Os Livros Ardem Mal

Inquérito OLAM: Jorge Fernandes da Silveira

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Quinta-feira, 13-11-2008

jfdsilveira

Jorge Fernandes da Silveira é Professor Titular da Faculdade de Letras da UFRJ, onde se doutorou, em Literatura Portuguesa, em 1982, e formou alguns dos melhores estudiosos brasileiros da literatura portuguesa. Foi Professor Visitante nas Universidades Brown (onde se pós-doutorou), Santa Barbara at California, Minnesota e Salamanca. Tem obra vasta, dispersa por revistas de referência – Colóquio/Letras, Relâmpago, Metamorfoses, Cadernos de Literatura Comparada, Veredas, Scripta, Semear – e editoras de Portugal e Brasil. Destaquem-se, além de obras que organizou e outras de cariz antológico (sobre Cesário Verde ou Luiza Neto Jorge), os livros Portugal Maio de Poesia 61 (Lisboa, 1986); Verso com verso [Estudos de Poesia Portuguesa] (Coimbra, 2003); O Beijo Partido – Uma Leitura de O Beijo Dado Mais Tarde: Introdução à Obra de Llansol (Rio de Janeiro, 2004); Lápide & Versão: O Texto Epigráfico de Fiama Hasse Pais Brandão (Rio de Janeiro, 2006); O Tejo é um Rio Controverso – António José Saraiva contra Luís Vaz de Camões (Rio de Janeiro, 2008). Agradecemos a Jorge Fernandes da Silveira a disponibilidade para responder ao nosso inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

Finisterra de Carlos de Oliveira.
Porque:

a) a tragédia anunciada em Casa na Duna, romance de 1943, volta à boca de cena no poema “13” de Área Branca de Fiama Hasse Pais Brandão, de 1978, mesmo ano em que se publica Finisterra de Carlos de Oliveira. Como um gesto de leitura por meio da escrita, maneira de expressar o seu conhecimento dos “reescritos” do Poeta, como uma forma de reconhecimento pelo Amigo mais velho, numa palavra, o criador de um Trabalho Poético em que a construção da textualidade através da interlocução entre o lido e o escrito é motivo de permanente homenagem, Fiama escreve o seu poema. E eu o cito: “Em horas trágicas, a centelha/ do trovão fracturava o verniz lívido/ do céu verde e as copas/ que a fascinação do céu elevava/ desde o solo, nesses dias,/ até à incandescência das nuvens./ Vi levitar árvores e arestas/ de casas, até se fundirem/ na deflagração, e transformarem/ a sua natureza em seres celestes./ Não era música a piedade/ que purificava as casas/ maculadas, terrenas e habitadas./ Nada se alcançava subindo/ ao ardor da terra aérea./ Nenhum dom humano/ me trouxeram os símbolos/ satânicos e angélicos do fogo./ Ouvi e vi o raio dúctil,/ pensando que era a paisagem/ que estava a exprimir/ uma tragédia clássica pelos tons/ de sangue, de ouro, de saliva./ Vi a boca dos céus que/ num poema grego era a/ do mar ou uma fonte.// Ao princípio, nos primeiros anos/ do texto, eu via-me/ como uma poeira debaixo/ da grandiosidade das árvores./ Como um pequeno som/ de martelo na madeira/ contra as forjas altas/ de um trovão. Como um corpo/ que a linguagem movimentava/ segundo um gráfico/ das comparações. No empedrado,/ embatendo em víboras/ fugitivas, em rebentos de/ vegetais, em nuvens de insectos/ invasores. E o aljófar/ que gotejava sobre a terra,/ água vinda dos lábios dos ventos// ou da mesma garganta rouca./ O ribombar que lhe dá/ uma forma gigantesca.”;

