Os Livros Ardem Mal

Inquérito OLAM: Mário de Carvalho

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Segunda-feira, 24-11-2008

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Mário de Carvalho é ficcionista e dramaturgo. Estreou-se em 1981, com Contos da Sétima Esfera, tendo ao longo dessa década e da seguinte publicado uma série de obras que se tornaram referências centrais da ficção portuguesa contemporânea, quer no conto, com Casos do Beco das Sardinheiras (1982) ou A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho (1983), quer na novela – Quatrocentos Mil Sestércios, seguido de O Conde Jano (1991) -, quer sobretudo no romance, do atípico e decisivo O Livro Grande de Tebas, Navio e Mariana (1982) ao consagrado Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, com que venceu, entre outros prémios, o Grande Prémio da APE, no romance, em 1995. Publicou entretanto teatro: Água em Pena de Pato (1991) e Se Perguntarem por Mim, Não Estou seguido de Haja Harmonia (1999). Neste ano de 2008, editou A Sala Magenta.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

Porquê um? Porquê a propensão para o único? É a marca do monoteísmo? Ainda assim, há quem no faça trino. Porque me hei-de de comprometer hoje? Porque é que hei-de fechar a hipótese de não ser outro daqui a bocado? Um desses sábios da antiguidade disse: Desconfia do homem dum só livro. Recolhamo-nos por momentos, obedientes, desconfiando. Os velhos dizedores abasteceram-nos de frases. Para quê acrescentar mais? Os praticantes dos questionários costumam, ao menos, autorizar dez livros prà ilha. Porquê um racionamento tão drástico? É a crise? Já?

Apetece-me é fazer perguntas, mas desconfio de que o objectivo do “inquérito” (quiseram mesmo chamar-lhe assim?) não é apurar a capacidade interrogativa do respondente. Em todo o caso, que sei eu?, como dizia o outro.

Para mim, no dia em que escrevo estas regras, o melhor romance do século XX é A Casa Grande de Romarigães. É um ponto de confluência do antes e uma irradiação para o que virá depois. A Casa Grande… não seria possível sem o Amor de Perdição e Os Maias. Mas, sem A Casa Grande… duvido que fossem possíveis A Noite e o Riso, as Casas Pardas, A Paixão, ou Levantado do Chão. A Casa Grande é temperada com graça, dom que, em não havendo, condena. Não me refiro à comicidade (que é sempre, aliás, um ponto positivo), mas àquele sentido entre o irónico, o benevolente e o amargo que impregna, desfamiliariza e nos devolve as coisas iluminadas por um halo que cintila. Esta graça pode favorecer mesmo os autores de pessoa mais sisuda, como o insuportável conde Tolstoi. Eu bem gostaria de falar até em “aura”, mas considero o vocábulo embargado enquanto a moda não passar.

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

A Feira Cabisbaixa do Alexandre O´Neill. Porque retoma e nos devolve, actualizando-a superiormente, uma tradição satírica que passa por outro grande poeta menosprezado: Nicolau Tolentino. Porque a cada verso surpreende a nossa farronca, o nosso esgar de portugalório armado ao pingarelho e o desgosto disso. Porque vem ressoando e vai continuar a ressoar, até mais ver. Porque contém “poemas que gostaram de mim”, como O’Neill dizia. E, sobretudo, last but no least, tratando-se de poesia, por razões que me transcendem.

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

Na prosa, o Memorial do Convento pela espantosa propagação que teve, a caminho do Nobel. Na poesia, a Mensagem. Eu sei que mete raiva, mas…

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