Os Livros Ardem Mal

O Império ataca de novo

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 28-09-2008

Conforme se pode ler aqui, o Ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, declarou que vem aí uma «refundação» do Instituto Camões, afirmando:

Está previsto que se refunde o Instituto Camões. O que significa prestar uma especial atenção a todos estes currículos do ensino do Português, que vão ter que ter em consideração que há muita gente que não quer Português literário. É preciso motivar as pessoas e responder às necessidades e desejos das pessoas.

Que se refunde o Instituto Camões, é capaz de ser boa notícia, dependendo do que se entenda por «refundação» e desde que se não esqueça que o Instituto Camões tem sido praticamente objecto de uma refundação por governo, com os mesmos medíocres resultados de sempre. Haverá agora um notório salto quantitativo, devido à afectação ao Instituto do ensino do português a nível não-superior no estrangeiro. O problema é o resto – e seria caso para dizer que «o resto é (má) literatura»…

Eu estudei, e vou estudando nas horas livres, gramática e linguística (história, teoria, linguística aplicada, etc.) e, ao contrário do Ministro da Cultura, não sei o que seja exactamente o «Português literário», embora saiba o que são modalidades mais ricas, no plano lexical, sintáctico, semântico, etc., do português: aquelas que abrem possibilidades a priori não inscritas no sistema linguístico (como quando Pessoa escreve «Chove no lá fora»), mas que, como percebemos depois, são de facto permitidas por ele – razão para discordarmos do Barthes que afirmava, muito ao ar do tempo, que «a língua é fascista». Se é a isso que o ministro se refere, ou seja, ao papel decisivo da literatura nesse enriquecimento do idioma, bem-vindo ao clube. Nos próprios estudos literários, porém, a expressão não tem hoje curso, a não ser em pessoas de certa idade e quando, ante certas passagens, por exemplo, do Padre Vieira, reagem como o Bernardo Soares que dizia ter chorado ao lê-lo na selecta, sentindo, ante essa «majestosa língua», uma «grande emoção política» (note-se que, descontando a idade das pessoas, esta emoção política continua a ser o decisivo separador de águas entre as várias modalidades de relacionamento com o idioma). A esta intraduzível «emoção política» induzida pelo idioma, certas pessoas chamam «português literário», o que refere pois essencialmente uma modalidade de pathos. Ora, como o pathos não é, nem deve ser, apanágio dos ministros, que aliás dele se demarcam publicamente – a não ser que se esteja a sugerir, num gesto politicamente não inocente, que «lá em casa, no sofá do escritório, eu posso dar-me a esses luxos, que contudo não devo impor aos conterrâneos na diáspora» -, é óbvio que não é de nada disto que se trata.

De que se trata então? Do que se trata, claro, é de continuar, por outros meios, o ataque, sem par em nenhum país do mundo civilizado, à presença de textos literários no currículo das disciplinas de Português, seja qual for o nível e o tipo de ensino proporcionados (e sobre isto nada tenho a acrescentar ao que disse em post anterior). O caso do ensino do português a estrangeiros, ou do português como língua segunda, é um sintoma da desproporção que as coisas estão a tomar, uma vez que nesse tipo de ensino a presença de textos literários é já moderada e sempre subordinada aos propósitos da «literacia funcional» que se visa obter. Pretender o contrário, como o ministro da Cultura, é apenas parte de uma estratégia, demasiado reconhecível, que consiste em magnificar um adversário, fazendo dele o inimigo que não é, para depois justificar, por uma questão de «interesse público», o seu extermínio. O que se pode dizer a este respeito é que este ministro encontrou rapidamente (demasiado rapidamente, eu diria) conselheiros disponíveis para o incitar a passar a esta nova fase do processo global de defenestração dos textos literários no currículo da disciplina de português. Aliás, como entender, se não sob suspeita, uma afirmação como a de que «há muita gente que não quer Português literário»? Fez o ministro sondagens e inquéritos para o saber de ciência tão certa? Sabe, em função deles, que as pessoas preferem o «português mediático» ou o «português futebolístico» ou o «português de Margarida Rebelo Pinto» ao «português literário»? Ou será que se refere à sociologia selvagem produzida por coisas como «Morangos com Açúcar»? Ou aos linguistas que acham que o ensino de um «que» relativo (ou de uma concessiva, uma causal, etc.) exige tanto tempo que só para isso não chegam 3 anos de escolaridade secundária (suspendamos o Básico, neste momento), quanto mais para ensinar o tão dispensável «Português literário» de Fernão Lopes, Garrett ou Cesário Verde? E o que significa isto de criar um programa, e implicitamente uma escola, que existe para «responder aos desejos das pessoas»? Para isso, que eu saiba, existem os talk shows e telenovelas da manhã, tarde e noite, nas TV’s, ou o futebol falado e escrito, ou o Correio da Manhã. Com franqueza, não é esta demagogia o que se espera de um ministro da Cultura.

O que está em causa, em mais este episódio, é aceitarmos ou não a pedagogia da complexidade que a linguagem é e que a literatura dá a ver com uma série de mais-valias (retórica, estética, afectiva, identitária, etc.). Por outras palavras, o que está em causa é a resistência ao triunfo da razão instrumental no domínio da aprendizagem do idioma. Porque, ao contrário do que as almas simples pretendem, não se trata apenas de dispensar «as literaturas que honram os idiomas», como dizia Borges, mas, no limite, de dispensar a própria complexidade da aprendizagem (neste caso, a do idioma), cada vez mais reduzida a um conjunto de fórmulas, receitas e breviários, como se o ensino da língua materna se esgotasse em aprender a elaborar uma acta ou um relatório. Mais uma vez, não se trata do «português literário» e, se calhar, nem sequer da «literatura» ou da «língua portuguesa», mas de um efeito mais da industrialização do ensino e da escola na sua fase transnacional: que é como quem diz, trata-se sim do «capital linguístico» no mercado internacional, e isto não na acepção de um Bourdieu, mas na mais crua que possamos ter.

Qualquer coisa como «How fast can I learn International Portuguese»? Tudo bem, desde que não tenhamos, como temos, a sensação de que esta máxima em portuguese já se aplica ao próprio ensino da língua cá dentro. Mas será tarefa de um Ministro da Cultura incitar a isso? E de um Instituto Camões? Não seria melhor, aliás, começar esta refundação por mudar o nome à coisa que se pretende refundar, se é esta a refundação que se pretende? É nestas alturas que, olhando para o (não) congénere Instituto Cervantes, para o funcionamento da Real Academia Espanhola e para o entendimento do papel da literatura e da cultura – ou seja, da filologia – no ensino do idioma, lamento não ser espanhol.

Osvaldo Manuel Silvestre

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