b) como em boca de corifeu, o poema “13” de Área Branca, mais do que registrar 1978 como o ano de uma extraordinária coincidência, dá mais justeza à escolha imediata de Finisterra como o meu “melhor (e grifo) livro de ficção portuguesa do século XX”. Sem jogar com as palavras, opto, na verdade, pela melhor ficção do século passado. Há nela, com ineditismo, uma certeira visão do sentido de vanguarda que os gêneros, sobretudo o romance e a poesia, ao longo dos anos de 1960, vão tomando na literatura européia ou divulgada na Europa, a hispano-americana, por exemplo, e na portuguesa, pois, apesar da censura e, logo, à sua maneira. Trata-se duma nova definição para o “poético”, uma nova poética dos gêneros, em suma, na qual os tradicionais conceitos de prosa e verso concertam-se numa nova textualidade, uma ária branca em fuga, contrária à narratividade empobrecedora. Na obra do Autor de formação neo-realista, o pós-guerra, o obscurantismo, a miséria, a guerra colonial, o pós-colonialismo, numa palavra, a realidade sua contemporânea, movem narrativas em que o interesse da estória a ser contada progride não necessariamente pela sucessão das peripécias, mas sim por um apurado e radical rigor técnico no qual a escrita é o maior (o “melhor”) acontecimento, o sujeito da ação e o objeto principal na trama. O quinto e último romance de Carlos de Oliveira, inquestionável releitura do primeiro, Casa na Duna, é um exemplo extraordinário deste modo de narrar; a partir do próprio título, Finisterra, em que parodiando verso célebre da epopéia nacional, “Onde a terra se acaba e o mar começa”, reitero entre o trágico e o épico um modo meu já antigo de ler a literatura portuguesa a partir de Os Lusíadas, nele assinalando o ponto crítico de uma cultura européia, na qual a paisagem descoberta pela viagem revela, sobretudo, a necessidade de uma nova linguagem que a nomeie. Viagem, Paisagem e Linguagem é o roteiro histórico-cultural da passagem portuguesa para a modernidade. É deste lugar, aliás, que deve ser vista a Lisboa revisitada pelo Pessoa da Mensagem e pelo Campos do “Opiário”, Orpheu 1, onde o sinal de orfandade identitária está publicado, estampado claramente, na falência de uma linguagem sobre o mar, imagem do desemprego numa paisagem urbana pós-Cesário, em que a proposição é uma outra viagem de ficção pela História: Linguagem, Paisagem e Viagem. Da epopéia ao romance assiste-se ao ingresso em tempos modernos, cuja Musa muda de nome. Não mais, Calíope, Os Lusíadas, Paisagem e Linguagem. Sim, Gândara, Finisterra, Paisagem e Povoamento;

c) uma refletida leitura da obra do autor de O Aprendiz de Feiticeiro confirma esta escolha, em que a permanência da paisagem no entrelugar (“A quinta parecia viver fora do tempo. Numa pausa do tempo.”, Casa na Duna, XV) exige da literatura portuguesa novas estratégias de povoamento, quer dizer, de linguagem: “a casa a desmoronar-se desmorona a disciplina, que vem (como se sabe) do equilíbrio económico.”, Finisterra, XVIII.

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

Área Branca de Fiama Hasse Pais Brandão.
Porque:

a) é um livro com uma extraordinária noção de textualidade, em que numa estrutura circular cabem o épico, o lírico, o trágico e, talvez, o dramático: um conjunto de 56 poemas em numeração contínua, dividido, porém, em três partes – “Rosas”, “Área Branca”, “Sinais de Vida” –, datado no espaço perfeito de um ano, de Maio 76 a Maio 77, e localizado, de maneira indeterminada na abertura, entre Lisboa, Vila Viçosa e Sevilha [(…) a minha existência/ (entre os iberos) urge.”, com data impressa, 15 Agosto 69, dia do seu aniversário, assim termina Fiama o poema “Modo Histórico da Cidra”, Era, 1974];

b) é um livro que, precedido de dois títulos fundamentais na bibliografia de Fiama, O Texto de Joao Zorro (1974) e Homenagemàliteratura (1976), prepara com eles a sua obra prima, Cenas Vivas (2000);

c) na primeira parte, “Rosas”, 20 poemas perfazem o movimento da experiência da leitura. Traçados à perfeição, de natureza “antológica”, esses poemas consideram a recepção ao poético desde a era clássica da imitação até a fase romântica da criação da subjetividade;

