Os Livros Ardem Mal

Inquérito OLAM: Rui Lage

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Domingo, 26-10-2008

Rui Lage é poeta, com um primeiro livro, Antigo e Primeiro, editado em 2002, e o mais recente, Revólver, em 2006. Publicou ainda teatro, fez tradução de poesia e fundou e co-dirigiu a revista aguasfurtadas. Tem crítica publicada em várias publicações periódicas. Integra a direcção da Fundação Eugénio de Andrade e anima ainda o blogue Vala Comum. Agradecemos a Rui Lage a disponibilidade para responder ao nosso inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?
 
Esquivando-me aos parêntesis, cuja informação neles contida me ensinaram na escola poder ser descartada sem prejuízo da oração principal, vejo-me compelido a escolher o Livro do Desassossego do “semi-heterónimo” de Fernando Pessoa, Bernardo Soares. É certo que a sua estrutura não obedece aos trâmites da ficção tal como comummente a entendemos (nesse caso escolheria Sinais de Fogo, a obra-prima inacabada de Jorge de Sena, onde ainda há espaço para heróis e heroínas e que nos brinda, por acréscimo, com um Bildungsroman, espécie de “retrato do poeta enquanto jovem”). Mas o mesmo se poderia dizer de um “romance” como Finisterra: paisagem e povoamento ou dos “romances” que António Lobo Antunes vem publicando nos últimos anos. Já para não falar das Ficções de Borges (que ele não chamou de “contos”, quando ninguém estranharia se o tivesse feito). Assim, diria que o Livro do Desassossego é a ficção do inexistente ou, como o próprio enunciador diz, “a autobiografia de quem nunca existiu”, uma “história sem vida” escrita por alguém que gosta de sentir-se “coevo de Cesário Verde”. Poderia ser, por exemplo, a biografia, de preferência não autorizada – we “would prefer not to” – do escrivão Bartleby. Nem romance, nem conto, nem novela, nem ensaio, nem diário mas uma espécie de milagre que não mais voltou – nem voltará – a repetir-se, o Livro do Desassossego é a obra “melhor” e “mais importante” do século XX português. E europeu. Portugal não se orgulha o suficiente da única obra engendrada neste insignificante rectângulo que se pode medir, sem medo, com os Essais de Montaigne, os Pensées de Pascal, as Confessions de Rousseau, as Mémoires d’outre-tombe de Chateaubriand, e por aí fora, ficando somente pela Gália, ultrapassando-os, como se não bastasse, a todos. Não vale sequer dizer que é a arte do fragmento levada a um clímax, ridículo de tão assombroso. Basta atentar nos Fragmentos de Novalis para se perceber a diferença, abissal. Ou até no tão badalado e fashion O homem sem Qualidades, de Musil. Em vão se procura perceber como foi possível, de onde veio, e para onde vai o Livro do Desassossego. Mas uma conclusão se pode tirar: o desassossego do título é um desassossego universal. Não universal de uma forma meramente retórica, como é costume dizer-se da obra Y ou do escritor X, quando, por exemplo, é agraciado com o Nobel. Universal em todo o alcance da palavra. Universal porque, tratando-se do desassossego de alguém que viveu quase anónimo, não interessa se ajudante de guarda-livros ou correspondente comercial na baixa lisboeta, e que talvez fosse Fernando Pessoa, pode ser o desassossego de qualquer outro anónimo, em qualquer outro tempo, lugar, língua, cidade. Uma prova? A quantidade de estrangeiros que, depois de lerem o Livro do Desassossego, de imediato o sentem e o adoptam como o livro da sua vida – e das suas vidas. Como foi isto possível, isto é, como pôde um indivíduo, sem deixar de ser indivíduo, ter tido consciência do seu anonimato e insignificância a ponto não da “alegre”, mas da triste “inconsciência disso”? O Livro do Desassossego é a verdade a ser-nos revelada; não a verdade sobre um qualquer sistema, valor, ideia, conceito, realidade, ou o quer que seja, mas a verdade do vazio, e o vazio da verdade: a consciência de que somos é aquilo que nos priva do sossego. Pessoa desejou, escutando a sua ceifeira, “ser ela, sendo eu”. No Livro do Desassossego, nós, leitores de Pessoa, sendo nós, somos ele – persona, ninguém. E este “livro”, que podemos ler desde 1982 graças ao labor de Maria Aliete Galhoz, Teresa Sobral Cunha e Jacinto do Prado Coelho, desassossega o próprio sossego da literatura, ou perturba a sua sonolência. Não esqueçamos que o ajudante de guarda-livros aparecia a Pessoa, escrevia este na célebre carta a Casais Monteiro, sempre que Pessoa estava “cansado e sonolento”. Para Mallarmé a poesia era “a linguagem a sonhar”. Talvez para o autor do Livro do Desassossego a ficção fosse a linguagem a dormir.

