Os Livros Ardem Mal

Inquérito OLAM: Fernando Guerreiro

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Terça-feira, 11-11-2008

guerreiro

Fernando Guerreiro é poeta, com obra vasta e sempre em edição marginal, ensaísta, com obra dispersa por vários volumes mas sempre centrada na questão da representação – do irrepresentável, muitas vezes chamado fantasma -, professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e editor underground, com trabalho significativo no selo Black Sun (e, antes, na Quatro Elementos Editora). Agradecemos a Fernando Guerreiro a resposta que nos fez chegar ao nosso inquérito. 

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso? 

Face à questão que colocam, o melhor que lhes posso dizer é que, quando muito, posso referir obras que tiveram um grande efeito em mim (mas portugueses em particular?, porquê? isto vai por nações? será que a língua é de facto a nossa pátria?, duvido): Ângelo de Lima e António Maria Lisboa, em poesia (?), Céu em Fogo de Mário de Sá-Carneiro e o Livro das comunidades de Maria Gariela Llansol (Onde vais Drama-Poesia?). Mas dizer isto é já um erro. Discutir o cânone, ou sequer des-construí-lo, é algo que me diz muito pouco. O terreno da escrita-poesia – a poder-se, hoje em dia, ainda delimitá-lo nestes termos, isolando-o de outras práticas formais(-materiais): as imagens, os sons, os objectos ou práticas de vida – é um terreno móvel e convulso: as camadas geológicas alteram-se, sublevam-se, há terramotos (grandes e pequenos) constantes e instantâneos que revolvem o terreno, confundem os estratos, fazendo dele um tapete-rizoma orgânico-inorgânico, virtual- material em transformação contínua, decididamente não antropomórfica (a lógica do xisto não é humana). Nessa paisagem (oriental, muito oriental) a montanha não é mais alta ou importante do que o vale, a caverna ou o lago; não só porque tudo coexiste num desequilíbrio que define a sua configuração momentânea e em devir, mas também porque  tudo depende do ponto da vista: olhando para baixo, projectando-se no céu negro do precipício, a cratera é um Evereste. E depois:  Hölderlin, naquele que o começa a ler, não é um autor tão recente como …….? Todos os tempos se intersectam num (não-)tempo virtual-real – uma memória invenção cristal (o Manuel Gusmão tem escrito sobre isto) – em que nós próprios instantemente mudamos e somos compreendidos. Como escrevia Artaud – esse autor antigo-recente e português do futuro: “Et je vous l’ai dit: pas d’oeuvres, pas de langue, pas de parole, pas d’esprit , rien. /Rien , sinon um beau Pèse-Nerfs./ Une sorte de station incompréhensible et toute droite au millieu de tout dans l’esprit”.

Chega?

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