Os Livros Ardem Mal

Apocalipse now

Posted in Crítica by Ana Bela Almeida on Quarta-feira, 17-09-2008


A cena em que Wall-E dança diante do velho televisor, numa imitação patética da coreografia humana em tecnicolor, é uma das sequências mais tristes que alguma vez vi no cinema. Lembra-me aquela frase da amante, já não sei de que filme ou livro, que no momento da despedida dizia: “Eu serei a última a esquecer”. Também o robot Wall-E será o último a esquecer que um dia existimos no mundo e a sua repetição maquinal dos gestos humanos não fará mais do que sublinhar essa ausência. É significativo que os únicos seres humanos de carne e osso deste filme sejam os que aparecem em reprodução televisiva (na sucata de Wall-E e no ecrã da nave espacial) e que os que se julgam seres humanos às voltas no espaço sejam apenas desenhos animados, simulacros de gente. Em rigor, o próprio Wall-E, o robot criado à imagem dos humanos, não existe: é só um sinal, um rasto de alguma coisa que já houve, um bocado que ficou para trás.

O filme lembra o poema “Natura et ars” de Adília Lopes, também em cenário de fim da Terra, embora muito menos nostálgico dos tempos passados.

Natura et ars

(…)

Imagino o fim da Terra assim
todas as casas e todas as ruas
desaparecem
assim como todas as pessoas
graças a um cataclismo
sobrevivem apenas os telefones
as baratas e as listas dos telefones
marcianos nos dias a seguir
tentam interpretar a lista dos telefones
os marcianos não estabelecem uma relação
entre os telefones e a lista dos telefones
mas entre a lista dos telefones e as baratas
e essa relação é plenamente satisfatória

A tarefa de interpretação do mundo cabe agora aos marcianos, que não estabelecem uma relação entre os telefones e a lista dos telefones, mas sim entre a lista dos telefones e as baratas. Num mundo pós-humano a nossa divisão entre seres vivos (baratas) e coisas (telefones e lista dos telefones) não tem por que existir, e não é “natural”, se os próprios marcianos não pertencem a nenhuma das duas categorias. O universo em que a nossa faculdade de o interpretar cessa, abre-se a todas as possibilidades, e todas são plenamente satisfatórias.

Os marcianos de Adília, ao contrário de Wall-E, não ficam longo tempo memorando e inauguram um verdadeiro mundo novo, desumanizado, e suspeito que, para Adília Lopes, plenamente satisfatório. Já o pobre Wall-E ficará para sempre assombrado pelo nosso fantasma, imitando a cena da dança, que por sua vez é uma imitação da vida. A arte imita a vida que imita a arte que imita a vida até que o apocalipse nos separe.

Ana Bela Almeida

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