Os Livros Ardem Mal

«Bullshit»? A sério?

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 12-10-2008

Como quase toda a gente, não faço ideia de quem seja o secretário permanente da Academia Sueca para o Nobel, Sr. Horace Engdahl. Tomei conhecimento da sua existência por causa das suas declarações sobre a literatura norte-americana (ou seria a cultura norte-americana?), por si qualificada como isolacionista. Tanto bastou para que por cá o habitual coro dos sempre predispostos a excitar-se «contra o anti-americanismo» se levantasse, apodando Engdahl de imbecil e citando com volúpia a conclusão de um texto de «defesa da honra» por um escritor menor, de nome Giles Foden, que nesse texto publicado no Guardian remata com «a word conceived in America but universally understood: bullshit».

Sejamos justos: não está obviamente em causa a grandeza da literatura norte-americana e dos seus vultos maiores hoje, ou pelo menos dos mais nobelizáveis, como Roth ou DeLillo; assim como não está em causa o facto de esses grandes escritores, que muitos vivem (et pour cause) dentro do populoso mundo universitário norte-americano, protegidos por instituições locais como o «escritor residente» ou os «cursos de escrita criativa», integrarem o grande diálogo da literatura. Quanto a continuar a Europa a ser o centro do mundo literário, é uma afirmação que não surpreende no secretário da Academia que atribui o maior prémio literário do planeta, e que é europeia; já quanto ao facto de os escritores americanos serem «demasiado sensíveis» à sua cultura de massas, a observação não é desprovida de pertinência, embora a conclusão – que esse facto conduz a um abaixamento da qualidade da sua literatura – seja discutível.

Não obstante, a intervenção de Engdahl é absolutamente pertinente no seu ponto central, rapidamente obliterado pelo cansativo americanismo reinante em Portugal: a denúncia do muito escasso volume de traduções de obras literárias editadas nos EUA. Ponto que, esclareça-se, não é um estado de alma ideológico de Engdahl mas simplesmente uma (chocante) constatação de facto. O problema, aliás, é extensível à outra grande literatura em inglês, a inglesa, justamente, cuja taxa de tradução de obras literárias em 1990, por exemplo, era de 3,3% (recolho estes dados da obra de Pascale Casanova La république mondiale des lettres, de 1999). É certo que se pode argumentar com o facto de o mercado inglês absorver a poderosa produção norte-americana, o que lhe permite internacionalizar-se sem mudar de idioma, mas todos os observadores são unânimes ao falar de uma «quase-autarcia dos mercados anglo-saxónicos», sem comparação com o que ocorria nos anos 50 ou 60. Note-se que, de acordo com os conceituados estudos que a autora refere, Espanha, Itália, Portugal, Holanda, Dinamarca e Suécia estão na posição inversa de grandes importadores, com uma taxa de cerca de 25%, andando a média europeia pelos 15%. Os casos extremos, à altura, eram Portugal, com 33%, e a Suécia, do secretário Engdahl, que atinge os 60%, assumindo-se, em função do Nobel, como o verdadeiro ponto de encontro da literatura mundial.

Quanto aos EUA, e para aqueles que ponham em causa a imparcialidade de Casanova, sugiro um relatório recente do PEN Clube (de 2007) sobre o panorama da tradução de obras literárias. Nesse relatório, no estudo de Esther Allen, «Translation, Globalization and English», as conclusões são esclarecedoras. Na secção «1.2. World Literature and English», e após nos informar que do total de livros publicados nos EUA apenas 3% são traduzidos, Allen detalha a situação:

While the figure of 3% of all published books is already alarming, the situation is in fact much more serious than that statistic would indicate. The vast majority of the translations included in this category are non-fiction works of a non-literary nature (computer manuals, etc.), and while such forms of exchange are certainly valuable, when the figures for the literary world are viewed separately, a far starker picture emerges. In 2004, the total number of adult literature and fiction titles in translation published in the United States was 874. And even that figure is misleading. A 1999 study of translation by the National Endowment for the Arts gathered its figures from reviews published in all the country’s literary magazines, no matter how small. The NEA study found that of a total of 12,828 works of fiction and poetry published in the United States in 1999 (as reported by Bowker), only 297 were translations— that is, only a little over 2% of all fiction and poetry published, and far less than 1% of all books published.

