Os Livros Ardem Mal

Arménio Vieira (V)

Posted in Autores by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 24-07-2008

TRAGÉDIA CONJUGAL

Uma lagosta em cima de um pano verde
é um evento a partir do qual as interpretações
podem atingir números assustadores.
Algumas, se bem que poucas,
revelam que existem imaginações fora
do comum e até assombrosas, ao passo
que outras, em vez de provocarem o riso,
podem gerar nalgumas almas sensíveis
uma vontade louca de suicídio. Que se matem!

Ora bem, um pobre homem viciado em jogos
de casino teve que ficar uma noite em casa,
porque a mulher não quis que ele fosse
divertir-se à custa dela, que o dinheiro,
segundo ela, custava muito a ganhar.

É claro que uma mulher rica e ciumenta
é capaz de atar o marido com uma corda
de seda, pode mesmo matá-lo com uma
pistola de ouro e a seguir desatar aos gritos.

A viúva, em desespero, pega
na corda de seda e enforca-se mas, por uma
razão qualquer, não morre. Os milagres são
raros mas acontecem, sobretudo quando a
mulher é bruxa. A viúva sai enquanto o cadáver
olha para o pano verde com a lagosta em cima.
O relógio de casa vai batendo horas,
até que a viúva, por sinal vestida de branco,
regressa numa vassoura, trazendo um
homem consigo, um demónio talvez, mas diferente
dos outros, já que não tem chifres e usa gravata.
Pois bem, o cavalheiro embrulha o cadáver
no pano verde,  a seguir come a lagosta, sem ligar
o molho e a mulher, e vai-se embora levando
a pistola de ouro. A viúva pega num lenço de
bolso, mas não chora. Um gato negro entra
pela janela, diz boa noite à senhora
e, à maneira de um gato normal,
atira-se para cima do sofá e dorme.

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