Os Livros Ardem Mal

e.poesia

Posted in Comentários, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 17-08-2008

Cheguei a este poema por meio de uma visita a A Natureza do Mal. Li-o, aliás, até ao fim, como se fosse de Luís Januário – mais um excelente poema seu – e só mesmo no fim, ou melhor, muito depois do fim, já na altura da ruminação in mente, me apercebi da declaração «Copiado de Blue». Fui então ler esse poema e convenci-me de que o primeiro o transcrevia meramente, que pertencia, não a Januário mas a Cláudia Santos Silva, e fiquei a remoer o meu desconhecimento pela sua existência. Passados uns dias volto ao local do crime e apercebo-me de que no seu blogue Cláudia transcreve, sob o título «intertexto», o primeiro poema, que afinal é de Januário. Ou não exactamente, já que Januário reescreve Cláudia, resistindo, entre outras coisas, à cópia do verso «as trovas do Zeca do Chico do Aleixo», o que, confesso, me agrada. Vejo-me forçado a concluir que sou um leitor desatento; ou então, a meu benefício, que a «cópia» de Januário é tão inteligente que, mais uma vez, demonstra como o autor é «aquele que copia com autoridade».

Entretanto, e como já conhecia os poemas de Januário, hoje em dia um dos poetas portugueses que leio com mais interesse, fui ler os de Cláudia: dois bons poetas, ou melhor, e.poetas, já que não conheço livro de nenhum deles. Seria altura de desejar publicamente que tal situação se altere em breve e possamos dispor dos poemas dos autores em livro, patati patatá. Mas resisto a esse impulso de bibliófilo e prefiro chamar a atenção para a net como sucedâneo «natural» de uma série de estratégias editoriais relativamente marginais que sempre acompanharam a história da poesia: cancioneiros de bolso, panfletos, poemas colados à porta de igrejas, no caso da poesia de pendor satírico do período barroco, as revistas magras e efémeras do simbolismo, do modernismo e das vanguardas, a «poesia marginal» brasileira dos anos 70 que tudo isso resumiu na utilização do stencil e da manufactura em tiragens escassas passadas de mão em mão, o «Cartucho» em que poetas emblemáticos dos nossos anos 70 reuniram poemas, etc., etc. E agora, a net. Numa altura em que as tiragens dos livros de poesia, mesmo em editoras e colecções de referência, baixam dos 500 exemplares, o que justifica o recurso à impressão digital, creio que deixa de fazer sentido que a nossa atenção crítica à poesia que hoje se faz em Portugal se limite à publicada em livro. Precisamos de uma crítica que se emancipe da forma-livro e que preste atenção quer às dimensões performativas da poesia em acto, hoje num processo de exponenciação multimédia, quer à multiplicidade de suportes em que ela ocorre, ainda quando escrita. Porque o que temos, na melhor das hipóteses, é uma declaração da «dignidade universal dos suportes» sem contudo qualquer contrapartida efectiva, no que toca ao seu reconhecimento pelo discurso crítico, que, digamos, prolonga, sob outras formas, a sua histórica resistência a ocorrências da poesia como as da poesia experimental ou da poesia sonora, que foram em rigor formas de comutação de suportes. Ou seja, ficamos, mais uma vez, divididos entre o silêncio de uma crítica que não consegue reconhecer a poesia senão em forma de livro, e as reacções afectivas dos leitores, quase sempre limitadas a manifestações de pathos, nas caixas de comentários. Admito que tal não seja fácil, uma vez que a ortopedia do livro no acto de ser lido simula uma progressão de sentido que restitui a esse percurso um fechamento semântico e formal sem o qual temos dificuldade em pensar as figuras da Obra. Pelo contrário, ler poemas soltos em posts priva-nos não só da sequência em que um texto se insere, como da premeditação que sempre supomos na composição da obra, e sobretudo do conseguimento ou falhanço composicionais como critério de valor, e da própria atribuição de sentido, ao todo e a cada uma das suas partes. Além de que é sem dúvida muito mais difícil pensar a figura do autor como um sujeito-sem-livros; tanto como é difícil pensar o poema no regime «ilustrado» em que ele muitas vezes ocorre nos blogues (reveja-se o poema de Januário acima citado, ilustrado com uma magnífica foto que de facto o adensa; ou os desenhos que acompanham o blogue de Cláudia Santos Silva). Ainda assim, creio que há algo de inadiável neste gesto, sobretudo num momento em que o digital não só promete como efectiva um mundo novo, multiplicando, no caso em pauta, as possibilidades de circulação dos textos, mas também do seu funcionamento em regime multimédia: não seria empobrecedor editar o poema de Januário a preto e branco numa banal página de papel, sem a foto que no blogue o acompanha e sem a hiperligação que o religa à sua «origem»?

Não garanto, porém, que possamos estar, todos aqueles empenhados na poesia e na sua crítica, à altura de uma situação tão exigente como esta. Mas vai sendo tempo de tentar.

Osvaldo Manuel Silvestre

Advertisements

Comentários Desativados em e.poesia

%d bloggers like this: