Os Livros Ardem Mal

O exemplo que chega do Brasil

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 11-09-2008

A decadência das incorrectamente chamadas «livrarias tradicionais» – e que se deviam chamar simplesmente «grandes livrarias» – parece atingir o seu ponto mais espectacular com o caso da Buchholz. Nada tenho a acrescentar ao post de Francisco José Viegas, que resume bem a minha ambivalência em relação à livraria, se bem que, na minha qualidade de não-habitante de Lisboa e de pessoa pouco impressionável com snobeiras ou maus-tratos a clientes, nunca tenha mantido uma relação «afectiva», para bem ou para mal, com a livraria. A minha livraria portuguesa era a Leitura, na Rua de Ceuta, no Porto, em tudo superior à Buchholz (e dou de bónus, no rol das vantagens, o atendimento com «pronúncia do Norte»). Lembro, por exemplo, como quem evoca um tempo dinossáurico, a secção de poesia, muitíssimo actualizada em edições nacionais e estrangeiras e com um fundo sem par em Portugal. Os livros estrangeiros (antes da Amazon…), idem. Infelizmente, visitei-a neste Agosto, coisa que me arrependo de ter feito, pois a livraria de que falo, e que frequentei fielmente durante 15 anos, já não existe: agora, é mais uma livraria de «rede». E surpreende-me, aliás, no tom de «vingança tardia» da maioria dos posts sobre a crise da Buchholz, que se exalte o bom atendimento das livrarias das redes, quase sempre função de um terminal de computador actualizado e pouco mais, mas que se não refira o vazio e banalização crescente desses espaços que já só vão sendo livrarias nominalmente. Como Francisco José Viegas, não consigo exaltar-me com a morte das grandes livrarias do passado.

Regressado há pouco de uma breve viagem ao Rio de Janeiro, não pude deixar de ser sensível ao contraste. O panorama da edição brasileira, que se vinha alterando qualitativamente desde há uns 15 anos, é hoje impressionante e muito superior ao nosso, em qualidade de títulos e de edições. Nenhuma editora de referência se especializa em romances internacionais sobre nada, a ritmo frenético, como por cá várias fazem. Pelo contrário, uma editora como a Martins Fontes parece não abdicar de uma linha de alta exigência nas ciências humanas – filosofia, direito, neste caso com grande parte em tradução dos grandes pensadores actuais da disciplina (coisa que por cá não ocorre nas editoras de direito) – e na literatura.  Uma editora como a Cosac & Naify, no seu cuidado material e inventiva gráfica, não tem equivalente entre nós (e poucos terá no mundo inteiro). A colecção de bolso da Companhia das Letras, «Companhia de Bolso», desenhada por Jeff Fisher, está graficamente a milhas das que se editam entre nós. E os exemplos poderiam suceder-se, quer nas grandes editoras quer nas «alternativas», tal o salto qualitativo que a cada ano se nota. Nas livrarias de referência do Rio – começando pela da Travessa – é possível ver uma proporção «livros-lixo impresso» absolutamente inversa à que tomou conta das nossas livrarias. Ou seja: há ainda livrarias (e aliás, em que livraria de aeroporto é cá possível comprar, como comprei à saída, livros equivalentes a este ou este?). A ficção, a poesia, o teatro, as artes permanecem em lugar de destaque. As Humanidades não desapareceram ainda das livrarias, quer porque as grandes editoras continuam a publicar na área, quer porque existem no Brasil as imprensas universitárias que por cá nunca houve. E o atendimento é feito por jovens que não só são cordiais como quase sempre sabem realmente do que falam (a mim, um tentou convencer-me a não comprar o volume 3 da obra sobre o «controle do imaginário», de Luiz Costa Lima, com o argumento de que, na nova edição num só volume, que eu deveria antes adquirir, o autor tinha redisposto os textos e reescrito boa parte…). Finalmente, nos quiosques é possível encontrar 5 ou 6 publicações sobre livros, entre os modelos da LER e de Os Meus Livros – Bravo, Cult, Discutindo Literatura, Biblioteca entre Livros, Livros & Literatura, etc. -, umas 2 ou 3 sobre filosofia, várias sobre história e ainda sobre sociologia, artes, etc. E ainda vários programas sobre livros na TV, nos canais por cabo. Único senão? Aquele que por cá também conhecemos muito bem: os livros não são baratos, em boa medida porque as tiragens não aumentaram (ainda) na proporção do brutal crescimento da universidade pública sob o consulado de Lula, pelo que o mercado brasileiro tem ainda fortíssimas distorções. E note-se, en passant, o facto de na universidade não faltarem alunos na área das Humanidades e, mais especificamente, nas Línguas e Literaturas. Para quem não saiba, convém esclarecer que se ensina hoje muito mais literatura portuguesa no Brasil do que em Portugal: basta notar que a literatura portuguesa é curricular em todos os cursos de línguas e literaturas, o que nem sequer acontece cá, em que ela é apenas obrigatória em Estudos Portugueses (e nem é bom pensar na ausência de reciprocidade no que toca ao ensino da literatura brasileira cá); esta situação não se limita aliás à universidade, e daí o facto de todas as grandes editoras terem Camões, Gil Vicente, Pessoa, Eça, etc. nos seus catálogos.

Ilações? Sobretudo uma: o mundo não se esgota todo em Londres e Nova Iorque, como a intelligentsia local hoje pretende (porque Paris, como sabemos, «já era»). Há mais mundo, ou seja, há mais com quem aprender. Porque, sobretudo, o mundo não tem de fazer todo a mesma caminhada rumo ao vazio. O que está a acontecer no panorama editorial e livreiro português não tinha de acontecer, tanto mais que o Brasil, por défices estruturais no domínio da educação, não é um exemplo assim tão distante do nosso. Os brasileiros, porém, sem abdicarem da lógica do mercado, estão a conseguir um equilíbrio entre mercado e exigência que por cá passa já por «candura de intelectuais» (ou, pior, de «elitistas»), exactamente por não perderem de vista a dimensão cultural, e por isso socialmente estratégica, do livro. E isto acontece num país que por cá muita gente gosta de representar como «um caso perdido» onde, supostamente, não existiria um espaço público digno desse nome. O que tudo isto significa é que o nosso lugar na cauda das nações civilizadas, que em nenhuma área é tão nítido como na cultural, está em vias de ser assegurado por longo tempo. Pelo caminho que as coisas levam, amanhã não será certamente a véspera de o abandonarmos.

Osvaldo Manuel Silvestre

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