Os Livros Ardem Mal

A crítica e Margarida Rebelo Pinto

Posted in Autores, Comentários, Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 14-07-2008

Depois da capa da LER nº 3, neste fim-de-semana o último romance de Margarida Rebelo Pinto (MRP) teve direito a resenhas destacadas no Ipsilon e no Actual, por Maria Conceição Caleiro e Rogério Casanova, respectivamente. Lendo os textos, como já lendo a entrevista de Carlos Vaz Marques, fica-se com a sensação de que um grosso equívoco paira por aqui. O equívoco é o que consiste em dar atenção crítica a quem passa melhor sem ela (digo-o no próprio interesse de MRP); e em dar atenção crítica no modo em que ela ocorre nos três casos: isto é, de forma mais ou menos desinvestida e ressalvada ou pela ironia ou pela mordacidade. Chama-se a isto, em rigor, uma contradição performativa e não parece haver volta a dar-lhe, tanto mais que as pessoas em causa não são propriamente incompetentes. Ou seja: houveram-se com a encomenda da única forma que, a seu ver, lhes foi possível. Mas se é assim, só podemos concluir que a encomenda é impertinente, pelo menos tanto como os textos em causa, na óbvia imotivação da sua putativa necessidade.

 
O equívoco vem já dos tempos do DNA e do seu então director, que se lamentava periodicamente de a crítica não enfrentar o fenómeno da literatura light. Falsa questão, pois, como Pedro Mexia já disse (e não me lembro se o escreveu também), os leitores de MRP não lêem resenhas em suplementos literários; e os leitores destes não lêem MRP. A que atribuir então esta missão auto-delegada, do Público e do Expresso, no sentido de dedicarem resenhas longas ao romance de MRP? Podemos invocar o mercado e o peso dos números; ou o papel supostamente pedagógico de quem – autora e editora – assim «arrasta para a leitura quem habitualmente não lê». Mas este último argumento é também o mais demagógico e inútil: «arrastar pessoas para a leitura» não é em si um mérito, tanto como «arrastar pessoas para o consumo de charros» não é necessariamente um mal: depende do uso que se dá a essas coisas e sobretudo do que sucede depois. Se um/a leitor/a não sair de romances como os de MRP para outro tipo de livros, não se vê em que é que essa ocupação do seu tempo seja superior àquela que consiste em gastá-lo na leitura de jornais (por mim, vou ao ponto de sugerir O Jogo, aliás um jornal competente) ou mesmo na de legendas de séries de TV. A leitura, em si, sejamos claros, não é um bem: depende, sempre, do que se lê e de como se lê. E a evidência empírica demonstra à saciedade que quem lê autores como MRP por sistema não passa mais tarde a, digamos, Thomas Mann. Pretender o contrário – e é curioso como os eternos advogados desta tese beata são os editores de lixo literário – consiste em supor uma espécie de bondade ontoteológica no acto de ler que integra o legado mais cansativo e dispensável do humanismo.


A verdadeira razão para esta febre resenhista do romance de MRP não tem a ver com nada disto, mas sim com a perda ou desvanecimento do ethos da crítica. Não existe hoje uma razão visível para a existência da crítica nos jornais em Portugal, como é perceptível quando os percorremos, tal a sensação de falta de critério e de incapacidade em discriminar o relevante e o irrelevante, como se vê pelo caso em análise. A única razão para a sua manutenção é a inércia: pareceria mal, apesar de tudo, que jornais de referência deixassem de dar espaço aos livros que cada vez se publicam em maior número. Esta é provavelmente a explicação para a inércia acima referida: se se publicam muitos livros, os jornais, que são barómetros sociais, não podem deixar de reflectir o fenómeno. Reflectir o fenómeno não é porém o mesmo que reflectir sobre o fenómeno e há toda uma história da crítica nos jornais que percorre a latitude e ambivalência destas duas atitudes. É porque a crítica não consegue hoje produzir uma razão convincente para continuar a «reflectir sobre o fenómeno do livro» que encontra no reflexo passivo do mercado a sua última justificação. Que se trata de uma justificação acrítica, é relativamente evidente. E que a crítica nada tem, de facto, a dizer a fenómenos como o de MRP, é o que percebemos quando lemos a entrevista de Carlos Vaz Marques ou as resenhas de Conceição Caleiro e Rogério Casanova. Vaz Marques adopta desde o início um tom que não é usual em si quando entrevista, digamos, Lobo Antunes, Saramago ou outros autores consagrados; Caleiro faz notar, com minúcia exemplificativa, que a autora ainda não faz literatura, por muito que se esforce; e Casanova ataca por todas as frentes, num festival de bordoada e estilo que inclui a descoberta de uma troca de nome de personagem (um tipo de fenómeno não inusual em escritores que jogam noutra Liga, já agora).

 
Não estou com isto a defender que a crítica pratique necessariamente as boas maneiras e o tom cordato: a crítica não tem de ser um discurso evangélico, e quem a veja assim melhor fará em abandonar esse ramo de actividade. Posso reservar os meus instintos caridosos para com os alunos e alunas que me aconselham a leitura de um certo romance de Paulo Coelho: percebo que o livro lhes mudou a vida e que mo sugerem por amizade, desejando que também a mim me altere como a eles. Mas se e quando não consigo passar da p. 28, toda a caridade que reservo aos /às estudantes se desvanece em relação ao autor de tal livro, desde logo por uma coisa daquelas produzir um tal efeito sobre pessoas que aprecio. Mas isso não me suscita uma necessidade de crítica literária, pois antecipadamente sei da sua impertinência face a tudo o que está em causa (um mercado planetário, um consenso entre almas equivocadas sobre aquilo que a literatura é e pode prometer); suscita-me sim, digamos, uma reserva não só estética mas moral, que contudo guardo em mim (e supor que as obras literárias não suscitam, ou não devem suscitar, em nós reacções morais, é pura tolice). Não vejo que seja possível enfrentar criticamente aquilo que quase nada tem a dizer aos valores e critérios da arte literária com a qual na modernidade a crítica se relaciona e de que é a contraface secular – mesmo quando o dilema, ou a aporia, reside em que o triunfo irreservado desta «literatura internacional» coloca em causa a sobrevivência pública não só da crítica mas da própria literatura. A meu ver, a única forma de enfrentar fenómenos deste tipo é a pedagogia de toda a outra literatura que realmente conta: com toda a morosidade e incerteza performativa inerentes aos processos pedagógicos, que não podem deixar, por isso, de ser críticos, à sua maneira. Mas que a crítica nada tem a dizer a MRP é o que toda esta sobreexposição vem demonstrar enfaticamente. Seria caso para perguntar, como antes sugeri, qual a situação preferida pela autora (e pelo seu editor, já agora): a ignorância ostensiva a que até aqui a crítica a votava, ou esta súbita atenção despreziva?

 
A questão, contudo, insisto, não é moral, mas sim relativa ao funcionamento da crítica: a única forma de a crítica se relacionar com MRP é esta (ou andar a caçar-lhe o copy-paste, como fez João Pedro George, o que dá no mesmo). Só que, se é esta, não consigo deixar de a achar imensamente tautológica e dispensável. No que me toca, a minha única relação com MRP é a que ocorre quando entro em certas redes livreiras e a vejo à porta, em pose e foto retro. Não lhe fica mal, diga-se. E, para mim, é bastante. O resto? Silêncio, exílio e manha.

Osvaldo Manuel Silvestre

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