Os Livros Ardem Mal

«The Late View»

Posted in Notas, Notícias by Sandra Guerreiro Dias on Sexta-feira, 25-07-2008

The Culture House, em Reiquiavique, tem em exposição fotografias de autor do Prémio Nobel islandês da Literatura, Halldór Laxness. A mostra, inaugurada em Junho último, intitula-se The Late View – photographs from legacy of Nobel Laureate in Literature and cosmopolitan Halldór Laxness e é uma oportunidade a ter em conta para quem esteja de malas aviadas para uma qualquer dessas viagens ainda sem destino definido. Ela dá a conhecer uma perspectiva do escritor enquanto pensador do seu tempo, reflectindo, através do olhar fotográfico que lança sobre pequenas circunstâncias do seu quotidiano, sobre o envolvimento do autor/artista com o destino do seu próprio país.

Autor de uma obra vastíssima (65 livros em 68 anos de produção literária) Halldór Laxness assinou títulos como Salka Valka I (1931) e Salka Valka II (1932), que relatam a saga de uma jovem pescadora pobre, ocupação comum naquele tempo e naquele lugar, ou Independent People (1934-1935), Gente Independente, a única obra do autor traduzida e editada em Portugal (Cavalo de Ferro, 2007). Aqui, o contexto é o de uma Islândia nos princípios do século XX e a história a de Bjartur, das Casas de Verão, personagem principal do romance, na luta desesperada pela independência diante dos outros e de si próprio. Halldór Laxness é ainda o autor de The Atom Station (1948), sobre o pós-II Guerra Mundial na Islândia, uma das suas obras mais polémicas, e de The Happy Warriors (1952), cujo enredo decorre durante a ocupação viking, aquando da descoberta daquele país, em meados do século IX d.C., mas que é afinal mero pretexto para a crítica duríssima e plenamente assumida aos regimes totalitários de Hitler e Estaline.

Assim, certo é que a sua obra acaba por assumir-se enquanto exercício e ensaio em permanente diálogo com o seu tempo, cujo pano de fundo é o ser humano enquanto sujeito naturalmente em colapso e sempre merecedor de complacência. Halldór Laxness foi, além disso, o escritor que, através da ficção e dos inúmeros artigos publicados em diversos jornais, melhor documentou a longa e sinuosa história da luta pela independência de um povo e de um país que o é apenas desde 1944. Por este facto, e pelo consenso que a sua obra reuniu, na Islândia e no mundo, Haldór Laxness tem sido considerado por muitos como o último verdadeiro escritor nacional do Ocidente. Por outro lado, os seus livros e as frentes em que se bateu, bem como as múltiplas reflexões políticas e sociais que a sua extensa produção convoca, reclamam o reconhecimento do lugar inquestionável da literatura na história de cada país.

Em notas redigidas para The Fish Can Sing, obra publicado em 1957, Laxness afirmava que «são precisamente essas pessoas, as pessoas comuns, aquelas que transportam em si as mais virtuosas das virtudes humanas». A sua obra, o seu trabalho, testemunhos de quase um século de história (nascido em 1902, o escritor terá vindo a falecer apenas em 1998), é, por uns caminhos e por outros, o reforço, à usa maneira, dessa máxima que bebeu no realismo social da década de 30. «Nascido para cantar para o mundo», como se diz de Bjartur em Gente Independente, terá sido também esse o desígnio maior de Halldór Laxness.

«The Late View» estará em exibição até Fevereiro de 2009.

Sandra Guerreiro Dias

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