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

Fosse “O guardador de rebanhos” de Alberto Caeiro um livro de poesia, e não uma sequência de poemas que só viriam a lume, salvo erro, no terceiro volume das Obras Completas de Fernando Pessoa editado pela Ática em 1946, e seria essa a minha escolha, por puro instinto. No “dia triunfal” da sua vida, a 8 de Março de 1914, Pessoa terá escrito de rajada os 35 poemas do “Guardador”, de pé, encostado a uma cómoda. Hoje desconfia-se – ou sabe-se – que não foi bem assim. O caso só importará verdadeiramente à dita cómoda, que assim se verá excluída, ou não, da história da cultura portuguesa, dilema com o qual muitos autores, que não móveis, jamais se terão de preocupar. Assim vejo-me na obrigação de escolher um livro “a sério”. E escolho, até pelo esquecimento e indiferença a que tem sido votado, Limite de Idade, um dos últimos publicados por Vitorino Nemésio, em 1972. Percebe-se que desconcerte e assuste a coragem e ousadia dessa obra. Não há livro mais moderno depois do baú de Pessoa, e o modernismo de Pessoa é ainda o único modernismo que tivemos e, mais importante, aquele que temos. Tão moderno, Limite de Idade, que qualquer tentativa actual de acompanhar o “ar” dos tempos chega a ser mesquinha ao pé dessa obra. O partido da poesia portuguesa contemporânea que tanto protesta, e com razão, contra o divórcio entre a poesia e a realidade (ou aquilo que percepcionamos como sendo a realidade), e se procura posicionar de forma a constituir-se como reflexo dos tempos, escolheu, afinal (ressalva feita à poesia de José Miguel Silva), virar as costa ao mundo, fazer-lhe um manguito, pois está estranhamente – e paradoxalmente – convencido de que o mundo não existe para além do quarto, da casa, da rua, do bairro, da cidade onde se vive, ou da vizinhança e dos cafés e pessoas frequentados no dia-a-dia, ou dos livros lidos, dos filmes vistos e dos discos escutados. Isso não é o mundo, é apenas o nosso mundo, a nossa versão dele, por mais cara que nos seja, e por mais partilhável. Se à poesia interessasse o mundo não poderiam deixar de lhe interessar, por exemplo, as ciências – as da vida, da matéria, do universo. Não podia ser indiferente, como é, a descobertas científicas que obrigam o homem a repensar a sua própria condição e natureza, o seu lugar no universo. A definição mesma de “vida”, ou até de memória. A menos que à poesia não interesse a natureza humana, o que, não sendo grave em si mesmo, era, admitamos, um pouquinho bizarro. Este laxismo poético, disfarçado ora de mal de vivre requentado, ora de sacerdócio “órfico”, não nos levará longe. Nemésio percebeu tudo isto há décadas. Os poemas publicados em Limite de Idade, como se lê na extensíssima dedicatória ao cientista Aurélio Quintanilha, são “delírios microfísicos e biopoéticos”. A atenção de Nemésio à sua época é admirável, mas essa abertura da poesia ao mundo morreu com ele. Nemésio não deixou seguidores. O que se explica quiçá pela resistência (para não lhe chamar preguiça) dos “humanistas” em estudar, compreender e aprender ciências. Ainda na dedicatória, que devia ser um case study dos estudos literários portugueses, Nemésio refere-se a Aurélio Quintanilha como “discípulo de H. Kniep e M. Hartmann no (futuro) Instituto Max Planck” e como “precursor dos prodígios do Código genético (ADN) ao achar coisas tão novas que pareciam absurdas”. Isto vindo de um poeta, repare-se, que é hoje quase sempre referido como “místico”, ou ascético, ou da religiosidade, muito por culpa, é verdade, de… O pão e a culpa. Na primeira epígrafe, que é de Max Planck, explica-se o projecto do livro, mas também a visão do mundo que interessava, nesse período, a Vitorino Nemésio: “Os elementos reais deste quadro do mundo em formação já não são os átomos da química, mas os electrões e os protões cujas interacções mútuas são governadas pela constante da velocidade da luz e pelo quantum elementar de acção. De sorte que, do ponto de vista actual [1941], podemos considerar ingénuo o realismo da pintura clássica do mundo. Mas ninguém pode dizer se, nalgum dia futuro, as mesmas palavras não deverão servir para designar, por sua vez, a nossa imagem moderna do mundo”. Ora nem mais. E tanto assim é que, como se sabe, a física encontra-se de momento num beco sem saída e a precisar urgentemente de ser refundada. Encontramos, em Limite de Idade, o ser humano como “apenas tinta encarnada,/ pobre guanina mutada/ na Dupla Hélice nada”. Mas o livro nem é um distopia científica nem um panegírico ou exaltação da ciência como panaceia para todos os males ou como tutora de uma humanidade órfã de deuses. Nemésio nunca descola do quotidiano, e muito menos da dimensão mais íntima e pessoal, como se vê em poemas como o do “electrocardiograma”, os da “Escherichia Coli”, ou aquele onde se faz “tempestade num copo/ de H²O bem comum”. É claro que Nemésio, para incorporar tal matéria-prima na sua poesia, viu-se obrigado a inventar não direi uma linguagem nova, mas sem dúvida jogos lexicais e comércios de imagens e metáforas que antes não existiam na poesia portuguesa, como se percebe, por exemplo, atentando nalguns títulos: “Metáfora Metábole”, “Saudade Lípida” ou “Diálogo Polimérico”. Isto num tempo em que ainda não se debatia a utilização de células estaminais, ainda não se tinha clonado a Dolly, vulgarizado os OGM, descoberto exoplanetas, concebido a teoria de cordas (e outras mais exóticas), ou detectado galáxias que podem ser mais velhas do que o próprio Big Bang. Claro está que se Nemésio ainda se encontrasse entre os vivos, e a preparar um novo livro de poemas, não estaria tão interessado no “spleen” urbano ou em “vulcanismos” poéticos quanto no Large Hadron Collider e no bosão de Higgs.

