Os Livros Ardem Mal

Sobre a expressão «Começar por um livro»

Posted in Comentários, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 27-08-2008

Começar por um livro: gosto de pensar que quase tudo o que conta ocorre assim. Não por aquilo a que um certo primarismo chamaria «o triunfo do espírito livresco», mas porque a expressão nos ajuda a perceber o carácter não evidente do começo: o que começa, começa sempre muito depois de ter começado, quando  nos apercebemos de que aquilo que estamos a viver começou a fazer sentido antes, algures, e porque não num livro? Mas também porque um livro remete sempre para outro e outro – passa-se do Breviário Mediterrânico para o Epistolário Russo, para Koba the Dread, etc. – e nesse percurso é o começo que se vai refazendo e recomeçando e dissolvendo, embora ao mesmo tempo se reforce o sentimento da sua necessidade (como viver sem começos? como não começar de novo a cada Agosto?). E ainda porque, insista-se, os livros são no mundo, são mundo, fazem mundo, como aprendemos neste texto exemplar (mais um). Vemos nos livros a crueldade do século XX, como depois a temos, ad oculos, à mesa – ou nos cidadãos que abandonam os animais (e os idosos) em período estival.

Dizendo-o de outra forma: é por ver claramente visto que este é o mês mais cruel que Januário intui que o seu Agosto começou num livro. Um livro sobre a crueldade, tema de tantos livros. Mas quantos livros terá sido necessário ler para chegar àquele que agora inicia esta série? Quantas décadas do mais cruel dos séculos terá sido necessário viver para perceber que são os livros que não permitem a redenção que esse século, como todos, confia à amnésia dos sem-livros? Talvez a expressão «Começar por um livro» signifique simplesmente que aquilo a que chamamos «começo» não é senão uma imposição póstuma de sentido (individual e contingente, como a escolha de um livro); que essa imposição carrega consigo um acto de leitura que é, indissociavelmente, um acto de escrita; que esse acto está sempre a começar, por isso que a leitura é um desejo de escrita que nos evidencia a que ponto esta é sempre uma reescrita que se define por não ter fim, esgotando-se antes no acto de começar, ou seja, de re-escrever; que, se assim é, a diferença entre «começar por um livro» e «começar um livro» não é pertinente, tal como não é pertinente a diferença entre «vida» e «livros» (ou a diferença entre «começar por um livro» e «começar um post»: o de Januário ou este).

Comecei por um post que referia livros que li, tenho ou desejo ler e ter. Apercebo-me agora de que o meu Agosto teve muito a ver com o de Januário, já que também começou por e com um livro – O Homem sem Qualidades -, também ele, a vários títulos, um livro cruel (e identicamente premonitório de fim de impérios e civilizações). Devo-lhe um agradecimento por isso, que é um agradecimento aos livros que lhe deram o difícil Agosto que agora (d)escreveu.

Osvaldo Manuel Silvestre

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