Os Livros Ardem Mal

Mulher, 30 anos, leitora de Cossery

Posted in Comentários by Ana Bela Almeida on Sexta-feira, 11-07-2008

A condição enunciada no título deste post é, segundo o próprio Albert Cossery (Cairo, 1913-2008), uma raridade. Na longa entrevista concedida a Michel Mitrani afirma nos seus livros gostar de “troçar” um pouco das mulheres:

Das mulheres, não das raparigas. E, não obstante, tenho leitoras femininas que me lêem… (p.98)

O clube de Cossery seria, então, aquele onde “menina não entra”, quero dizer, onde a mulher não entra. O mundo Cossery só admite homens, crianças, raparigas até aos quinze anos e papagaios de papel. Sempre me pareceu injusto (sempre, desde que passei dos quinze) não encontrar lugar neste universo cosseriano, das sestas prolongadas e do ópio nos cafés. O espaço de fuga à vida adulta, alheio ao dinheiro e ao trabalho, é o mais propriamente literário dos lugares.

Mitrani, a dada altura, comenta aquilo que considera ser o grau de “humanidade” das personagens do escritor egípcio:

– Estas personagens são também muito humanas. Medhat é de tal forma humano que, por compaixão, se casa com a filha de um varredor. (pag.67)

Ao que Cossery responde:

As minhas personagens são os únicos seres humanos que existem. (pag.67)

Pode ser que as personagens sejam os únicos seres humanos com uma existência real, no sentido em que esta é certamente mais duradoura e imutável do que a nossa. Mas penso que Cossery quer aqui dizer uma coisa muito mais simples: as personagens são os únicos seres dotados de humanidade no sentido em que são os únicos com um verdadeiro sentido de compaixão pelo outro, de piedade, que, de certa forma, seria sempre um sentimento incompleto e frustrado no lado de cá dos livros.

Mitrani, Michel (entrevista), Conversas com Albert Cossery, Lisboa: Antígona, 2002, 105 pp. Trad. Ana Paixão[972-608-134-3]

Ana Bela Almeida

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