Os Livros Ardem Mal

Posta restante (I)

Posted in Notas by Pedro Serra on Terça-feira, 21-10-2008

Dou início, com este “Posta restante”, a um conjunto finito de posts com pequenos fragmentos, mínimos trechos recortados, de diferentes lugares da opera omnia de Miguel Espinosa. Fragmentação, recorte, tradução, são da minha responsabilidade, pelo que passarão a ser assinados estes posts com o sintagma “Miguel Espinosa”. Cada fragmento, cada trecho, cada lugar será endereçado a um poeta ou a um romancista de língua portuguesa. Deste modo, o conjunto finito de posts agora encetado constitui a ficção de um diálogo epistolar impossível entre Miguel Espinosa e a literatura em língua portuguesa, ou melhor, uma conversa muda entre Miguel Espinosa e os escritores em língua portuguesa de todos os tempos e de todas as geografias. Desta conversação só advirá um tremor inquietante, uma espécie de frio como aquele que se sente nos espaços infinitos dos Intermúndios de Epicuro, a comoção gelada dos tratos civis entre vivos. Eis, assim, o primeiro “Posta restante”:

De: Miguel Espinosa

A: Ruy Belo

Escrever os vocábulos com letra maiúscula ou minúscula não é, simplesmente, uma questão de bom gosto ou de ortografia, mas sim um problema de precisão e, portanto, um assunto filosófico. O conceito configurado com letra maiúscula converte-se em modelo, substância única, soberana e isolada. No meio da frase, o vocábulo assim disposto sobressai como o coração de um solitário entre as coisas. As palavras maiúsculas fazem-se valentes, todas elas; o nome comum transforma-se em próprio; o atributo em qualidade; e o adjectivo em substantivo. Quando escrevemos dessa forma, manejamos necessidades, não coincidências.

 

“Miguel Espinosa”

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