Os Livros Ardem Mal

Ler Auschwitz na praia

Posted in Comentários by Ana Bela Almeida on Domingo, 31-08-2008

Nunca concordei com a ideia de que há livros que não são para ler na praia. Às vezes ouve-se dizer que autores como Guimarães Rosa ou Proust “não são autores para serem lidos na praia”. Por mim, desde que à sombra, e sem bolas por perto, tanto me dá ler na praia como noutro lugar qualquer. Tendo crescido sem um “room of my own”, sempre achei piada, nos inquéritos sobre hábitos de leitura, a quem diz só conseguir ler livros sentado na cadeira do escritório, à mesa. Para isso é preciso ter escritório, cadeira e mesa, um verdadeiro luxo. Alguns de nós lêem com crianças a correr pela casa, em salas com a televisão acesa, curvados no sofá, em más posições, com barulho, de todas as maneiras. O lugar onde se lê não é importante, quando começa a leitura o movimento exterior suspende-se e o livro passa a ser a única coisa que existe. O livro tem esta particularidade de permitir que o seus bons leitores não sejam necessariamente os mais apetrechados de mobiliário.

Apesar desta minha convicção da inexistência de livros impróprios para a praia, este Verão aconteceu-me levar um livro e não conseguir começar a lê-lo. O livro em causa é Os que sucumbem e os que se salvam, uma compilação de ensaios de Primo Levi, publicado originalmente em 1986, uma reflexão sobre o pós-Auschwitz e a recepção crítica a Se Isto É Um Homem. A obra é atravessada pela ideia da dificuldade da leitura de Se Isto É Um Homem por parte daqueles que não são sobreviventes de Auschwitz . Os muitos leitores com quem Primo Levi contactou em conferências e escolas, através de cartas, etc., têm em comum o facto de não terem experienciado o lugar do horror. O facto de serem/ sermos leitores de livros faz de todos nós elementos estranhos ao Lager, onde, segundo Primo Levi,

poder só dar uma olhadela a um jornal já era um acontecimento inusitado e perigoso (pag.138).

Tentei ler este livro em casa, mas não é livro para se ler com a barriga cheia do almoço e o conforto dos ruídos familiares à nossa volta. E continua a ser difícil lê-lo, quando temos combinado ir fazer compras ao Colombo. E não melhora no conforto da biblioteca, nem na calma do parque. Ou seja, não há lugar para ler este livro. Ter nas mãos um livro, e o tempo e vida para o ler, é o primeiro sinal da nossa fortuna e radical distância da experiência que nos é contada.
Concluindo, acabei por voltar à praia e li-o todo lá.

Levi, Primo, Os que sucumbem e os que se salvam, Lisboa: Teorema, 2008, 204 pp.
Trad. José Colaço Barreiros[978-972-695-751-5]

Ana Bela Almeida

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