Os Livros Ardem Mal

Paulo Henriques Britto (III)

Posted in Autores, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Sexta-feira, 19-09-2008

Da série «Quatro Autotraduções», o primeiro e o quarto poemas:

 

SONETO SENTIMENTAL

O que você chama de amor é isso?
Essa perda do parco tempo e espaço
que ainda te restam, esse desperdício
de esperma? Esse viver sempre em compasso
de espera, sempre com o mesmo desfecho
que te faz dar o que te falta mais?
Que amor mais besta – uma espécie de peixe
palerma, que nada, nada e não sai
do lugar – é isso? Esse diz-que-diz
que não te deixa louco por um triz
e só te inspira mesmo ódio e horror?
Que te machuca tanto que no fim
não dá para perdoar? É isso? Sim,
é isso que você chama de amor.

 

SONETO SIMÉTRICO

Será o pavão vermelho? Ora, direis,
este raio não cai mais do que uma vez
no mesmo lugar – é a prova dos nove,
é Götterfunken, uma coisa arisca
só dada (e olhe lá!) a quem é jovem,
que ainda guarda em si uma faísca.
Porém, passado o mezzo del camin,
às vezes uma luz fraquinha pisca,
e é como se sumisse uma neblina
que há muito esconde uma paisagem bela.
É ela, sim – pensa você – ali, na
sua frente. Ou talvez a parte dela
que ainda lhe cabe. Encha os pulmões de ar.
Goze esse instante. Ele não vai durar.

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