Paulo Henriques Britto (V)
Da série «Gramaticais», os poemas I e V:
Uma palavra que entre as coisas caminhasse
tal qual um deus incógnito entre os mortais,
sem revelar a sua verdadeira face.Uma palavra que vivesse na linguagem
perfeitamente engastalhada em meio às coisas,
como a maçã na casca ou a ervilha na vagem.Uma palavra que pulsasse sob a derme
como aguarda sem pressa a hora de espocar
de sua cápsula, uma semente ou germe.Enfim, uma palavra apenas que pudesse
abarcar todo mundo, e nele não coubesse.
(Mas nada disso faz sentido,
porque é concreto, é existente.
Só significa o construído,
o que é postiço e excedente.E quanto ao mundo – o que independe
dos artefatos, o que é dado
a todos e ninguém entende –
o mundo vai bem, obrigado,e não quer dizer coisa alguma.
Porém o jogo continua,
como sempre, é claro – talvezum pouco mais seco, mais duro,
sim, um pouco mais inseguro.)
Pronto. – Agora é a sua vez.



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