Os Livros Ardem Mal

Aquele querido mês de Agosto (II)

Posted in Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Sexta-feira, 29-08-2008

Exemplo um: Um camião de bombeiros, vermelho contra o verde dos pinheiros das serras de Arganil, arranca por uma estrada florestal acima. No momento em que arrancam camião e plano – o camião aguarda pela câmara para avançar -, arranca também a música, «Sonhos de Menino» , de Tony Carreira, e as legendas da canção. O camião sobe, a música embala-o, a letra da canção dá-nos a estranha verdade da cena: a memória do lugar da infância, o anseio do regresso ao pátrio ninho, esse idílio em verde protegido por uma corporação de bombeiros. Enquadramento frontal, composição simétrica, cinema primitivo, o camião, um totem rútilo, ao centro: um mundo perfeito e contudo ferido pela perda, um sonho entrevisto ao longe e recuperado sempre demasiado tarde: na reforma ou na tela do cinema. A felicidade é uma utopia cromática (e nacionalista) a vermelho e verde, com céu azul. Não mora ali, nos pinhais de Arganil, nem na tela, onde nada é, mas apenas nos versos, gravados no mundo de sonho projectado na tela, de uma canção «traduzida de estrangeiro». A infância é deveras um país estrangeiro e só regressa quando suplementada, por exemplo, por uma canção (traduzida, ou adaptada, mas verdadeira). Lá ao alto, quando o camião chegar perto do céu.

Exemplo dois: Helder e Tânia estão apaixonados, beijam-se enfim, e celebram o seu amor num passeio de mota. Tânia, atrás, com o capacete dele, um balão metalizado na mão que vai agitando, dando a ver a a sua felicidade. Helder conduz e a felicidade está no próprio acto de conduzir, esse brinquedo de gente grande (e aqui, de quem transita para grande). A câmara acompanha-os no passeio pela estrada que sobe por entre os pinhais. Ouve-se e lê-se «Abraça-me», pelo Trio Odemira, e a mota serpenteia e conquista a suave encosta sem hesitação nem pressa. Passam motoqueiros (os que tinham surgido a abrir o filme, na «parte documental», e agora regressam para esta imperdível celebração), Helder apita, Tânia acena, os motoqueiros idem, o balão ondula, a festa toma conta do mundo. A câmara acompanha firme e fielmente o casal, faz-nos desejar que o passeio, a sequência, não acabem nunca: estes jovens que cavalgam o mundo na sua motoreta são a celebração mais pura do amor como instante sem depois. Estão prontos a desafiar multidões ou a subir ao cume mais alto, abraçados. O mundo celebra-os, os planetas alinham-se em sua homenagem e a própria natureza, ante este abraço ilimitado, parece suspender a sua inumana distância. O balão jubiloso de Tânia faz-nos, mais uma vez, acreditar na possibilidade e potência do amor, e momentaneamente (pelo tempo justamente necessário) esquecer como tudo isto é produto de uma canção que nos pede aquilo que, desde que crescemos, sabemos ser pouco possível: que abracemos o mundo. Desde a esfusiante sequência de Nanni Moretti em Querido Diário, bailando, na sua vespa, ao som de canções, pelas ruas de Roma, que o cinema não era esta coisa elementar e mozartiana, tão intensamente e melancolicamente feliz.

Osvaldo Manuel Silvestre

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