosa
Depois recitaram este passo do Poema de Veríssimo1 a Cirilo:
Eis a verdade:
ninguém nasceu matando,
nem se configurou decapitador
no ventre originário,
Procônsul, Grande Espada,
nem universal degolador.
Aprendeu, sim, a destripar,
como aprendiz empírico,
alentado pela tradição e o conselho
dos veneráveis padres.
Porque não há saber nem perícia
anterior aos mandarins.1 Poema de Veríssimo: depois de Cirilo se ter declarado Ditador, um eremita, chamado Veríssimo, ofereceu-lhe um Poema tão ambíguo que não esclarecia se continha apologia ou burla do Feliz Governo. A obra, todavia,
foi considerada laudatória durante milénios até que, imperando Filadelfo, um tal Tribúcio, Censor por gosto, submeteu os mil e quinhentos versos do poema a um exame exaustivo, “e não pôde encontrar verso sem equívoco”. Contra a opinião dos mandarins, o Autocrata proibiu o Poema e “desterrou das gramáticas o nome de Veríssimo”, mas a sua decisão “não foi satisfatória para todos”. Efectivamente: até ao fim dos tempos mandarinescos, submissos e insubmissos apropriaram-se do Eremita que, “tal como os deuses, serviu de cobertura a múltiples doutrinas”. Lamuro e a Escola dos Filantropos consideraram Veríssimo “amigo do Povo e inimigo da Infame Estrutura”. O Tapeceiro Reflexivo comentou extensamente alguns dos seus versos.
“Miguel Espinosa”




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