Os Livros Ardem Mal

Borges, o outro, o defenestrado

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 31-07-2008

Como me encontro a preparar um curso sobre Jorge Luis Borges e disponho da obra do autor em livros soltos espanhóis e portugueses, ponderei adquirir um ou dois exemplares das Obras Completas, editadas na Teorema, para o reler de empreitada (o curso terá como base a edição das Obras na Emecê). Nesse sentido, dirigi-me à minha livraria preferida em Coimbra, a Almedina Estádio, seguramente uma das melhores do país. Encontrei apenas um livro de Borges: o vol. das Obras com as obras ensaísticas em colaboração, justamente o que menos me interessava. O diligente e simpático funcionário a quem me dirigi, após pesquisa na base de dados, informou-me de que não havia nenhum outro exemplar nas outras livrarias da Almedina na cidade – que suponho ser a terceira cidade do país em venda de livros.

Dirigi-me então à FNAC. Após uma minuciosa e crescentemente céptica pesquisa, vi-me na necessidade de constatar que nem um volume de Borges ali existia. Dois funcionários, um deles meu conhecido de anteriores livrarias, confirmaram a inexistência. «Nem um?…» «Sabe, é a rotatividade dos livros…»

Por fim, e mais tarde, aproveitando a noite quente e a sua proximidade em relação a minha casa, dirigi-me à Bertrand do Dolce Vita, ao que sei a segunda maior do país, logo depois da de Aveiro (mas agora existe a nova do Porto, que será talvez a maior?). De novo, nem um volume de Borges – embora na secção de livros de bolso espanhóis, de existência recente (o espanhol toma conta do mundo..), tenha encontrado alguns do argentino, mas que não se coadunavam com o meu propósito. E a preços claramente inflacionados, diga-se.

Esta é evidentemente uma história sem moral, a menos que admitamos que a «alta rotação» que define hoje o capitalismo livreiro se possa candidatar a «moral da história» (talvez com maiúscula, no sentido hegeliano do «fim da História»). As livrarias não têm hoje espaço para Borges – devolvem-no passados x meses ou ficam apenas com uma ou outra relíquia – porque têm de o ter para os livros sobre Maddie McCann ou a palpitante vida íntima de Salazar (ou as estreias na «ficção» de Bagão Félix, Nuno Rogeiro, etc.). Seria talvez altura de mudar o nome do local onde estas coisas ocorrem, e que cada vez menos está à altura dos significados que historicamente se acolheram a «livraria». Julgar-se-ia que sofás, cafés, etc., ajudariam a que as livrarias pudessem permanecer o local onde nos relacionamos com objectos que passam a mobilar a nossa vida mais íntima, mas a essa ilusão o capitalismo livreiro actual já deu bastas respostas desmitificadoras e desmistificadoras. Estamos, também aí, completamente secularizados, ao que parece. Aliás, em perfeito acordo sistémico com as alterações arquitectónicas que se apoderaram de muitos desses espaços, seria desejável, e sobretudo justo e verdadeiro, passar a chamar-lhes boutiques de livros.  Ou lojas de conveniência.

P.S. Se este blogue fizesse sondagens, inquéritos, etc., seria caso para pedir a cada livreiro deste país que respondesse a esta pergunta singela: quantos livros de Jorge Luis Borges tem na sua livraria? No estado actual das coisas, basta a pergunta pelo quantitativo.

Osvaldo Manuel Silvestre

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