Os Livros Ardem Mal

Inquérito OLAM: Helena Buescu

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Terça-feira, 04-11-2008

Helena Buescu é Professora Catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Tem obra vasta, sobretudo no domínio da literatura comparada (teoria e crítica) e nos séculos XIX e XX. Foi professora visitante em várias universidades da Europa, do Brasil ou dos EUA. É directora-fundadora do Centro de Estudos Comparatistas e membro da Academia Europaea. Publicou nove livros, entre os quais o Dicionário do Romantismo Literário Português, que coordenou (1997), A Revisionary History of Portuguese Literature (com Miguel Tamen, 1999), Chiaroscuro. Modernidade e Literatura (2001), Cristalizações. Fronteiras da Modernidade (2005) ou Stories and Portraits of the Self (2007, com João Ferreira Duarte). Acaba de editar Emendar a Morte. Pactos em Literatura. Agradecemos a Helena Buescu a prontidão com que acedeu a colaborar no nosso inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

Considero Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, como o melhor livro de ficção portuguesa do século XX (tanto quanto esta escolha absoluta nos obriga a gestos de exclusão a que não temos justamente de nos obrigar). Porquê. A resposta talvez resida, para mim, naquilo a que eu chamaria a sua incomensurabilidade e a grandeza com que aceita e até almeja o irregular, o imperfeito (como livro). É um romance voraz, daqueles projectos de alcance quase transcendental em que o autor se endereça a Deus (à sua possibilidade ou contingência), à história (hesitando entre as duas guerras mundiais, Nemésio coloca o mundo e o século XX encapsulados dentro das ilhas do arquipélago central dos Açores, Faial, Pico e São Jorge) e às aporias do sujeito obscurecido da modernidade (em herdeiro do grande autor que foi, para todo o século XX, Dostoiévski). Um romance que aceita acabar dentro do terreno do inexplicado (ou inexplicável), que aceita dizer-se completo no preciso momento em que o inacabamento se torna evidente, que tem a coragem de olhar para a felicidade como o lugar estranho de escolhas por vezes incompreensíveis, que fazem da vida humana o lugar de um sentido que, se é procurado, é também incerto. É por fim um romance em que uma das personagens femininas mais vibrantes que conheço, Margarida Dulmo (que responde à Gretchen do Fausto de Goethe), conduz a história a cavalo (metáfora vinda do livro) das suas “venetas”: o mundo é muitas vezes aleatório e imprevisível. Nemésio “responde a” (e por isso fala com) outros projectos incomensuráveis dele conhecidos: mencionei Dostoiévski e Goethe, poderia ainda referir Proust ou Thomas Mann (a Montanha Mágica não fica longe do canal entre o Faial e o Pico, talvez o Pico seja outra montanha mágica como a de Thomas Mann, aliás).  Para ser inteiramente justa, há outro romance português no século XX que não se propõe algo de muito diferente: Sinais de Fogo, de Jorge de Sena. Nem a sua incompletude apaga um semelhante encapsulamento do mundo inteiro (via Guerra Civil de Espanha) na história pessoal dita em português. Outros livros que me são pessoalmente muito próximos (e associo também os seus autores numa linhagem de família) são Maria Judite de Carvalho (Seta Despedida é a meu ver uma preciosa colectânea do presente desespero) e Carlos de Oliveira (Finisterra, romance também das fundações infundadas, como Maria Judite). As últimas linhas que escrevo são, reconheço, uma forma de desviar a conversa da escolha absoluta que me foi pedida. Mas cumpri a resposta. 

