Os Livros Ardem Mal

Inquérito OLAM: Nuno Júdice

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Quinta-feira, 23-10-2008

Nuno Júdice estreou-se, como poeta, em 1972, com A Noção de Poema. Desse volume até ao muito recente O Breve Sentimento do Eterno vai um percurso marcado por um ritmo alto de publicação, na poesia mas também na ficção, no teatro ou ainda no ensaio, uma vez que é também professor universitário de literatura (na Universidade Nova de Lisboa). Coligiu pela primeira vez a sua obra poética em 1991 (Obra Poética. 1972-1985), datando a última reunião dos seus versos de 2000. Poeta traduzido em várias línguas e na prestigiosa colecção da Gallimard, foram-lhe atribuídos já os mais significativos prémios literários portugueses. Agradecemos a Nuno Júdice a sua pronta colaboração neste inquérito.

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?
 
Os Passos em Volta de Herberto Helder, na colecção Novos Contistas da Portugália Editora, edição de 1963, com a capa de João da Câmara Leme e uma dedicatória que o Rui Diniz me fez: «De uma época de PASMO tecem-se as RENDAS DELIRANTES». Nestes contos está tudo, mesmo aquilo que na época não se podia dizer – o comunismo, a prostituição, a dor, uma angústia solitária, o exílio, e um tempo em que pouco mais havia a fazer do que ficar «a tremer e soluçar, debaixo da esplêndida luz do mês de novembro». Aprendi muito da minha escrita ao lê-lo; e tenho dentro dele uma folha de árvore seca com muitas décadas, apanhada talvez no jardim do Campo Grande por onde passava a caminho da Cidade Universitária levando-o comigo, uma folha de papel pautado com um endereço lisboeta manuscrito pelo Herberto Helder que ele me terá dado por qualquer razão, e um título inventado durante alguma aula mais aborrecida: «Como eu fugi da Sibéria (L’OEIL DE LA MOSCOWIE) narrativa verídica dos horrores por que um sacerdote austro-búlgaro passou, antes de ser capturado e barbaramente agredido».

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

A Memória dum Pintor Desconhecido do Mário Dionísio, na colecção «Poetas de Hoje» da Portugália, com um dedicatória que ele me fez em 1966, estava eu no último ano do liceu Camões e era ele meu professor de Francês. Veio daí, em parte, a relação que sempre estabeleci entre a poesia e a pintura. Foi nele que fiquei a saber «que tudo começa num ramo/de oliveira» ou que, «neste café quase deserto/não espero hoje ninguém/senão a cor difusa duma ausência/que não magoa e sabe bem». E é sem dúvida o melhor porque, além de mim, não deve haver meia dúzia de pessoas mais a saber que este livro existe.

3) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

Seriam diferentes nos dois casos. Poria a Aparição de Vergílio Ferreira no primeiro caso: um romance onde cabem todas as histórias do mundo, e que me dá uma história  diferente a cada leitura que faço dele. E o Homem de palavra(s) do Ruy Belo: tudo o que há a dizer sobre o século XX de que este livro faz parte está ali, e também sobre o que, do século XX, passou e há-de passar para este século XXI, e outros que vierem.

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