Os Livros Ardem Mal

Leitores precisam-se

Posted in Comentários, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 17-08-2008

João Diogo escreveu um excelente comentário ao meu último post no seu Qualquer coisa assim: informado e muito pertinente. Nada tenho a opor ao que diz sobre o modo como a fragmentação do mercado livreiro, cruzada com o aumento do volume de títulos editados, nos conduziu à situação actual. E também me parece evidente que o problema central é o de sempre: o nosso reduzido número de leitores, a enorme dificuldade em fazer com que ele cresça.

Numa versão anterior do post em causa, de que desisti, mais longa e argumentada, abordava empiricamente o fenómeno. Confronte-se por exemplo o número de pessoas que, numa viagem de comboio entre Lisboa e Porto, lêem um livro, ou lêem sequer qualquer coisa (cada vez mais, um jornal gratuito), com o das que falam em altos brados ao telemóvel ou enviam furiosamente sms – e contraste-se essa situação com a equivalente em países como Espanha e França; facilmente se constatará que, como alguém disse, passámos de uma iliteracia pré-moderna para uma pós-moderna, já não marcada pelo analfabetismo mas pela substituição da leitura pelo telemóvel, fenómeno aliás observável em todos os níveis sócio-culturais da população (e de que o Verão nos dá uma ilustração ainda mais chocante, na quase total abstenção da leitura a que se assiste nas nossas praias). É difícil não constatar que o que de facto se mantém, na longa duração da nossa emperrada modernidade, é a inexistência de uma censura social interiorizada em relação à ignorância ou à inapetência pela leitura e pelo esforço intelectual, no sentido do melhoramento pessoal e, logo, comunitário – isso que, justamente, a grande crítica burguesa conseguiu produzir em países como Inglaterra, França, Alemanha, etc. Entre nós, hoje como há cem anos, continua a ser possível fazer elogios da ignorância, da esfera da política à dos média, sem que uma censura social se manifeste. Muito pelo contrário, e esse é todo o drama da nossa modernidade, a nossa burguesia nunca conseguiu realmente ilustrar-se (veja-se, por exemplo, o tipo de leitura que nos é proposto nos consultórios dos nossos médicos ou advogados – ou os quadros que os decoram…) e, como compensação psicanalítica, dir-se-ia, desenvolveu todo um agon contra o universo da cultura e das artes, a quem só foi permitido existir e subsistir sob ressalva e em permanente estado de denúncia de um putativo «estado de excepção» – um status in statu – elitista e parasitário (dos «nossos impostos», etc.).

Ou seja, não se lêem livros porque não há real motivação social para o fazer. Onde divirjo de João Diogo é na responsabilização que faz da universidade por este estado de coisas. Não querendo ser paroquial, permito-me alargar o âmbito dessa responsabilização a toda a escola portuguesa, mas para a refutar. O meu conhecimento do nosso sistema de ensino, nos seus vários níveis, mostrou-me à evidência que o problema não é a escola (o que significa que não subscrevo as versões apocalípticas da nossa escola, hoje tão populares), já que aí se fizeram enormes progressos, sobretudo no apetrechamento de bibliotecas, no fomento de práticas de leitura e escrita, na criação de um circuito de escritores que visitam as escolas, na explosão da literatura infanto-juvenil como um fenómeno de mercado que interage fortemente com a escola e cria efectivamente leitores, etc. O problema, lamento, não é a escola mas a família, já que essa reproduz o modelo «cultural» da burguesia portuguesa, face ao qual o esforço da escola pode pouco – o que não é o mesmo que dizer que nada pode. Mas é para mim evidente que a família, em Portugal, faz com que muitas vezes se percam os leitores que a escola conquista. Para o dizer de uma forma um tanto brutal, quem nós precisaríamos de educar não são os filhos mas os pais. Quando, nos «Morangos com Açúcar», se retrata os miúdos mais fixes como aqueles que não sabem sequer o que é um livro, e quando os pais assistem à novela com os filhos e lhe acham imensa piada – é a sua forma de escaparem àquela outra insinuação, que é toda uma chantagem, da novela: a de que ler é para cotas, coisa que todo o indivíduo a partir dos 30 anos paga para não ser -, é caso para reconhecer que a sociologia da novela produz exactamente isso que estou a referir: uma representação da cultura, do livro e da relação da família portuguesa com ele contra as quais a escola faz o que pode. Quanto às fotocópias, lamento mas são uma consequência fatal da inexistência de bibliotecas universitárias realmente apetrechadas (pois não se pode dizer apetrechada uma biblioteca que possua apenas um ou mesmo dois exemplares de obras de referência) ou com horários de funcionamento indignos daquilo a que muita gente aprecia chamar «a vocação da universidade». A situação de indigência financeira das universidades, porém, e sejamos realistas, não permite mais.