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

Não hesito muito: o Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, é a meu ver o melhor livro de poesia portuguesa do século XX. Dizer isto implica para já um gesto: o de o puxar para a poesia, deslocando-o do terreno da ficção que também é (mas é-o de forma minoritária, em minha opinião). Quer dizer: o melhor livro de poesia portuguesa do século XX (Século de Ouro da poesia, como Vítor Aguiar e Silva argumentou e uma antologia amplamente glosou) é um livro escrito em prosa – o que talvez seja uma ironia poética. Reparo agora que pelo menos uma coisa do que escrevi acerca de Mau Tempo no Canal é válida para o Livro do Desassossego: o que é incomensurável no primeiro torna-se definitivamente insustentável no segundo. O livro de Bernardo Soares é feito na sua mesma impossibilidade: justamente porque nunca foi um livro no sentido “moderno” do termo. Quando o conseguiu ser, postumamente, foi apenas para que a sua intrínseca inviabilidade viesse acentuar isto: a forma livro só aparentemente fecha. Este livro de poesia só pode ser aquele livro que, na realidade, cada leitor se encontra empenhado em fazer. Talvez tenha sido essa a maior ironia pessoana, legando-nos uma aporia que nem ele, lugar geométrico de encontro de tradições conflituosas e incompatíveis, pôde alguma vez resolver: “sentir? Sinta quem lê”. Pois. Bernardo Soares vem por assim dizer antes e depois do resto de Pessoa. Antes, porque é nele que se formulam as perguntas a que os outros heterónimos respondem por parciais ficções poéticas. Depois, porque Soares dá o passo que nenhum dos outros ousa dar (apenas o acompanha esse outro heterónimo que dá pelo nome de Fernando Pessoa): confronta-se com o esvaziamento de um mundo a que apenas a “imaginação” (segundo ele), a “ficção” (segundo Pessoa) ou a “mentira” (segundo Wilde) podem responder. E depois, há fragmentos cuja estrutura verbal e frásica nada fica a dever à da poesia em verso. Do seu mestre, António Vieira, herdou a sintaxe límpida e complexa, ordenando e ritmando um português que, em prosa, não pode deixar de ser poesia. Para fazer como antes, tenho de mencionar mais dois nomes, que aliás acompanham Bernardo Soares como companheiros e mentores: Camilo Pessanha, Clepsydra e Cesário Verde, aquilo a que poderemos chamar O Livro (de Cesário Verde). Se o primeiro é inegavelmente um livro publicado no século XX, e por isso a sua menção não me traz problemas (outros que os de não poder aqui argumentar as óbvias razões da sua inclusão), já o segundo merece que explique porque o coloco no século XX. Não se trata apenas de, como faz Óscar Lopes (e bem), o associar ao Modernismo. Mas de argumentar que o LIVRO de Cesário Verde se aproxima do de Bernardo Soares também na difícil história crítica que o torna um livro de hesitante estabilização. O Livro de Cesário Verde é, na realidade, do século XIX. Mas não é Cânticos do Realismo um livro do século XX? Argumento que sim, e trago Cesário para a companhia de Bernardo Soares: dois livros impossíveis, a que se associa o terceiro livro impossível de Pessanha. Coincidência? Talvez sim, ou talvez não. Com a devida vénia a quem me fez estas perguntas, não posso deixar de acrescentar três livros de poesia da segunda metade do século: Do Mundo, de Herberto Helder, pelo relampejar das imagens e porque a sua violência oferece uma alternativa ao que Pessoa parecera enclausurar; O Nome das Coisas, de Sophia, porque é no depuramento do seu verso que emerge o furor certo (também ele clássico); Teatros do Tempo, de Manuel Gusmão, pela forma como as tradições são o ponto de partida para uma poesia profundamente pessoal, e a poesia se torna teatro, ensaio, narrativa e canto.

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor», mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

Seguramente “diferentes”. No primeiro caso, Nemésio quase não saiu, infelizmente (é extraordinária a capacidade de não ver o que é demasiado grande), de um certo gueto em que a sua açorianidade e a sua profissão o prenderam. No segundo caso, o Livro do Desassossego é um livro tardio no século XX – e mais tardia ainda a percepção crescente da sua decisiva importância. Tenho pena de não poder responder a esta pergunta relativamente ao século XXI: suspeito de que, nessa altura, a resposta sobre a coincidência entre “o melhor” e “o mais importante” seria, no caso de Bernardo Soares, com toda a probabilidade afirmativa.

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