Os Livros Ardem Mal

O meu Lévi-Strauss

Posted in Efemérides by Osvaldo Manuel Silvestre on Sexta-feira, 28-11-2008

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O meu Lévi-Strauss são vários. É, em primeiro lugar, aquele que em Nova Iorque, no contexto do exílio provocado pela barbárie nazi, vai assistir a umas aulas de Roman Jakobson (um dos meus heróis do mesmo século) e tem a revelação da linguística saussureana. Não pelos resultados da revelação, ou seja, o «método»; mas pelo carácter exemplar de um episódio que nos ensina como a nossa vida pode mudar se mantivermos a disponibilidade certa para ouvir, isto é, aprender, mesmo as lições mais improváveis. É o excepcional escritor, aquele que torna não só difíceis mas estéreis os debates sobre os limites territoriais entre etnografia e literatura. Mas é sobretudo o homem que escreve, no final de Tristes Trópicos, passagens como esta (na p. 408 da edição portuguesa), nas quais se destila um pós-humanismo serenamente emancipador, passagens para as quais toda a classificação disciplinar é curta: 

O Mundo começou sem o homem e acabará sem ele. As instituições, os costumes e os hábitos que eu teria passado a vida a inventariar e a compreender são uma eflorescência passageira de uma criação em relação à qual não possuem qualquer sentido senão talvez o de permitir à humanidade desempenhar o seu papel. Longe de ser este papel a marcar-lhe um lugar independente e de ser o esforço do homem – mesmo condenado – a opor-se em vão a uma degradação universal, ele próprio aparece como uma máquina, talvez mais aperfeiçoada que as outras, trabalhando no sentido da desagregação de uma ordem original e precipitando uma matéria poderosamente organizada na direcção de uma inércia sempre maior e que será um dia definitiva. Desde que ele começou a respirar e a alimentar-se até à invenção dos engenhos atómicos e termonucleares, passando pela descoberta do fogo – e excepto quando se reproduz -, o homem não fez mais do que dissociar alegremente biliões de estruturas para reduzi-las a um estado em que elas já não são susceptíveis de integração. Sem dúvida, ele construiu cidades e cultivou campos; mas, quando pensamos neles, estes objectos são, eles próprios, máquinas destinadas a produzirem inércia a um ritmo e numa proporção infinitamente mais elevada que a quantidade de organização que implicam. Quanto às criações do espírito humano, o seu sentido não existe senão em relação a ele, e elas confundir-se-ão com a desordem quando ele tiver desaparecido.

 Osvaldo Manuel Silvestre

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