Os Livros Ardem Mal

Inquérito OLAM: Frederico Lourenço

Posted in Inquérito by OLAMblogue on Sexta-feira, 17-10-2008

Frederico Lourenço é Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Helenista, traduziu os poemas homéricos, mas não apenas, tendo visto o seu trabalho reconhecido pelos maiores prémios de tradução de Portugal (é ainda autor de uma muito popular adaptação da Odisseia para jovens). Publicou naturalmente, em seu nome ou como organizador, volumes de ensaios sobre a Antiguidade Grega. Num período relativamente curto, deu ainda à estampa uma série considerável de volumes de ficção, da premiada trilogia romanesca Pode um Desejo Imenso a volumes de contos e autobiografia, além de crónicas e de uma revisitação dos Caracteres de Teofrasto. Agradecemos a Frederico Lourenço a disponibilidade para responder a este inquérito (e a prontidão nessa resposta).

1) Qual é, em seu entender, o melhor livro de ficção (romance, novela ou conto) portuguesa do século XX? Porquê?

É difícil responder à pergunta sem logo desdobrar a resposta numa multiplicidade de ressalvas e de justificações. Mas terei “a coragem das minhas convicções”, para adaptar o provérbio inglês, e, dando de barato que ninguém quererá fazer-me a maldade de dissociar a minha resposta do subjectivismo absoluto que lhe é inerente (o subjectivismo neste caso de um “leitor” de literatura, e não de um professor ou crítico da mesma), afirmo que o melhor livro de ficção publicado em Portugal no século XX é, em meu entender, A Ilustre Casa de Ramires de Eça de Queirós, dado à estampa em 1900.

A minha resposta não seria diferente se nela reproduzisse literalmente a expressão formal da pergunta, de modo a entender “ficção portuguesa” como abrangendo ficção em língua portuguesa; logo aí se levantaria o espectro do óbvio candidato a melhor livro de ficção em língua portuguesa do século XX, que é Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa: mas, mesmo assim, prefiro A Ilustre Casa de Ramires.

Porquê a escolha de um livro em tudo conotado com o século XIX para o galardão da ficção portuguesa do século XX? Falando novamente na condição de leitor e não na de outra coisa qualquer, tenho de confessar o profundo desânimo que me provoca a nossa ficção quando comparada com a que se escreveu no século XX noutras línguas. Por muito que tente, não consigo, de facto, entusiasmar-me com a ficção portuguesa. Claro que há livros que li com admiração: O Livro do Desassossego (Fernando Pessoa), Sinais de Fogo (Jorge de Sena), Finisterra (Carlos de Oliveira). Há esse grande romance falhado, mas cheio de páginas que considero de primeiríssima categoria, que é A Velha Casa de José Régio. Há o encanto imbatível de O Jogo da Cabra Cega do mesmo autor. Li muitas páginas de romances de Agustina Bessa-Luís com o entusiasmo arrebatado que nunca me suscitaram as leituras de Vergílio Ferreira (autor imensamente sobrevalorizado). Mas haverá um romance de Agustina que funcione em pleno como “livro”, no sentido em que aplico esse termo à Ilustre Casa de Ramires? Duvido. Mesmo A Sibila é, para mim, um livro descosido. Pensando agora no rol imenso de autores de ficção portuguesa que não me suscitam o menor entusiasmo e chegando por fim aos cada vez mais divinizados “Dioscuros” José Saramago e António Lobo Antunes, dou-me conta de que, se calhar, o problema já não é da língua nem da literatura, mas meu. Assumo.

2) Qual é, em seu entender, o melhor livro de poesia portuguesa do século XX? Porquê?

A pergunta é, para mim, tão difícil como a anterior, mas por razões opostas. Desconcerta-me agora a infinidade de escolhas. Arrisco, porém, indicar o livro Geografia de Sophia de Mello Breyner Andresen. Dentro do milagre que é a obra poética de Sophia, este livro em especial é um milagre próprio de perfeição formal, de beleza decantada, de simplicidade e requinte. Alcança uma escrita poética que se diz sem precisar de se dizer, que brilha, tolda, inflecte, interpela, sensualizando as metafisicalidades que dos versos se vão desprendendo ao mesmo tempo que sublima o mais imediato do quotidiano. “Toco na sombra uma frescura de vinha”. É um livro para mim escultórico, musical e arquitectónico; um livro de paisagens que surgem de estilhaços de linguagem transfigurados em poderosas visualizações. É para mim o melhor livro de poesia portuguesa do século XX pela simples razão de que nenhum outro livro me tem dado tanto prazer e tanta felicidade ao longo de vinte e cinco anos de releitura continuada.

2) Se a pergunta não fosse «qual o melhor» mas sim «qual o mais importante», as suas respostas seriam as mesmas ou seriam diferentes? Em quê, no segundo caso?

Aqui não tenho qualquer dúvida na resposta. O mais importante livro de ficção portuguesa do século XX é O Livro do Desassossego de Bernardo Soares; e o mais importante livro de poesia, a Mensagem de Fernando Pessoa (o único livro de poesia que Pessoa publicou em vida). A justificação resume-se tão-só ao facto de Pessoa ser, no meu entender, o autor mais importante (e que de longe mais admiro) da literatura portuguesa do século XX e, a seguir a Luís de Camões, o Autor por excelência da literatura portuguesa.

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