Em termos absolutos, isto significa que nos EUA, apesar da divergência demográfica, se publica menos de metade das obras literárias em tradução que se publicam na Itália (com uma população de 55 milhões); e publicam-se apenas mais 400 títulos do que na República Checa, cuja população é de 10 milhões. Digamos, pois, que Engdahl, cuja intervenção – pouco diplomática, reconheça-se – pode reivindicar o pressuposto de uma taxa de tradução sem par em todo o mundo, não disse tanto disparate como toda a gente, muito ideologicamente, desde logo supôs (muita dessa gente obviamente preocupada em recalcar a palavra que explica esta situação dos EUA e do inglês em matéria de tradução, uma palavra supostamente em desuso ideológico: imperialismo).

Em boa verdade, nada há aqui que surpreenda as pessoas minimamente conhecedoras dos EUA. Como se sabe, o cidadão americano interessa-se pelo mundo, desde que se entenda por «mundo» aquilo que se situa entre o Canadá, a norte, o México, a sul, o Atlântico, a leste, e o Pacífico, a oeste. O mercado dos bens culturais é parte desta condição; e também aí, por efeito da concentração empresarial a que vimos assistindo, lá e cá, os circuitos alternativos de produção e distribuição – de livros ou de filmes – têm vindo a ser triturados, sobrevivendo ou nas poderosas instituições culturais americanas (fundações ou museus) ou na universidade. Mas suponho que aqueles que se indignam com as palavras de Engdahl, e que muito provavelmente desconhecem esta situação, não têm em mente os departamentos de literatura comparada das universidades americanas que se dedicam à Weltliteratur, já que aquilo que unifica o espaço público português, e mesmo o tendencialmente «cultural», é o seu constante e consistente agon anti-académico. Permito-me citar de novo Gustavo Rubim, a este propósito: a única acepção de que em Portugal goza o qualificativo «académico» é a depreciativa. Reconhecer que na academia se estuda, investiga e reflecte – numa palavra: trabalha -, é algo de inaceitável entre nós. Ao longo dos anos habituei-me aliás a reconhecer o pavor do «académico» nos próprios agentes culturais portugueses. Por exemplo, em muitos editores que acham que fixar cuidadosamente um texto, clássico ou contemporâneo, anotá-lo, caso seja necessário, ou acrescentar a uma edição de um grande escritor em tradução e por cá desconhecido uma tábua bio-bibliográfica, em benefício dos leitores que são por sistema confrontados com grandes textos em estado de radical ignorância, é um supremo pecado «académico». Por outras palavras, e fiquemo-nos por aqui, o espantalho do «académico» legitima entre nós muita sornice e desleixo ou, se se preferir, muito desrespeito pelo cliente.

Volto ao meu ponto. Se não falamos da academia (essa Arcádia desligada da cidade e a que se acolhem muitos dos grandes nomes da literatura americana) mas do mercado e do «leitor comum», então o secretário da academia sueca, ressalvando aquelas questões que referi ao início, está inteiramente certo na sua denúncia da escandalosa situação da tradução de obras literárias nos EUA e do isolacionismo da sua literatura. O resto, lamento dizê-lo, é apenas mais uma ocorrência de americanismo acéfalo. Ou seja: uma conversa da treta.

P.S. Como se pode ler por exemplo aqui, a reacção dominante nos EUA à atribuição do Nobel a Le Clézio – «Clezi-who?» -, só evidencia, e cito, que «the American literary scene is almost entirely inward looking».

Osvaldo Manuel Silvestre

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