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A primeira vaga «maoísta»

Posted in Crítica, Recensões by Miguel Cardina on Sexta-feira, 25-07-2008

Quem, de algum modo, conhece a história dos conflitos ideológicos no campo da esquerda durante as décadas de sessenta e setenta, identifica o papel fundamental que desempenhou o chamado «maoísmo» na construção de um discurso simultaneamente de proximidade e ruptura com as práticas dos partidos comunistas tradicionais, bem como a sua importância na politização de algumas franjas da sociedade, com intensa expressão nos territórios estudantis. Em O um dividiu-se em dois, José Pacheco Pereira (JPP) procede à revisão atenta do conflito sino-soviético, anotando a constituição, um pouco por todo o mundo, de estruturas autónomas alinhadas com as teses de Pequim. A genealogia ideológica da inaugural manifestação portuguesa desse fenómeno – a FAP/CMLP, criada em 1964 – é também objecto de tratamento neste volume, que é apresentado como o primeiro de uma série dedicada a diferentes aspectos dos movimentos radicais de esquerda desses anos.

Como sugere JPP, apesar dos grupos pró-chineses terem adquirido características específicas de acordo com a realidade nacional em que se inseriam, o certo é que a sua matriz é directamente devedora do questionamento chinês e albanês da tese da «coexistência pacífica» defendida por Moscovo. Se, no final da década de cinquenta, os primeiros confrontos, ainda latentes, têm como pano de fundo a questão da cooperação militar e os obstáculos ao programa de armamento nuclear da China, rapidamente a crítica se centra nas acusações do abandono soviético da luta de classes mundial, por entre acusações cruzadas de «revisionismo» e «esquerdismo». Em final de 1963 a cisão estava consumada e a partir desta altura começam a proliferar partidos alinhados com as teses chinesas.

Recusando constituir uma Internacional, o certo é que a China apoiou activamente a constituição destes centros, boa parte deles nascidos de rupturas no interior dos partidos comunistas históricos. JPP descreve o modo como em pouco tempo se formaram em vários países dezenas de colectivos «marxistas-leninistas» (m-l), acrescentando alguns quadros interessantes sobre as publicações, financiamentos, organizações e viagens de dirigentes de grupos m-l à China e à Albânia.

Um deles foi precisamente Francisco Martins Rodrigues, que se desloca a esses países no Verão de 1964, já depois de consumada a ruptura com o PCP. Ocupado em resolver o chamado «desvio de direita» da direcção de Júlio Fogaça, Cunhal rapidamente se vê a braços com um outro «desvio», este de esquerda, que censurava o PCP pela aliança com a burguesia republica e pela expectativa de derrube pacífico da ditadura. Na reunião do Comité Central realizada em Moscovo em Agosto de 1963, Martins Rodrigues apresentaria as suas objecções, abandonando o partido pouco depois, ao mesmo tempo em que o PCP assume a defesa militante das teses soviéticas.

O último capítulo do livro é dedicado à constituição da Frente de Acção Popular (FAP) e do Comité Marxista-Leninista Português (CMLP). Uma vez que não se pretende fazer aqui a «história política e organizacional» da FAP/CMLP (p.8), o texto concentra-se essencialmente na definição dos contornos ideológicos do grupo, efectuada em alguns artigos publicados no órgão Revolução Popular. Aborda-se, ainda assim, o modo como o núcleo inicial se estruturou e os contactos internacionais mantidos pela FAP/CMLP até inícios de 1966, altura em que os principais dirigentes são presos. Abria-se espaço, a partir de então, à irrupção daquilo que, segundo JPP, só aí se pode chamar com propriedade de «maoísmo», derivado do impacto no Ocidente da Revolução Cultural e do radicalismo estudantil do final da década de sessenta. Mas para compreender essa história é necessário olhar antes o cisma sino-soviético e a primeira vaga de organizações m-l, o que esta obra sintética faz de modo particularmente eficaz.

José Pacheco Pereira, “O um dividiu-se em dois”. Origens e enquadramento internacional dos movimentos pró-chineses e albaneses nos países ocidentais e em Portugal (1960-1965). Lisboa: Alêtheia Editores, 2008.

Também publicado em Caminhos da Memória

Miguel Cardina

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