Os Livros Ardem Mal

Aquele querido mês de Agosto (V)

Posted in Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Terça-feira, 16-09-2008

É curioso constatar como toda a crítica das Viagens na minha terra, desde a data da sua publicação até hoje, parte do pressuposto de que a obra existe para responder a uma pergunta que Garrett a si mesmo colocaria e que, podendo ser desdobrada em duas versões, é de facto uma só. Essa pergunta é, na versão I, «O que é o povo?» e, na versão II, «Onde está o povo?» A pergunta, um caso típico de dois em um, é toda uma vastíssima questão romântica – estética, filológica, política e filosófica – e, precisamente por ser obviamente romântica e por bater certo com o perfil do autor e da obra, é, a meu ver, a maior armadilha dessa obra maior da nossa literatura (e da nossa teoria cultural e política). Por outras palavras, que aqui não desenvolverei, é uma ilusão de leitura que no entanto foi produtiva durante século e meio de exegese da obra. Ora, é para mim muito curioso que a reacção ao filme de Miguel Gomes tenha reproduzido os exactos termos da história da produção, desenvolvimento e esgotamento deste modelo de leitura das Viagens, de Garrett, que é também todo um modelo de leitura da nossa modernidade.

Claro que a solução mais fácil, para não dizer primária, para os problemas agenciados por uma obra em que a personagem principal só com muita dificuldade – a dificuldade de um míope – consegue progredir até Santarém, não encontrando aí, de facto, o povo mas a tradução do seu Geist em monumentos fundacionais que são ruínas e vice-versa (reporto-me à leitura hoje mais «avançada» da obra, também ela devedora daquela pergunta), consistiria em reconhecer nela um diagnóstico implícito de modernização falhada e atraso, diagnóstico que será exactamente o que a geração de Eça de Queirós, do alto da arrogância de quem possui a dromologia do comboio, produzirá, três décadas mais tarde, elevando o atraso ao estatuto de categoria explicativa de toda a cultura portuguesa desde, digamos, 1580. A dificuldade em amar uma pátria atrasada e, até há pouco tempo, uma reserva de pitoresco para estrangeiros, é uma das heranças mais traumáticas dessa analítica que, porque produzida na imprensa – entre as farpas jornalísticas e os folhetins romanescos de Eça – se auto-reproduziu e multiplicou, ao sabor das revoluções tecnológicas nos média, por todo um século (quem duvida da sua pervivência, leia Vasco Pulido Valente, ou os seus avatares Filomena Mónica, António Barreto, etc.; quem queira certificar-se do seu esgotamento, leia também VPV). Pior ainda, esta analítica legou-nos uma antinomia, naturalmente avessa a qualquer dialéctica, entre atraso e reencantamento (o produzido por retornos como o de A Cidade e as Serras).

Não é seguramente culpa de Miguel Gomes que perante esta constituição do nosso campo cultural (outros diriam «identitário»), o seu filme tenha de ser lido ou como irónica, paródica ou cínica denúncia do atraso – o do campo e dos campestres que bailam ao som de Dino Meira – ou como apelo mal-disfarçado ao reencantamento, como quem passa da Vichyssoise aos rojões e admite que prefere, e no fundo sempre preferiu, os últimos e pode enfim confessá-lo «sem complexos», à imagem de um dos muitos talk shows televisivos em que se apela, de forma politicamente não-inocente, a que «o povo» se mostre «sem complexos», como se o povo só pudesse ser realmente mostrável em registo dessublimado, esse que coincidiria naturalmente com a sua alma – que, ao ser exibida, se afastaria vertiginosamente da ‘nossa’.

Osvaldo Manuel Silvestre

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