Os Livros Ardem Mal

A nossa representante no Jabuti

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 03-09-2008

Alguns blogues, e alguma imprensa, referiram o facto de no Brasil ter sido apresentada recentemente a lista dos candidatos ao Prémio Jabuti, agora na 50ª encarnação, e que, como reza a sua assinatura publicitária, está «Desde 1959 premiando os melhores talentos da literatura brasileira». Sendo o prémio mais prestigiado no Brasil, o Jabuti reparte-se hoje por 20 categorias, das quais o romance, a poesia, a literatura infantil, levam a parte de leão da atenção dos média, lá como cá.

Surpreende-me, porém, que as referências que por cá surgem à publicação da lista não venham acompanhadas do justificado destaque pelo facto de a lista integrar uma obra de autor português. Ou melhor, de autora portuguesa, já que se trata de Maria Irene Ramalho Sousa Santos, professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e do seu livro Poetas do Atlântico. Inicialmente publicado nos EUA, em 2002, sob o título Atlantic Poets: Fernando Pessoa’s Turn in Anglo-American Modernism (com uma bela capa de Manuel Portela), o livro foi editado no Brasil, pela imprensa da Universidade Federal de Minas Gerais, com o título Poetas do Atlântico, e será em breve posto à venda entre nós, com o selo da Afrontamento. É este livro, cuja importância para os estudos pessoanos é difícil escamotear, que se encontra na lista do Jabuti, na categoria «Melhor livro de teoria/crítica literária», ao lado de obras de alguns dos nomes mais importantes da disciplina no Brasil. Se somarmos a este destaque o facto de Irene Ramalho ter sido ainda este ano premiada com o «Mary C. Turpie Award», da American Studies Association, facilmente perceberemos que não se trata nem de um livro nem de uma autora qualquer.

É certo que Pessoa, e bem assim o projecto intelectual de o «integrar» no modernismo anglo-americano em que a sua obra faz mais sentido do que até aqui supúnhamos – projecto ao qual a autora votou longos anos da sua dedicação pessoana -, não é tão excitante quanto, sei lá, o impacto de José Luís Peixoto, e mesmo de Luís Miguel Rocha (cujo romance prelatício, segundo li em Isabel Coutinho, foi traduzido para inglês a partir da versão espanhola, o que seguramente não o terá prejudicado) no vasto mundo, ou seja, nos EUA. Mas há alguma coisa de desgostante na forma como os média se limitam a reproduzir a própria ordem mediática em que se movem, sem qualquer intervenção selectiva e crítica sobre os dados que lhes chegam. Por que diabo temos nós direito a toda uma abundância de pormenores «informativos» sempre que mais um medíocre escritor português é editado, por exemplo, no Brasil – o que ultimamente vem acontecendo com certa intensidade -, e por que carga de água ninguém refere o facto de, no país que, como nenhum outro, naturalizou Pessoa na sua cultura, da erudita ao samba, um dos mais importantes contributos para os estudos pessoanos nos últimos anos ser reconhecido ao ponto de integrar a lista do Jabuti? A resposta é simples: porque, nos média, ninguém perdeu tempo a percorrer o que ficava para lá do romance. O mesmo é dizer: o que ficava para lá do Star System. Ou, se se preferir, do mercado.

Osvaldo Manuel Silvestre

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