Os Livros Ardem Mal

Cravan (III)

Posted in Comentários by Pedro Serra on Domingo, 28-09-2008

Dir-se-á um dia que o tempo foi passando e, com ele, a memória viva do dia triunfal do Primer Combate Mundial de Poetas Pesados. Sempre houve consciência da impostura do hic et nunc do evento. Estar ali não era estar ali, na verdade estava-se a milhas dali. As webcams, os telemóveis com câmara incorporada, escavacavam quaisquer veleidades de um momento genuíno. O pessoal era todo imagem, o pessoal estava todo separado de si próprio. Mais ou menos como quando estás num hospital. Fazem-te uma radiografia ou coisa parecida, nem sequer te mexes da cama onde estás deitado transido de dores. E lá vai o “teu corpo”, elevador acima, elevador abaixo, num viático que acabará por te dizer o nome que deverás chamar à dor que deveras sentes. Tudo acabou no Youtube, a bem dizer “you are the tube”, o pessoal era o tubo: ou seja, tudo começou no Youtube, onde de resto já tudo tinha começado. O gentleman poeta Ben Clark e as suas maneiras provisórias de Rey misterio do wrestling; o Gonzalo Escarpa que duplicou o fake com uma falta de ar improvável; o David Moreno que prescindiu da costumada verdade de um chapéu de repórter dos anos cinquenta; o Dimitri Illich Ivanovic, corredor leninista de apostas ilegais; Iria, a moça dos cartazes que nada tem a ver com o boxe: ela é, na verdade, a única e autêntica stripper punk espanhola. Nem o público era público. Juro que alguns dos presentes, pelo menos alguns, eram qualquer coisa entre o Rubliov e o Boriska, cada um à sua maneira. Poesia? Sim, poesia, aquela que ainda hoje andamos à procura como danados: a do único exemplar que resta da opera prima do Víctor Pérez, “la tanquetilla del Fresno”. De facto, conta a lenda urbana que nos calabouços da polícia municipal, estando ali detido por uma arruaça comum, o poeta sacou do livro e gritou: “Sou poeta, tenho um livro publicado, não me podem fazer isto”. A ira foi tamanha, a ponto de, durante a carga policial para o reduzir, entre socos e pontapés, começar a abocanhar o livro. Era necessário fazer desaparecer as provas do delito. Infelizmente não conseguiu, pelo que, hélas!, sobrou um exemplar com as marcas da dentição do poeta. A literatura, como já alguém disse, conduz ao crime. Neste sentido, outras lendas urbanas que circulam por aqui falam de um professor que deglutiu, há uns anos, páginas de um clássico (numa aula, ainda por cima; diz-se que lhe soube a mel e lhe amargou o estômago; sobre isto, podemos ler com proveito o livro de Haddad infra citado); conta-se também aquela do poeta Leopoldo María Panero que, há mais anos ainda, bebeu literalmente um frasco de tinta permanente. Bizarrias excêntricas de letraheridos? Pode ser. Mas também pode muito bem ser, digo eu, que sejam gestos hermenêuticos, ou melhor, pós-hermenêuticos. Seja. E contudo…

Pedro Serra

Gérard Haddad (2004), Comer o Livro. Ritos alimentares e função paterna, Rio de Janeiro, Companhia de Freud, 196 pp. ISBN: 8585717807.
 

 

 

…e contudo, ninguém esteve lá, dir-se-á um dia. Ali, no subsolo do Espacio de Arte Contemporáneo el Gallo. Mas quando hoje todos aqueles espectros se cruzam nas ruas de Salamanca, também elas espectrais, juram a pés juntos que, naquele dia, naquele lugar, Arthur Cravan esteve no meio de nós.

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