Os Livros Ardem Mal

Scriptor ex machina (I)

Posted in Autores, Crítica by Manuel Portela on Sábado, 20-09-2008

O que tem de específico uma forma de escrever? O que faz um acto de escrita? Se considerarmos que a escrita é uma categoria particular dos actos de fala, de onde lhe vem a força? Ou quais são os seus efeitos? O que é que a escrita faz acontecer? Que relação institui entre escritor e texto, entre texto e mundo, entre escritor e leitor?

Escrever, na sua manifestação mais aberta, isto é, quando a escrita é a invenção e a descoberta de si mesma e das possibilidades contidas na língua, parece tomar a forma de uma luta contínua entre o sujeito e a linguagem. Se o sujeito se constitui na linguagem, que lhe oferece a possibilidade de se auto-referir e de referir o mundo, isso significa também que o ser, as formas do ser, são produzidas pela linguagem. É nelas e através delas que é dado ao sujeito a possibilidade de se constituir: pensar-se, sentir-se, ver-se; pensar o mundo, sentir o mundo, ver o mundo. É talvez essa experiência da intimidade entre língua e ser que a escrita permite tornar processualmente consciente no acto de fazer traços sobre o papel ou de digitar as letras que o teclado transfere para o ecrã. O desejo pode então ser pensado como um processo, sempre diferido, de o sujeito tentar dizer a linguagem que o diz a si próprio e ao mundo.

Mas dizer a linguagem só é verdadeiramente possível fazendo a linguagem dizer o não-dito, o ainda não-dito, o entre-dito, o interdito, o que não se sabe como dizer, o que não se sabe que é possível dizer. Esse é, num certo sentido, o ofício do escritor: descobrir e inventar hipóteses de dizer-se e de dizer o mundo contidas nas possibilidades combinatórias da língua. A sua função particular consiste nisto: entregar-se ao jogo combinatório da língua e produzir as frases capazes de dizer a possibilidade de o sujeito e o mundo serem na linguagem. Em certa medida, a luta com os signos é uma luta perdida e um acto falhado, que o escritor está disposto a perder e a falhar, sempre mais uma vez, sempre disposto a recomeçar. Este fracasso é também o seu esplendor, já que cada lance de dados da escrita abre uma nova possibilidade de mundo e de ser. Pensado como acto de fala singular, cada acto de escrita constrói uma forma específica de mundo e de ser. O efeito principal da escrita é a própria escrita. Por outras palavras: a escrita é o registo de si própria. Dá-se a ver dando-nos a ver como nos mostra o mundo, quer dizer, como cria o mundo que nos mostra.

Manuel Portela

Manuel da Silva Ramos, Os Três Seios de Novélia, Dom Quixote, 2008 [3ª edição]. ISBN 978-972-20-3597-2 [1ª edição, Inova, 1969; 2ª edição, Fenda, 1996]

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