d) na segunda parte, “Área Branca”, 13 poemas (em que já interessa notar o título do livro, a sua “paisagem”, como matéria de troca no interior do seu próprio “povoamento” semântico), da “teoria do reconhecimento” da escrita como uma prática resultante da leitura e da formação de uma subejtividade ideal emerge a página em branco, imagem moderna, hoje clássica, do conhecimento da escrita como um jogo de signos em progresso, “Procuro intensamente o tema”, lê-se no poema “26”;

e) se da passagem da primeira parte à segunda houver o movimento da teoria do reconhecimento (o que se entende por tradição humanista) à teoria do conhecimento (o que se diz a invenção do sujeito contemporâneo entre o espírito iluminista, a genialidade romântica e a crise da modernidade), o que implica o conceito de Autor como uma subjetividade feita de palavras e identificada através dos gestos de escrita-leitura, em “Sinais de Vida” (em que “sinais” em vez de signos chamam a atenção), os 23 poemas finais, ocorre uma interessante suspensão de expectativas, já que mais próxima de um Camões de vocação maneirista, segundo Sena e, portanto, não propriamente voltada para aquele de caráter mais neo-platônico, clássico, em busca do concerto ideal entre contrários, Fiama surpreende;

f) entre “os humanistas, os feiticeiros da nova idade do papel” (“4”), e a consciência de que “o tema esvai-se/ perdido pelo dedo que aponta / para um espaço demasiado amplo” (“26”), desde o primeiro poema da terceira parte (“Roço a minha testa pela luz poente/ que posso sorver. Todas as metáforas/ de alimentos me saciam./ Tudo se fundamenta/ na existência das coisas./ (…) Eu mesma analiso a minha biografia sincera.”), entre o real e a análise,  a confissão e o fingimento, ungida pela metáfora da comunhão, Fiama parece considerar o imaginário do século XVII, barroco, cultista e conceptista, um batismo de fogo para o entendimento da Natureza e do progresso da literatura em sociedade; por meio de encontros de confrontação, um gesto simbólico entre o sagrado e o profano, superiores desígnios (os “sinais de vida”) levantam-se em direção ao seu humano livre arbítrio, apontando-lhe o sentido da Morte. Como em dois poemas que, por ventura, considero os mais belos de todo o livro: os poemas “35” (“Quando rebenta a flor nova/ no alpendre da casa parte de mim/ entrega-se a essa aparição.”) e “39” (“Quando eu vir vaguear por dentro da casa/ o abeto que cresceu no bosque, hei-de/ ajoelhar no soalho.”); disseminados entre os demais, recolhem-se em diálogo com um soneto da Fénix Renascida, “À F., Favorecendo com a Boca e Desprezando com os Olhos” (“Quando o Sol nasce e a sombra principia/ A doce abelha, a borboleta airosa/ Procura luz ardente e fresca rosa,/ Que faz a Terra céu e a noite dia.”), do Frei Jerónimo Baía, cuja sugestão de o F. de Filis ser extensivo à “bio[biblio]grafia sincera” de F(iama) fica como hipótese desejante para texto mais extenso e oportuno acerca das lições de vivência e experiência numa obra que mantém viva a chama no contexto da poética contemporânea que assiste ao retorno do épico e do trágico em busca de A Matéria Simples (último título, 2000).

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

Seriam as mesmas. Com a certeza absoluta, porém, de ser Clepsidra, de Camilo Pessanha, publicado em 1920, o livro mais importante para a formação do imaginário poético que me interessa mais como leitor de romance e de poesia portuguesa do século XX. E esta certeza tanto a encontro num poema de Carlos de Oliveira, “Retrato do Autor por Camilo Pessanha (Colagem)”, de Terra de Harmonia, 1950 (“A cinza arrefeceu sobre o brasido/ das coisas não logradas ou perdidas:/ olhos turvos de lágrimas contidas,/ eu vi a luz em um país perdido.”), como em estrofe do poema “32” de Área Branca: “Os pequenos ossos brancos/ constroem-nos. Temos a vida do vidro./ Enterrei-me em cinza à nascença./ Bebi pelos olhos rasos. Conformo-me/ com a finitude. Pego num raio,/ lanço-o para a areia/ onde os banhistas/ caminham para o caos. A ignorância/ salva-os da voragem dos cristais/ que laceram as cristas da ondulação.”

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