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

Talvez respondesse, por exemplo, que as “Odes” do Eng.º Campos foram e são mais importantes do que “O guardador de rebanhos”. Mas mesmo isso é duvidoso, pois a verdade é que é mais fácil rastrear os filhos de Álvaro de Campos do que os de Caeiro. Desconfio, porém, que a prole de Caeiro é bem maior, e que há por aí muitos filhos e netos do Mestre sem que o saibam; ou, confortáveis junto dos pais adoptivos, preferem poupar-se ao transtorno de conhecer os pais biológicos. Mas a importância de “O guardador de rebanhos” é ainda outra, tratando-se, no meu entender, do nosso único sistema filosófico digno desse nome: as aparências – o visível – foram sempre sinónimo de engano, ilusão e mentira. Mas a nós, pobres mortais, não nos é dada conhecer a verdade que se esconde atrás, ou para além, ou sob o véu (como soía dizer-se), das aparências (Schopenhauer, por exemplo, preferiria o conceito de entidade ao de verdade). Não faz mal, diz Caeiro. Se tomarmos as aparências por aquilo que são, aparências, e reconhecermos o seu engano, e admitirmos que esse engano é a única coisa que não nos pode enganar, ter-nos-emos desenganado, e conheceremos a verdade, porque “pensar é estar doente dos olhos”. Mas a importância de uma dada obra mede-se por uma série de critérios. O critério mais atarefado é aquele que mais vicia o jogo: a importância à luz do cânone. Mas, conferir em Gadamer, a interpretação da História (da literatura, por exemplo) também possui uma história. É o grande senão dos cânones: a sua existência dentro da História, que se move e nos arrasta com ela, é uma contradição. De tempos a tempos, o cânone sai desautorizado. Mas enquanto isso não acontece, morde, provoca comichões. Nos anos 80 do século XX, por exemplo, a vítima da “importância” no que à poesia concerne foi, sobretudo, Eugénio de Andrade, o que deu origem a uma prole infame de epígonos, embevecidos com luzes, músicas e várias matizes de branco, quando o pobre Eugénio até era tão escuro. Nos anos 90, foi Herberto, cuja vampirização ainda hoje se prolonga com os poetas que eu chamaria, porque melhor termo não me ocorre, de poetas “menstruais”. Em simultâneo com estes últimos, outros, que entretanto já conquistaram – nalguns casos merecidamente – a sua “importância”, começaram por se reclamar da “importância” de Joaquim Manuel Magalhães, para percebermos agora que, afinal, a “importância” era Jorge de Sena. Amanhã, muito provavelmente, serão mais importantes Ruy Belo ou Fernando Assis Pacheco. Depois só Deus sabe. Mas o futuro e os que nele se encontram riem-se de nós, como hoje nós nos rimos do passado, e dos que lá ficaram, ao constatarmos que o “melhor” e o “mais importante”, às portas da 2.ª Grande Guerra Mundial – de que pelos vistos só o poeta Adolfo Casais Monteiro então ouviu falar – eram Régio e Torga.

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