O problema é que o mercado, como qualquer habitante de Coimbra com hábito de frequentar livrarias bem sabe, e como diz João Diogo, está sobredimensionado. Não há clientes para tanta livraria nem para tanto livro e é evidente que muitas livrarias irão desaparecer nos próximos anos. Ou então sofrerão outro tipo de «destruição criativa», como pude constatar em dois casos muito diversos nestas férias. Um deles, numa cidade próxima de Coimbra, numa livraria de referência que muda de dono e é submetida a um processo arquitectónico de «modernização». Quando reabre, consegue quase não ter livros de editoras como Relógio d’Água, Assírio & Alvim, Livros Cotovia, Quasi, Tinta da China (editoras como a Afrontamento ou a Campo das Letras subsistem apenas por via do seu catálogo infantil), mas apresenta livros muito vistosos – e grandes! – na montra e nas mesas das novidades. Outro, em Coimbra, numa livraria de uma grande rede em que em tempos comprei muitos livros mas onde não ia há anos. Tendo lá regressado há dias não reconheci o local e não me convenci de que estava numa livraria – antes um vasto, e muito feio, quiosque. Ou seja, e este é o meu ponto, as pequenas e médias livrarias, vão-se transformando, com raras excepções, para pior (geralmente quando passam para as mãos de gente «jovem, dinâmica e sem complexos» no que toca à natureza e função do livro no mercado); e as redes, com excepção talvez da Almedina, uniformizam-se no que têm de pior. Dir-me-ão que o processo é internacional; mas isso só o torna mais preocupante ainda. A que acresce o facto de em Nova Iorque ou Londres ou Madrid a demografia, os índices de literacia, etc., permitirem que as livrarias grandes tenham um ou dois andares de lixo colorido que compensam com um terceiro andar onde se podem comprar os livros que importam. Entre nós, infelizmente, quase nunca há dimensão para os três andares e o tal terceiro, ainda que metafórico, está a ser cada vez mais reduzido à inexistência pelos dois primeiros, cada vez menos metafóricos.

Ou seja, se para haver um mercado do livro «a sério» é necessário banalizar sem fim o livro e as livrarias, o que sucede é que no fim do processo, que estamos a viver aceleradamente, arriscamo-nos a que não venha a haver de facto livrarias. Porque este é o problema que o tal meu amigo, e aliás colaborador deste blogue, colocava: se o mercado precisa mais dos 1000 clientes que compram um livro por ano do que dos 70 ou 80 que compram dezenas – e é óbvio que se a equação se exponencia para as dezenas ou centenas de milhar, deixa de funcionar de todo -, e se as livrarias se reconfiguram em função desse critério de mercado, e desse cliente, é claro que os tais grandes compradores deixam de as frequentar, pois nelas só encontram o «livro único» da história de Gonçalo M. Tavares. A questão está em saber se não há aqui uma contradição, em termos puramente mercantis, pois os 1000 ou 10 000 ou 100 000 compradores do livro anual não frequentam livrarias e preferem, com grande probabilidade, comprar os livros em hipermercados ou quiosques. E assim, se calhar, a prazo, são as póprias livrarias que ao adoptarem este cliente como modelo estão a assinar a sua certidão de óbito.

Post Scriptum tardio: imperdoavelmente, não citei em apoio da minha descrição da banalização do livro e das livrarias o melhor texto que vi publicado entre nós: o post de Ana Bela Almeida Dia do Pai, neste mesmo blogue. Mais vale tarde do que nunca, pelo que o faço agora.

Osvaldo Manuel Silvestre

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