Os Livros Ardem Mal

Oração de sapiência

Posted in Comentários by Pedro Serra on Sábado, 20-09-2008

Um lugar responde pelo seu humor. Um humor que pode funcionar noutro lugar, pode mesmo funcionar melhor nesse outro lugar, tão-só assim-assim, ou não funcionar mesmo nada. Mas já não é o humor daquele lugar. Baste-nos esta suficiência engraçada: um lugar fez o seu humor, o humor fez esse lugar. Quem diz lugar, claro, diz também tempo. Um exemplo – vale o que vale: só pode dizer de si – que circula num determinado lugar, num determinado tempo. Há umas décadas, um ilustre professor de linguística da Universidade de Salamanca dava toda uma lição de pedagogia das línguas: “As línguas – assentava com gravidade – ou se aprendem no berço ou na cama”. Nos idos em que se começava a dizer isto não havia ainda coisas como o Europass Language Passaport, mas talvez já se vislumbrasse certo futuro de especialização e burocratização do ensino linguístico, pelo que o acento grave da boutade seria já trabalho de luto. Esses idos são hoje um tempo confuso, a bem dizer quase mítico, em que o sistema universitário espanhol transitava com o mesmo compasso de uma sociedade que começava a assumir que as línguas trocadas são mesmo línguas trocadas. O tempo, hoje, é outro, mas o rescaldo daquele illo tempore ainda permite varrer cinzas do riso de anos melhores: uma varridela, aliás, que reforça o lado mítico do tempo confuso. Ainda ontem, novo exemplo, na excelente Oração de Sapiência proferida no Paraninfo da Universidade de Salamanca, inaugurando o ano lectivo, foi recordada a seguinte história autêntica:

Pues bien, imagínense ustedes formando parte del experimento y escribiendo sobre el centro de interés “lingüista”. ¿Qué palabras se evocarían para construir su imagen? Espero que no coincidiera mucho con la de aquella señorita que, entrando un día con un llorado poeta español en su piso de Madrid, en el que a la sazón pernoctaba el no menos llorado Emilio Alarcos, recibió esta recomendación por parte del poeta: “No hagas ruido, que en esa habitación está durmiendo un lingüista”. A lo que la trabajadora del amor respondió: “¿Un lingüista? ¡Anda, como yo!”.

Pedro Serra

Julio Borrego Nieto (2008), “Asín que ya lo digo, señá Tomasa”: el lugar de la variación en la descripción lingüística. Salamanca: Universidad de Salamanca, a.d. 1218. 110 pp.

Comentários Desativados em Oração de sapiência

%d bloggers like this: