Os Livros Ardem Mal

Os 100 anos de C. Lévi-Strauss: Filipe Verde

Posted in Efemérides, Inquérito by OLAMblogue on Sexta-feira, 28-11-2008

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Filipe Verde é professor no Departamento de Antropologia do ISCTE e investigador do CRIA-CEAS. A sua pesquisa mais recente centrou-se num contexto clássico da etnografia ameríndia, os Bororo (Brasil), sobre os quais publicará em breve o livro O Homem Livre, e na teoria e epistemologia da Antropologia. Agradecemos a Flilpe Verde a sua disponibilidade para colaborar nesta evocação de Claude Lévi-Strauss, no dia dos seus 100 anos.

OLAM: O que representa para si Claude Lévi-Strauss, hoje?

Para mim C. Lévi-Strauss representa as horas e horas que ao longo de anos passei com os seus livros na mão, tentando perceber o que raio nos queria ele dizer para assim poder explicá-lo aos meus alunos. Representa também o rumo que o meu trabalho de investigação seguiu, porque quanto mais entendia o que ele dizia mais ia percebendo que não era nada daquilo que eu queria dizer. Os aficionados de Lévi-Strauss produziam então um trabalho que me parecia estéril e absolutamente destituído de relevância cognitiva – uma espécie de exercício cabalístico pelo qual, sempre idiossincraticamente e por recurso ao vocabulário da linguística de Saussure, se convertiam sintagmas em paradigmas, inventariavam códigos e as suas permutações, oposições, correlações e transformações, para depois, no fim de tudo, serem trazidas à luz “estruturas mentais universais” que se espremidas se revelavam tão rígidas e secas como uma noz. Para os estruturalistas o jogo de olhar para uma cultura e dispor assim os seus elementos justificava-se a si mesmo, absortos em baralhar e rebaralhar o baralho dos códigos distraíam-se da pergunta que tinham de colocar para poder abandonar a sua compulsão: para que serve fazer isso?

E no entanto, como se fosse preciso dizê-lo, a obra de Lévi-Strauss é uma obra clássica da antropologia, que marcou um tempo, um modo e um estilo de a praticar, é uma obra genial. Não fora o génio do seu autor, provavelmente a mais ninguém ocorreria sequer começar a percorrer os caminhos que Lévi-Strauss dir-se-ia percorreu até ao ponto mais distante, ou mesmo excessivo, a que ele conduz. O estruturalismo foi uma magnífica experiência antropológica, que incendiou polémicas, alargou enormemente os domínios da curiosidade etnográfica e acabou por contribuir, reactivamente, para apontar os caminhos futuros, mais interpretativos, politizados e radicalmente pós-objectivistas, da antropologia – gostar ou não gostar desses novos caminhos e julgar os méritos de os percorrer ou não percorrer é outra coisa, porque entretanto já se virou uma página da história da disciplina. O estruturalismo antropológico, que dir-se-ia não poderia ter saído da cabeça de mais ninguém senão de Lévi-Strauss, (e que em certo sentido com ele se confunde e a ele se resume) foi a manifestação do que os românticos chamavam génio, como aquele que através de um visão íntima e em última análise incomunicável produz as obras nas quais o mundo é iluminado de uma forma própria, tão própria que no-lo revela em termos que de outro modo nunca chegaríamos a ver. Mas resta sempre, claro, saber se é verdadeiro o que assim vemos.

O estruturalismo ficou para trás por boas razões: pela sua inatenção às dimensões fenomenológicas da cultura; pela sua negação da dimensão interpretativa do conhecimento antropológico; pela visão estreita da ideia de linguagem que tomou como guia; pelo seu pan-logicismo de proporções hegelianas; pela fundamentação da sua metodologia numa filosofia (um idealismo materialista, ou materialismo idealista, tanto faz) muito dúbia ou, pelo menos, muito, muito apressada.

E daqui a 100 anos? Fica aqui um vaticínio. A sua obra antropológica estará há muito esquecida e será apenas alvo da curiosidade de historiadores das ideias, que o são justamente porque lêem o que já ninguém há muito lê. Mas Tristes Trópicos ainda serão editados e lidos, um memorial de paisagens humanas fascinantes há muito desaparecidas e do talento literário do seu autor – de que celebramos o prémio maior de uma interessante e longa vida, um século de vida.

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